A sangria que não estanca

A instabilidade aberta a partir da matéria publicada pelo jornalista Lauro Jardim do O Globo, ou seja, maior empresa de comunicação do País que legitimou o golpe abre um cenário de incertezas. Do ponto...

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A instabilidade aberta a partir da matéria publicada pelo jornalista Lauro Jardim do O Globo, ou seja, maior empresa de comunicação do País que legitimou o golpe abre um cenário de incertezas. Do ponto de vista das forças conservadoras já se buscam as alternativas acordadas. Do ponto de vista das forças populares, não existe outro caminho que não seja ocupar as ruas e exigir imediatamente eleições Diretas Já!

Por Joselicio Junior*

A revelação, nesta quarta-feira, da delação dos donos da JBS, onde o Presidente ilegítimo Michel Temer foi gravado negociando propina para manter Eduardo Cunha calado na cadeia, assim como o senador Aécio Neves que pediu dinheiro para sua defesa na Lava Jato, trás consequências bombásticas para o cenário político brasileiro . O episódio nos remete ao áudio vazado da conversa entre Romero Jucá e Sergio Machado, em maio de 2016, onde o Senador coloca o impedimento da então Presidente Dilma como a única possibilidade para estancar a sangria da Lava Jato a partir de um pacto das forças políticas.

O pacto não girou só em torno das forças políticas, mas também envolveu o judiciário, as grandes mídias e a elite nacional, que colocou no pacote a necessidade de aprovar uma agenda econômica de reformas como o teto dos gastos, flexibilização trabalhista e mudanças no regime da previdência. Medidas impopulares que dificilmente passariam pelo crivo de uma eleição popular, neste sentido, mesmo com o baixo apoio popular o governo continuava sendo legitimado pela grande mídia a implementar as reformas, abrindo inclusive um balcão de negócios com os parlamentares, atendendo demanda da bancada da bala,  renegociando dividas da bancada ruralista, dos municípios e estados e liberando emendas.

Havia uma grande expectativa do governo de que, na próxima semana, seria possível aprovar em primeiro turno a Reforma da Previdência na Câmara e também houve uma comemoração de melhoras nos índices econômicos. Se, de um lado o governo estava legitimado pela elite para fazer as reformas, por outro o pacto de estancar a sangria da Lava Jato não teve sucesso.

O cenário que foi se construindo nos últimos meses apresentava uma disputa no campo das forças conservadoras. Dos representantes da velha política, que se perpetuam no poder desde a redemocratização, alguns até antes, tentando se segurar como velho modelo de fazer política, buscando um acordão para frear as investigações. Têm um grande apoio do Ministro do Supremo Gilmar Mendes, outro campo articulado pelo judiciário  e Ministério Público curitibano, encabeçados por Moro e Dallagnol, que nitidamente agem de forma seletiva, abusiva, mas com forte endosso da grande mídia. Outro flanco é a Procuradoria Geral da União, liderada por Janot que está no centro das investigações dos políticos com foro privilegiado. No áudio vazado, Jucá afirma para Machado que os objetivos são “Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com…”.

Neste sentido, até ontem, o que parecia estar em jogo era a disputa do que fazer para 2018, uma saída com a velha política “acordo”, proposto pelo Jucá, fazendo reformas, estancando a sangria e construindo um nome para sucessão como Alckmin, por exemplo. Outro cenário seria acabar com a classe política tradicional e surgir um novo, “não político”. Nesse cenário, ganham peso nomes como Dória, Luciano Huck e Moro. Um terceiro cenário é o crescimento da extrema direita como uma saída moralizadora, através da figura do Bolsonaro, ou também a possibilidade de uma saída centrista como a Marina Silva.  Porém nenhuma dessas alternativas, segundo pesquisas, se mostraram  capazes, em um primeiro momento, de superar a candidatura do Lula.

É importante destacar que além dos políticos tradicionais e do judiciário, também há forças dos setores econômicos que ajudaram a financiar esse projeto desastroso nas últimas décadas em troca de benefícios do Estado para crescerem. É o caso da JBS, Odebrecht e outras que estão super constrangidas nos últimos anos vendo os seus executivos sendo presos, passando por constrangimentos públicos, seus negócios perdendo peso. Um grande exemplo foi a desastrosa Operação Carne Fraca, que trouxe grandes prejuízos para o setor.

Concordo plenamente com o Professor Dennis de Oliveira, que afirmou: “Nenhuma nação do porte do Brasil sobrevive a ser governado por uma camarilha de mafiosos que quer destruir qualquer possibilidade de projeto de país. Mesmo os grandes empresários que podem até ser simpáticos a reformas que tirem direitos dos trabalhadores para poderem aumentar seus lucros, mas não são suicidas de apostarem em um projeto que a médio prazo vai destruir qualquer ambiente propício para fazer negócios. Ainda mais quando este (des)projeto é construído a partir da criminalização de empresários que financiam as campanhas destes mesmos políticos. Ou alguém imagina que parcela da burguesia, em particular esta que tem uma relação de dependência maior com o Estado, está achando legal vira e mexe executivos serem presos, algemados e tudo transmitido em rede nacional?”

A instabilidade aberta a partir da matéria publicada pelo jornalista Lauro Jardim do O Globo, ou seja, maior empresa de comunicação do País que legitimou o golpe e apoiava as reformas de ataques à classe trabalhadora, coloca em xeque o governo golpista que não tem mais nenhuma condição de permanecer e que abre um cenário de incertezas. Do ponto de vista das forças conservadoras já se buscam as alternativas acordadas. Do ponto de vista das forças populares, não existe outro caminho que não seja ocupar as ruas e exigir imediatamente eleições Diretas Já!

*Joselicio Junior, mais conhecido como Juninho é Jornalista, Presidente Estadual do PSOL – SP e militante do Círculo Palmarino, entidade do movimento negro.

Foto: Marcos Corrêa/PR

 

 



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