Bengalices do fim de semana pós-apocalipse

Aécio jura que o dinheiro era emprestado. Que o seu pecado foi sua boa-fé no ser humano. Temer declara que o deputado que levou a mala de 500 mil em dinheiro é ingênuo e de...

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Aécio jura que o dinheiro era emprestado. Que o seu pecado foi sua boa-fé no ser humano. Temer declara que o deputado que levou a mala de 500 mil em dinheiro é ingênuo e de boa índole. Gente, se ele fosse de má índole levaria no lugar de uma mala, um caminhão de dólares, é isso?

Por Adriana Dias*

Neste fim de semana, foi quase inacreditável o número de absurdos que me obriguei a ler, na tentativa de me manter informada sobre o caso Aécio/Temer. Um número assustador de afrontas a inteligência do povo brasileiro, outro número assustador de notas jornalísticas sem sentido. Enfim, foi o fim de semana da torta de banana da brasiliana república. E estava azeda. Na tentativa de recuperar algumas pérolas, escrevo um bengalice: notas rápidas, direto quase do mundo das maravilhas:

Iniciemos: Aécio jura que o dinheiro era emprestado. Que o seu pecado foi sua boa-fé no ser humano. Que apenas oferecia a venda do apartamento da família aos empresários da JBS por meio de sua irmã. O fato da palavra apartamento não aparecer no áudio deve ser uma grande conspiração bolivariana contra o Senador, certo gente?

Imediatamente sai em sua defesa o Tio Rei, dizendo que receber dinheiro em si não é crime. No áudio se promete dois milhões de reais, de um empresário a um senador, mas tudo bem, tio Rei? No Mensalão, falar em trinta mil reais era crime hediondo, mas se quem recebe é o Aécio, tudo muda. Eu não sei se é amor, ou se é paixão, deve ter outra explicação…

Matéria do Uol diz que como Temer não terá ajuda da OAB ele tentará se fortalecer com outras entidades para neutralizar o apoio da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) ao impeachment. Nessa eu tremi. Um presidente, Procurador de Justiça aposentado, tentando neutralizar a OAB. Lembrei de aulas de química, como neutralizar PH… Só se estiver falando disso.

JBS declara aos funcionários americanos que “lapsos éticos” aconteceram apenas no Brasil. Os milhões citados em propinas são “lapsos éticos”? Se eles fossem corruptos mesmo então teriam feito exatamente o quê, pode-se saber? Melhor nem imaginar.

Temer declara que o deputado que levou a mala de 500 mil em dinheiro é ingênuo e de boa índole. Gente, se ele fosse de má índole levaria no lugar de uma mala, um caminhão de dólares, é isso?

Temer diz que deseja investigação profunda e rápida, mas pede cancelamento do processo. Não nos chame de imbecis.

Joesley, da JBS, no áudio mais hit do momento, afirma a Temer “segurar” juízes ter um procurador da República infiltrado em operações (esse já preso). Temer no áudio diz: ótimo, ótimo. Agora afirma não ter acreditado e por isso não ter chamado o MPF a PF e a cavalaria inteira contra o criminoso que estava com ele na calada da noite. Se diz ingênuo. Temer, nós não acreditamos em você. Pare de zombar da nossa inteligência. Nós não vivemos mais na era do rádio. Temos acesso à informação. Pensamos, e lutaremos até você cair. Queremos nosso país de volta, aquele que você, nada ingenuinamente tomou de nós.

Temer agora tenta desqualificar o empresário, mas dias depois do encontro, defendia a empresa, afetada pela operação Carne Fraca. O encontro de Temer se deu antes da operação, não depois como ele afirmou a Folha.

*Adriana Dias é bacharel em Ciências Sociais em Antropologia,Mestre e Doutoranda em Antropologia Social – tudo pela UNICAMP. É coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia, e coordenadora de pesquisa tanto no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) quanto na ONG ESSAS MULHERES (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência). É Membro da American Anthropological Association,e foi membro da Associação Brasileira de Cibercultura e da Latin American Jewish Studies Association.

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil



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