Movimentos progressistas de Londrina (PR) fazem ato de resistência à presença de Bolsonaro na cidade

O evento contou com uma roda de debate sobre  cultura afro-brasileira, movimento LGBT, ditadura civil-militar e feminismo, pautas que fazem resistência à agenda defendida pelo parlamentar que estava na cidade e que reuniu centenas...

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O evento contou com uma roda de debate sobre  cultura afro-brasileira, movimento LGBT, ditadura civil-militar e feminismo, pautas que fazem resistência à agenda defendida pelo parlamentar que estava na cidade e que reuniu centenas de apoiadores 

Por Bruno Amaral, do Jornalismo Periférico 

“Pra não dizer que não falei das flores – Resistência ao fascismo e seus representantes” foi o nome do debate organizado pelo coletivo Mobiliza Londrina, na noite desta quinta-feira (25), na sede do Movimento dos Artistas de Rua de Londrina (MARL), localizada na Avenida Duque de Caxias. O evento teve a participação de dezenas de pessoas, que puderam debater a cultura afro-brasileira, o movimento LGBT, a ditadura civil-militar e o feminismo.

A mesa foi composta por Elza Correia, professora de História, que já foi deputada estadual e também vereadora em Londrina-PR; por Melissa Campus, que é atriz, produtora cultural e representante da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA); e por Teresa Mendes, militante do movimento social negro e presidenta do Movimento Artesanato é Cultura (MACUL).

Elza Correia iniciou o debate falando sobre a ditadura militar. Ela criticou o discurso corrente que clama pela intervenção do exército, como aconteceu em 1964. Para Elza, esse discurso ajudou a afundar o Brasil num período de profunda recessão econômica. A ex-deputada ainda teceu duras críticas à Rede Globo. Na visão dela, “a rede alimenta o conflito entre a consciência ingênua e a consciência crítica, e está alinhada com esse sistema político que não representa as classes trabalhadoras e as minorias oprimidas”.

Um passo importante a ser dado para que haja mudança nesse cenário de crise, de acordo com Elza Correia, é a supressão desse sistema político que representa, atualmente, os “grandes monopólios de grupos estrangeiros. O capitalismo em sua nova versão, de uma república rentista. Esse sistema está a serviço e a favor desses setores dominantes”.

Melissa Campus discorreu sobre a violência contra a população travesti e transexual. Ela informou que dados da Associação Nacional da Travestis e Transexuais revelam que, do início do ano até a data de ontem (25), 62 travestis foram assassinadas com requintes de crueldade no Brasil. Para Campus, o que acontece frequentemente com as vítimas fatais de violência é uma espécie de “segunda morte”: nas delegacias, elas não são registradas pelo nome social. A prática prejudica a geração de estatística e acaba por prejudicar a luta contra essas barbáries.

Questionada sobre o que pode ser a raiz da discriminação, Campus explica que “o preconceito é parte de um aprendizado cultural. Ninguém nasce sendo preconceituoso, mas você aprende o preconceito socialmente. É uma questão de falta de informações com relação à nossa população. E é por isso que defendemos na base curricular e nas grades de ensino que se fale da diversidade de gênero, de diversidade étnico-racial, de diversidade sexual”.

Em poucas palavras, Melissa Campus falou sobre o que espera daquelas pessoas que arraigam os preconceitos. “Dignidade humana. Qual é a estética da sua existência? O que define alguém mais humano que o outro? A dignidade humana proporciona o respeito mútuo a todas as diferenças. Quando você entende que aquela pessoa que é diferente também é humana, você consegue respeitar por causa da empatia.”

A história do Brasil ainda foi um dos temas debatidos no evento. Teresa Mendes explicou que “o crescimento do país foi impulsionado pelo trabalho escravo e o roubo das terras indígenas”, o que se reflete no genocídio da população negra das periferias. Teresa Mendes criticou a atuação dos últimos presidentes, que, para ela, abandonaram as camadas populares.

Nos últimos dias, o movimento por “Diretas já!” tem ganhado força, juntamente com o “Fora, Temer!”, por conta da crise política pela qual passa o governo Michel Temer (PMDB). O Presidente da República responde a inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal, por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à Justiça. A Procuradoria Geral da República usa como base os áudios gravados por Joesley Batista, dono da JBS, em conversa com o presidente.

Na análise de Elza Correia, várias pessoas que foram às ruas pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) são as mesmas que hoje levantam a bandeira contra Temer. Para ela, é preciso “compreender o que está acontecendo, nos empoderarmos de que o Brasil também é nosso. Nos informamos, nos organizarmos. Ocuparmos as ruas de forma organizada. Para a gente poder detonar esse processo revolucionário de transformação. O Brasil também é nosso. Temos um parlamento totalmente falido. 370 parlamentares sendo investigados. O congresso não tem legitimidade para ditar os caminhos que a população deve seguir. Não adianta ir para a rua pedir ‘Fora, Temer’, tem que mudar o sistema político”.

O debate foi promovido no dia em que o deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PSC-RJ) esteve em Londrina, acompanhado de uma comitiva, para cumprir agenda política.

Foto: Bruno Amaral



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