Chico D’Angelo: O Flagelo de Hipócrates

Em artigo, deputado Chico D’Angelo faz uma análise do atual ministro da Saúde: “O engenheiro Ricardo Barros é, sem dúvida, o ministro da saúde mais desqualificado dos quase 64 anos de história do ministério....

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Em artigo, deputado Chico D’Angelo faz uma análise do atual ministro da Saúde: “O engenheiro Ricardo Barros é, sem dúvida, o ministro da saúde mais desqualificado dos quase 64 anos de história do ministério. Sob as bênçãos de Hipócrates, patrono da medicina, a população brasileira e os profissionais da área saberão lutar para que o Ministério da Saúde resista a este flagelo contemporâneo”. Leia

Por Chico D’Angelo*

Ao longo da história, a progressiva organização da saúde pública se mostrou decisiva para que diferentes nações tivessem êxito em sua busca por desenvolvimento e bem-estar. No Brasil, o primeiro ministério com ações na área foi criado em 1930, no governo Vargas, com o nome de Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública. Em 1937, passou a se chamar Ministério da Educação e Saúde e, em 1953, Ministério da Saúde (MS). Sua criação teve como contexto a gradativa ampliação da responsabilidade dos governos na defesa e promoção da saúde da população.

Ao longo de sua trajetória, o MS foi gerido por algumas personalidades notáveis pelo saber e pelo compromisso social. Dentre os já falecidos, Wilson Fadul, Carlos Sant’anna, Adib Jatene e Jamil Haddad souberam honrar os preceitos da boa gestão pública e da busca incessante por melhores indicadores nessa área. Recentemente, o meu estado do Rio de Janeiro contribuiu com uma grande figura da saúde pública brasileira, José Gomes Temporão. Seus esforços, e o de outros tantos, permitiram ao Brasil desenvolver programas e políticas exemplares no contexto internacional. O Programa Nacional de Imunização, o de transplantes de órgãos e o de medula óssea, a Farmácia Popular, o SAMU, os controles do tabaco e das DST/AIDS apenas se consolidaram porque os eventuais gestores do MS tiveram a grandeza de tratá-los como políticas de Estado, infensos à alternância de partidos políticos.

Nem sempre foi assim. Em muitos casos, nosso presidencialismo de coalizão se mostrou desastroso para a indicação de ministros da saúde, mas em nenhum momento se atingiu um grau tão elevado de aberração como neste governo ilegítimo. Com os trâmites de sua escolha já pateticamente expostos, o engenheiro Ricardo Barros é, sem dúvida, o ministro da saúde mais desqualificado dos quase 64 anos de história do ministério.

Investigado por irregularidades na gestão municipal de Maringá, em 2011, e por influência política para benefício pessoal e patrimonial, em 2014, defendeu a tese de que o Direito do Trabalho é extremamente condescendente com o trabalhador (Comissão de Orçamento, 2016). No Ministério, suas iniciativas não se referem aos interesses da população, mas a retribuir os principais financiadores de suas campanhas eleitorais, os planos de saúde (Grupo Aliança, 2014), além de se notabilizar pelas considerações anedóticas e propostas descabidas, como a “denúncia” de doentes imaginários no SUS, críticas ao caráter indisciplinado do mosquito Aedes aegypti e a tese inusitada de que os homens trabalham mais do que as mulheres (em oposição à pesquisa divulgada pelo próprio MS, na mesma ocasião).

Átila, o rei dos Hunos, aterrorizou grande parte do continente europeu na segunda metade do século V. Dizia-se que, por onde passava o chamado “flagelo de Deus”, a grama jamais voltava a crescer. Sob as bênçãos de Hipócrates, patrono da medicina, a população brasileira e os profissionais da área saberão lutar para que o Ministério da Saúde resista a este flagelo contemporâneo.

*Chico D’Angelo é médico e deputado federal pelo PT-RJ



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