A classe trabalhadora e a reprodução do discurso liberal

Em artigo, Jordana Dias Pereira, socióloga da Fundação Perseu Abramo, analisa os motivos que levaram a classe trabalhadora a adotar a orientação liberal e chegar a resultados como, por exemplo, a eleição de uma...

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Em artigo, Jordana Dias Pereira, socióloga da Fundação Perseu Abramo, analisa os motivos que levaram a classe trabalhadora a adotar a orientação liberal e chegar a resultados como, por exemplo, a eleição de uma figura como João Doria a prefeito de São Paulo. Leia

Por Jordana Dias Pereira*

Uma boa polêmica tomou conta de redes sociais a partir da recém-lançada pesquisa da Fundação Perseu Abramo, que aponta uma tendência das camadas de menor renda da nova classe trabalhadora para a orientação liberal.

A princípio, é importante destacar que este resultado não é uma novidade para o campo progressista. Há extensa bibliografia sobre os efeitos da ascensão social e do aumento do poder aquisitivo neste estrato social específico.

Os governos do PT, com políticas de ampliação do crédito e de aumento do salário mínimo, possibilitaram que o povo alcançasse aquilo que almejava num primeiro momento: acesso aos bens consumo (eletrodomésticos, carro, casa própria…). Isso deve ser visto como uma conquista importante da classe trabalhadora.

Deve-se refletir, no entanto, sobre o outro efeito desse alargamento do acesso ao consumo: parte dos serviços essenciais passaram a ser vistos como mercadoria e não como direito. Na ânsia de encontrar melhor atendimento médico, melhor ensino, a classe trabalhadora opta pelo que parece oferecer mais eficácia e eficiência e passa a pagar por ele. Alguns autores denominam este fenômeno como efeito da ‘inclusão pelo consumo’.

Neste sentido, pode-se dizer, com segurança, que o período das gestões Lula e Dilma foi também fortemente marcado pelo aumento da busca por serviços privados de saúde e educação. Mais adiante, esse fenômeno resultou na vitória, em São Paulo, de João Doria Junior, que usou um discurso privatista em sua campanha. Evidencia-se, assim, que o consumismo e o liberalismo sempre estiveram presentes no imaginário coletivo desta população.

Aos olhos de alguns, esta constatação pode parecer uma contradição. Qual é, afinal, a explicação para isso? Por que a classe que mais precisa de políticas públicas reverbera um discurso de menor intervenção do Estado?

Primeiramente, deve-se considerar que a imensa maioria da população ainda se informa, principalmente, pela TV aberta. Os sites e institutos liberais insistem em ignorar que há interesses econômicos que disputam a opinião dos espectadores para que elas pensem justamente dessa forma. Ora, os planos de saúde, por exemplo, têm interesse em que o maior número de pessoas faça adesão a eles. Fazem publicidade e financiam as TV’s abertas às quais a maioria da população se expõe. Interessa também aos planos de saúde, por exemplo, que o serviço público não funcione. Assim funcionam os lobbies (institucionalizados nos EUA, e ainda clandestinos no Brasil, mas muito presentes no financiamento de campanhas eleitorais). Assim, forma-se toda uma rede de mídia-empresas-políticos que torce pela falência do serviço público de saúde e adesão dos mais pobres aos convênios médicos privados. A ideologia dominante se faz presente, afinal, e impera justamente via esse circuito: mídia e consumo. Este exemplo pode ser alargado a vários outros segmentos como educação, transporte e cultura. Interessa às universidades particulares a falência das públicas; às grandes concessionárias de carros a falência do transporte público etc.

Também é um dado importante que a amostra estudada na pesquisa encontra em shoppings centers seu espaço prioritário de lazer. Assim, não é de se surpreender que ela tenha seu discurso mediado pelo consumo e pela mercantilização. O capitalismo vende como imagem de sucesso a posse de iates, mansões, carrões.

Para finalizar, é fundamental evitar distorções dos resultados: os sites liberais desconsideram a parte da pesquisa que fala sobre a diferença do discurso e da vida real e prática. Num primeiro momento, os entrevistados, que não costumam refletir muito sobre aspectos mais abstratos e conceituais, de fato, fazem discursos mais difundidos na mídia. Num segundo momento, no entanto, quando questionados sobre a vida cotidiana, as políticas públicas são muito valorizadas. A presença do Estado é sentida e desejada. Este sentimento aparece de maneira muito consistente quando falam da importância de carteira assinada, na recepção positiva ao bolsa família, na exigência de saúde pública, na necessidade do uso do transporte público e valorização das melhorias das gestões petistas na cidade de São Paulo. Seguem destaques:

O liberalismo e o discurso meritocrático levados ao limite podem ser muito cruéis com as camadas da população que já têm menos oportunidades. Ao acessar o conjunto das entrevistas realizadas pela FPA, uma salta aos olhos: uma entrevistada adulta moradora do extremo da zona leste, por exemplo, se queixou pelo fato de não ter conseguido acessar o ensino superior. Enumerou diversas razões de ordem material e prática: não tinha faculdade perto de casa, o deslocamento trabalho-casa-faculdade tomava muito tempo, não tinha dinheiro para transporte, tinha que trabalhar até tarde, teve filho cedo etc. No entanto, ao final, concluiu: “mas, se eu tivesse me esforçado mais um pouquinho, talvez estivesse melhor agora”. A ideologia do mérito difundida massivamente na mídia convence a população de que todos podem “vencer na vida” (expressão muito usada pelos entrevistados) se houver, unicamente, esforço pessoal. Até os sites liberais sabem que esta constatação é falaciosa. As desigualdades estruturadas e estruturantes da sociedade são barreiras quase intransponíveis para alcançar o que a classe trabalhadora entende como “sucesso”.

Assim, ao contrário do que dizem os sites liberais, o PT não se equivocou quando “acreditou que havia luta de classes”. Ao contrário, se equivoca quando a subestima. As gestões petistas não enfrentaram a grande mídia e não encamparam a necessária reforma da comunicação que diminuiria a influência do poder econômico sobre os meios; tampouco apresentou a reforma política que tornaria os espaços políticos de representação mais transparentes, democráticos e inteligíveis à maioria da população. E ainda não adotou políticas estruturantes para os grandes centros urbanos que constituíssem espaços públicos de lazer e sociabilidade – políticas estas que poderiam disputar a preferência da classe trabalhadora pelos shoppings centers, ao passo que estabeleceria diálogo com um sentimento latente de coletividade expresso pelos entrevistados. O PT melhorou a vida das pessoas da porta de casa para dentro, mas elas demandam também melhoras da porta de casa para fora.

E uma política que faça sentido para as pessoas deve, necessariamente, tratar da melhoria de vida delas. O desafio está colocado: como renovar a política e tratar os anseios desta população de maneira menos preconceituosa e determinista, mas fortemente compromissada com a qualidade de vida da classe trabalhadora das periferias do país?

Esta foi a primeira pesquisa da FPA sobre o imaginário da periferias de São Paulo desde o golpe de 2016. Que venham mais pesquisas e mais debates.

*Jordana Dias Pereira é socióloga

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