O empate catastrófico e a saída possível

Se na manhã de terça, a delação de Marcelo Odebrecht e uma possível doação de R$ 13 milhões em espécie a Lula tendia a embaralhar a vida nacional, no fim da tarde, o catálogo...

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Se na manhã de terça, a delação de Marcelo Odebrecht e uma possível doação de R$ 13 milhões em espécie a Lula tendia a embaralhar a vida nacional, no fim da tarde, o catálogo de condestáveis da República teve o efeito de uma bomba atômica. A ele se soma o Exocet dos R$ 40 milhões na testa de Michel Temer, revelado dia seguinte

Por Giberto Maringoni*

A lista de Facchin mudou a conjuntura da água para o vinho, em menos de 48 horas. Se na manhã de terça, a delação de Marcelo Odebrecht e uma possível doação de R$ 13 milhões em espécie a Lula tendia a embaralhar a vida nacional, no fim da tarde, o catálogo de condestáveis da República teve o efeito de uma bomba atômica. A ele se soma o Exocet dos R$ 40 milhões na testa de Michel Temer, revelado dia seguinte.

Como diz o filósofo Paulinho da Força, “quem não tem prestígio não está na lista”. A coletânea de uma centena de nomes de quase todo o espectro político zerou o jogo. Deu empate.

Em política, Gramsci cunhou o conceito de “empate catastrófico” para nominar uma dualidade de poderes com forte potencial degenerativo. Estamos em um equilíbrio desse tipo.

Enquanto ele durar, a economia rapidamente deslizará para o abismo e direitos em penca podem ser vítimas do facão das bancadas brucutus da Câmara e do Senado.

GANHA MAS NÃO LEVA

O empate mostra que a força dominante – o governo – pode vencer, mas não estabiliza a vitória. Colhe crescente oposição, mesmo de sua base de apoio. Impõe perdas de direitos constitucionais e arrebenta com o Estado e com o país.

De outra parte, quem poderia disciplinar o jogo não tem condição de vencer agora. Não apresenta também rota – projeto – consistente de superação da crise. A seu favor, deve ser dito que pode alcançar legitimidade maior para superar a hecatombe em curso.

A tarefa imediata da segunda coalizão é reconstruir o centro político com capacidade de diálogo e articulação com a maior parte das instituições nacionais. A desestabilização dos meses recentes se dá, entre outras coisas, porque o deslocamento do PMDB para a direita deixou um vácuo no centro. A polarização – algo em tese positivo na disputa política -, não gerou vencedor, gerou impasse.

Essas são as forças no tablado. De um lado, as coalizões lideradas por Michel Temer e de outro uma movimentação que pode ter em Lula um ponto de coesão.

O projeto de Temer é o desmonte. O do outro lado não é claro. Dependerá da disputa e das correntes que se juntarem ao seu redor.

Se o moralismo desse o tom na refrega, estariam no páreo apenas os que ficaram de fora da devastação: Marina, Ciro, Dória e Bolsonaro. Nenhum deles reúne condições de guiar o país para uma solução da crise. Logo, o udenismo só nos leva às bordas do ringue.

Alternativas? Em português claro, duas estão ao alcance das mãos:

A PRIMEIRA: Deixar a crise se radicalizar. Como não existe uma força popular com densidade para influenciar no esgarçamento da situação, essa não parece ser boa solução. A radicalização pode resultar em tentativas de recomposição da maioria parlamentar por parte do governo e na exacerbação de mobilizações de intolerância na base da sociedade. Ou seja, pode ser mau negócio para os de baixo.

SEGUNDA: Assistir a um grande acordo nacional que invalide qualquer condenação a Lula. Ele se tornaria automaticamente um candidato de consenso para 2018, com chances enormes de voltar ao poder. Provavelmente terá um programa mais rebaixado do que o de 2002.

Nas duas situações, a maneira que o campo progressista pode intervir no combate é impulsionar as mobilizações. Isso começa pela greve geral do dia 28, leva a um aumento da octanagem das demandas sociais e desemboca na exigência de nenhum direito a menos. Pode ter musculatura suficiente para se tornar sujeito importante, em especial na segunda hipótese, a da coalizão em torno de Lula.

Meu amigo Valter Caldana faz uma interessante provocação em sua página do Facebook. Escreve ele:

“Quem sabe esta não é, afinal, a nossa guerra civil, (em versão tropical, sem baixas em combates mortais, ainda que com baixas, e muitas, em combates morais) a tal que, dizem, sem tê-la jamais amadureceremos”.

Os fatos estão muito quentes, batendo em nossa cara, para sentenciarmos desde já se estamos ou não diante de uma guerra civil. Mas o fato é que se desenha uma situação com a seguinte encruzilhada:

A. Uma parte destroi a outra (e nenhuma parece ter esse poder) ou

B. Costura-se um grande acordo (que será acusado de ser uma “grande pizza” etc. etc.).

Tudo caminha para a segunda hipótese, por aparente falta de opções.

Não é o melhor caminho.

É apenas o menos pior.

(De várias conversas com Artur Araújo, que não tem responsabilidade por possíveis bobagens aqui expressas)

* Gilberto Maringoni é professor do Bacharelado em Relações Internacionais (BRI) e membro do corpo docente da Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC (UFABC)

Foto: Beto Barata / PR



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