Um dia depois da Greve: a outra Casa Monstro: ensaio de “vampirismo”

“Acho que acordamos o vampiro (que nem estava aposentado na outra Casa Monstro): lá no Jaburu se ouviu: nós venceremos você e tudo o que você representa!”. Leia mais na coluna da semana de Leandro...

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“Acho que acordamos o vampiro (que nem estava aposentado na outra Casa Monstro): lá no Jaburu se ouviu: nós venceremos você e tudo o que você representa!”. Leia mais na coluna da semana de Leandro Seawright

Por Leandro Seawright*

A outra Casa Monstro não é ficção. Longe do Jaburu, Palácio, ela é bem “bonita” (tem espaço para muita gente morar). Mas, provoca curiosidade, espanto. Assombro.

Nela (na outra Casa Monstro), há aposentos.

Quando, pois, o vampiro que nela habita entra em um dos quartos da outra Casa Monstro – que é a sua própria, ele se “aposenta” obscuramente (combinamos que “aposentar”, aqui, refere-se a entrar num aposento): aposenta porque já é um aposentado mesmo; precocemente aposentado, diga-se: não gosta da luz do dia, da hora do trabalho: tem um Congresso que vela por ele, eles, ele, eles, os empresários, os burgueses, os “patos” e os “lúdicos”.

Entrou em seus aposentos muito cedo na vida, e, insatisfeito, agora sai de seus aposentos – como um assombro – apenas para impedir que pessoas se aposentem; é uma obsessão; não suporta, por isso, que trabalhadores descansem e tenham o “privilégio” do digno envelhecimento. Ele acha que professor ganha bem, que não se deve também “pensar com qualidade” (…em crise alguma…): deve-se exaustivamente “trabalhar”, “tra…”, “ba…”, “lhar…”. Dizem, mas, decerto deve (?) ser “mentira” – dessas “de Cunha”, que tem “pactos escusos”: dizem mesmo (“caluniosamente”, talvez.?.) que é pai de Daniel Mastral (na Eleição de 2010, por exemplo, os evangélicos mais conservadores acusavam Daniel Mastral de ex/satanista). Por certo, calúnia.

O vampiro que habita na outra Casa Monstro é objeto de “rejeição nacional”; sua aprovação é baixíssima porque “pessoas más”, que nem são tão petistas assim, acusam-no: ele “assusta as pessoas”. Agoniza (mas come caviar): emite sons estranhos como que saídos da garganta. Nos seus aposentos ele se dopa (apenas metaforicamente). Ele próprio – que não é inocente (distante disso) – se permite “usar”, e usa, para “sugar o sangue” de pessoas que tem péssimos costumes (porque o vampiro é um guardião da nação), tais como o hábito, que já prenunciei acima, do “injusto” repouso na velhice com um pouquinho (só um pouquinho…) de dinheiro para “futilidades” como comida, remédios e um pãozinho francês – porque às vezes dá vontade de um pãozinho. O vampiro odeia que as pessoas se aposentem como ele: reputa seus aposentos por intocáveis: não deixa ninguém chegar perto da outra Casa Monstro envolta em Pinheiros.

O vampiro, com contornos faciais propícios ao apelido, agoniza sim, porém é defendido por um “esquadrão irritadiço”, uma “hoste truculenta” e “assassina” (mas isso é mentira) que é filhote da “gloriosa Revolução de março de 1964” (que ironia!), que impede o acesso das pessoas à sua calçada (que é, por lógico, pública), para quaisquer tipos de manifestações “malévolas” na contramão dos seus hábitos “macabros”. Falam que o tal vampiro não gosta de que se aproximem dos seus “aposentos”, dos seus “privilégios”: lugar de preto e de pobre é na periferia. Seu “esquadrão legal”, meio cinza (como o cinza “Doriano” do “Aplicativo” pra ir trabalhar…), lembra-me muito uma “matilha”: “cães bravos”, “irritados”, “nervosos” e “doidos por televisão”, “jornais” (afinal, como nos filmes ou séries tolas, cachorros gostam de “jornais”): gostam de dizer que aquela “gente bandida”, que quer que “o aposentado” não articule para impedir “aposentadorias de outros”, faz parte de um “bando”, um “banditismo” – que são “bandidos” propriamente ditos. Então, criminalizam e “o” Globo (do mundo que gira), infame…, transmite, omite, (d)emite: vocifera contra os tais que querem se aposentar. Porque só o safadinho do vampirinho é que pode, que pode, que pode se aposentar!

Se estivesse em casa, porém, o vampiro estaria no aposento (aposentado, portanto): veria tudo de seu quarto com uma jovenzinha, uma jovem, uma jovem (des)esperança de que tudo dê errado. O vampiro quer sangue: dizem que de trabalhadores (porque às vezes é bem vermelhinho). E alegam que é porque ele “deve” para aqueles que o colocaram lá, isto é, para as pessoas que seduzem outras pessoas por meio de “isca exótica”: um pato altamente atrativo – “místico”: o pato tem tal poder de persuasão que leva pessoas de cérebros “dilatados”, “avantajados”, para um lugar de diversão – um playground – onde se dança ao redor da ave de vento, da ave inflável. E o castigo é esse: se você não adorar o grande deus pato, se quiser se aposentar no sentido de chegar perto dos aposentos do aposentado: bomba! Bomba de efeito (i)moral, lágrimas, sangue na face de manifestantes: gente que não coloca cordão de isolamento e provoca com grades – fazem “presos políticos”; o deus pato é vingativo de fato. Eu estava lá. Vi tudinho!.. E ele quer que os trabalhadores morram trabalhando: desrespeita mulheres, minorias, negros e tudo que não se pareça com pato: “quá, quá, quá”.

No entanto, percebi que o povo que quer se aposentar propõe mais que a maior Greve Geral da história republicana brasileira; o movimento é maior: a) vencer as “reformas” que nada têm de “modernização” (b) antecipar eleições gerais (quem sabe?) (c) mudar o sistema político atrasado do Brasil (d) restabelecer a ordem democrática no país.

O que vi?

Em cada bomba nascia um Rev. Martin Luther King Jr, um Dom Paulo Evaristo Arns, um Malcom X, um Mandela, um Lamarca, uma Pagu, uma Nise da Silveira – intelectuais, estudantes, trabalhadores, jovens, idosos… éramos um só: uma ontologia. Estamos todos juntos.

Acho que acordamos o vampiro (que nem estava aposentado na outra Casa Monstro): lá no Jaburu se ouviu: nós venceremos você e tudo o que você representa!

O Largo da Batata que ferve e a Batata que assa (a sua)!

Viva os Centenário da Primeira Greve Geral!

E… para não embrutecer o coração: cheguei em casa e lembrei dos versos que o reverso trouxe à memória:

“Não sou nada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.
Fernando Pessoa.

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leando_Seawright_-Alonso-1-150x150* Leandro Seawright é historiador e professor universitário. Pós-doutorando e doutor em História Social pela FFLCH/USP. Foi pesquisador da Comissão Nacional da Verdade  (CNV). É autor de diversos artigos acadêmicos e livros, entre eles “Ritos da Oralidade: a tradição messiânica de protestantes no Regime Militar Brasileiro”.



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