“Eu só posso ficar muito feliz, individualmente e coletivamente”, diz professora negra sobre a aprovação de cotas em universidade

A política de ações afirmativas na UFMG para negros, indígenas e pessoas com deficiência será implementada a partir do primeiro período letivo de 2018 nos programas de mestrado, mestrado profissional e doutorado. Em entrevista...

521 0

A política de ações afirmativas na UFMG para negros, indígenas e pessoas com deficiência será implementada a partir do primeiro período letivo de 2018 nos programas de mestrado, mestrado profissional e doutorado. Em entrevista à Fórum, professora negra da instituição falou sobre a importância da medida

Por Alessandra Dantas, colaboradora da Rede Fórum

O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aprovou por unanimidade, no último dia 4, a reserva de vagas para negros, indígenas e pessoas com deficiência nos cursos de pós-graduação stricto sensu. A resolução determina que a reserva para negros seja de 20% a 50 % das vagas. Para indígenas e pessoas com deficiência, cada programa de pós-graduação vai ofertar um edital suplementar com uma vaga por nível (mestrado e doutorado), criando 2 vagas para indígenas e 2 para pessoas com deficiência.

A professora de Didática da Faculdade de Educação da UFMG, Analise da Silva, concedeu entrevista à Rede Fórum de Jornalismo. Com 29 anos de docência na educação básica e 8 de UFMG, Analise foi vítima de discriminação no ambiente acadêmico logo após ingressar na universidade. Na época, a professora também foi bem recebida por vários colegas, que compreendem a necessidade do respeito e do reconhecimento à profissional mulher negra que é.

Na entrevista, a docente analisou a importância da mudança nos programas de pós-graduação de uma das principais universidades do país, retomando a importância da educação básica para refletirmos sobre o papel das Universidades e Institutos Federais

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Rede Fórum – Como a senhora avalia a política de implementação de reserva de vagas na pós–graduação da UFMG?

Analise da Silva – A Faculdade de Educação é tida como um espaço diferente dentro da UFMG. A gente ouve isso dos estudantes das licenciaturas o tempo todo nas aulas. Questões como relações étnico-raciais, pessoas com deficiência, pessoas LGBT, educação inclusiva, educação não homofóbica e direitos humanos são discutidas o tempo todo aqui dentro na formação de professores. Mesmo assim, eu fiz mestrado e doutorado aqui e, nas duas situações, tive pouquíssimos colegas negros, pouquíssimos colegas pobres. Se a gente compreender que o processo de exclusão, de invisibilização, de negação do direito à educação superior, à pós-graduação, a uma formação que não seja de nível técnico, que isso é, historicamente, intencionalmente implantado, percebemos que essa exclusão do povo negro, do povo pobre, é algo que está revelado na história do Brasil. Termos cota na pós-graduação, na minha concepção, é uma busca de reparação dos danos causados por essa política que é orquestrada e deliberada. Então, quando eu soube da aprovação – por unanimidade – e que o debate feito no Cepe (Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFMG) foi muito qualificado, eu só posso ficar muito feliz. Feliz individualmente e coletivamente. Feliz pela possibilidade de que tenham cada vez mais negros na graduação e na pós-graduação e que sejam trazidos para cá os dilemas que a gente enfrenta lá na educação básica. E que esses dilemas recebam da academia aquilo que é função dela, que é o retorno social para se melhorar cada vez mais na supressão dessas desigualdades que são enormes.

Rede Fórum – Do ponto de vista nacional, pensando nas Universidades e Institutos Federais, qual a importância de se discutir as cotas na pós-graduação?

Analise – Meu campo de pesquisa de produção acadêmica e de militância é a Educação de Jovens e Adultos, que conta hoje com 14 milhões de pessoas com mais de 15 anos não alfabetizadas. São 52 milhões de pessoas com mais de 15 anos que não completaram o ensino fundamental e mais de 22 milhões de pessoas com mais de 18 anos que não completaram o ensino médio. Uma parte muito significativa desses 88 milhões de brasileiros e brasileiras, e estou falando de 43% da população do país, não se alfabetizou e não chegou ao ensino médio porque, quando era criança e adolescente, foi vítima de racismo, de preconceito, de violência física, psicológica, verbal, simbólica e concreta. E isso por serem mulheres, pobres, indígenas, por serem pessoas que tinham orientação sexual e identidade de gênero não heterossexual, pessoas negras, seguidores de religiões consideradas fora do padrão. Essas pessoas foram discriminadas, pressionadas, até abandonarem a escola. “Mas, professora, a pergunta que eu te fiz não era sobre educação básica, era sobre educação superior”. Por que eu estou então te respondendo dessa forma? Como é que ele vai chegar na educação superior se ele não concluiu a básica?

E se ele não concluiu a educação básica é porque na nossa sociedade, hoje em dia, no ano de 2017 depois de Cristo, as pessoas discutem o seguinte: “não pode falar de gênero na escola”. Não pode falar de gênero! Não pode falar com os meninos que eles não podem bater em uma menina porque ela é menina. Não pode falar que eles não podem bater, não podem estuprar ou surrar o colega porque ele é homossexual. Porque o que essas pessoas estão propondo quando defendem a proposta da “Escola Sem Partido” é que quem diz como deve ser ou não é a família. Então, se eu me deparo com um aluno cuja família ensina que ele pode sim estuprar o coleguinha se for “bicha”, eu tenho que continuar dando minha aula de história normalmente. É essa que é a lógica de um programa como o “Escola Sem Partido”.

Então, voltando às instituições de ensino superior, eu tive que dizer tudo isso para ressaltar que nós, instituições de ensino superior, tínhamos que nos levantar há muito tempo e dito o seguinte: “essa proposta é muito mais do que a mordaça dos professores, ela é a proposta de se permitir o estupro das pessoas LGBT, o espancamento da menina, a ridicularização, o racismo, o preconceito com o indígena dentro da educação básica”. É isso que essa proposta está tentando trazer.

Por fim, eu avalio que, embora tenhamos avançado muito quando instituímos a cota para a pós-graduação na UFMG, não só aqui, mas em todas as UFs, todos os IFs, todos os Cefets, ainda nos falta conseguir entender a nossa missão enquanto instituições de ensino superior. Vai além de entregar diploma para as pessoas. Tem a ver também com o conteúdo de qualidade social que esse diploma vai carregar.

Foto: Alessandra Dantas/Rede Fórum de Jornalismo



No artigo

x