Douglas Belchior: Um discurso de Lula em 2003 X Lula a Moro em 2017, enquanto eu sonhava

Ativista do movimento negro, Douglas Belchior, faz texto em dois tempos, a primeira posse de Lula, em 2003, e o seu depoimento agora para o juiz Sérgio Moro. Por Douglas Blechior...

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Ativista do movimento negro, Douglas Belchior, faz texto em dois tempos, a primeira posse de Lula, em 2003, e o seu depoimento agora para o juiz Sérgio Moro.

Por Douglas Blechior

“Brasileiras e brasileiros, não tomamos o poder, vencemos apenas uma eleição. E pra chegar até aqui, tive que fingir. Assinei uma ‘Carta aos Brasileiros’ me comprometendo com os ricos e poderosos. Não fosse assim, nem o exército, nem os banqueiros e nem a Globo permitiriam nossa vitória nas urnas. Eles querem que eu governe pra eles. Eles querem que façamos como eles sempre fizeram, política com acordos no congresso, pagamento por fora para os deputados apoiarem o governo, esquemas com empreiteiras para desviar recursos públicos pra financiamento de campanha eleitoral, essas picaretagens comuns entre os partidos da direita e dos ricos, mas que nós sempre condenamos.

Meu povo, minha gente, eu quero e vou cumprir meu compromisso com vocês. E pra isso preciso fazer uma escolha muito importante. Pra fazer uma política que garanta três refeições diárias para cada brasileiro e acabar com a miséria, pra levar luz pra todos, garantir o direito ao pobre de ter suas coisinhas, comprar geladeira, liquidificador, microondas, televisão, trocar sua mula por uma motocicleta, mas também ter uma escola e um posto de saúde melhor; Para ter uma política de moradia decente, sua casa, sua vida, e pra levar água pro nordeste; Para dar direito ao filho do pobre, da empregada doméstica, do pedreiro, entrar na universidade e virar advogada, engenheira, médica, andar de avião, mudar de emprego; pra fazer reforma agrária e enfrentar o monopólio da grande mídia que na primeira oportunidade, vai tentar nos derrubar. Enfim, pra ter direito à um pedacinho da riqueza que nós trabalhadores produzimos, NÓS VAMOS TER QUE BRIGAR, DESCER O MORRO, OCUPAR AS RUAS, FAZER PRESSÃO TODO DIA, LUTAR, LUTAR E LUTAR!

As elites brasileiras são preconceituosas, racistas ao extremo. eles nunca vão aceitar que um sindicalista, retirante nordestino sem estudo, seja um presidente para lutar por seu povo. A elite brasileira é golpista, entreguista, tem ódio de pobres, negros, nordestinos, gays e tudo que fuja ao seu controle. Querem que eu faça uma aliança, que eu aumente seus lucros em troca de aumentar pra nós, as migalhas. Mas nós não somos inocentes. Nós sabemos que na primeira oportunidade, na primeira crise, no primeiro sinal de fraqueza, eles vão nos derrubar e tomar de volta o governo. Fizeram isso com Getúlio e João Goulart. Vão fazer o mesmo com a gente.

Me convidaram pra ir ao Jornal Nacional ontem, logo depois do resultado oficial. não aceitei. A Globo, como sempre disse o companheiro Brizola, é o maior câncer do Brasil. É a inimiga número 1 da democracia brasileira. Pois fiz a escolha. Me recuso governar conciliado à burguesia entreguista, ao parlamento corrupto, à uma mídia golpista, à um judiciário conivente. Vou governar aliado à partidos e parlamentares decentes, às igrejas progressistas, ao setor do empresariado produtivo e nacional, aos sindicatos de luta, aos movimentos populares, vou governar ao lado do povo que sempre esteve comigo.

Desçam o morro, ocupem às ruas, mobilize sua escola, sua igreja, seu bairro. Eles tentarão nos derrubar. Mas nós somos mais fortes, nós somos a maioria.”

E o que poderia ter sido apenas o maior carnaval fora de época da história do Brasil; e o que ficou registrado​ apenas como a maior comemoração de uma vitória eleitoral que o país já viu, se transformou em mobilização permanente em nome de uma revolução democrática a partir do povo, com o povo e para o povo.

Vingaria? Daria certo? O governo duraria? Jamais saberemos​. Mas, na pior das hipóteses, eles tomariam de volta o poder por um golpe, retirariam direitos e imporiam um regime de exceção. Soa familiar? Mas, por outro lado, a nós restaria um legado histórico pedagógico de luta e resistência. E certamente as esquerdas não se resumiriam ao pó que hoje somos.

E O QUE ME FAZ ACREDITAR NESSA LOUCURA? Respondo: os 60 ou 100 mil pessoas em defesa de Lula, hoje em Coritiba e as muitas milhares que estão ao teu lado, apesar de todos os pesares – em são muitos – em todo país.

Tarde demais? As vezes acho que sim. Outras vezes acho que não. E que bom que a luta é histórica e não ‘matemática’.

E eu? Ora, estou no mesmo lugar que estaria em 2003 de meus sonhos. Adivinha?

Foto:Victor Soares/hor – 162

 



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