A sina de Josimar, o baleiro detido pela PM do Distrito Federal no #OcupaBrasília

“Mão pro alto todo mundo!”, esbraveja um dos oito integrantes da equipe apontando a pistola para um grupo de aproximadamente 30 pessoas. “É você mesmo, nós queremos ele é vamos levá-lo!” – explicou o um oficial ao deter Josimar, em uma escolha claramente aleatória,...

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“Mão pro alto todo mundo!”, esbraveja um dos oito integrantes da equipe apontando a pistola para um grupo de aproximadamente 30 pessoas. “É você mesmo, nós queremos ele é vamos levá-lo!” – explicou o um oficial ao deter Josimar, em uma escolha claramente aleatória, como numa roleta russa.

Por André Lobão

Josimar Félix é um pernambucano que tenta a sorte no Rio de Janeiro vendendo balas no Centro da cidade. É mais uma vítima da crise do modelo econômico e social que vivemos a partir da implantação do neoliberalismo radical bancado pelo governo corrupto de Michel Temer e asseclas.

Josimar resolveu ir à Brasília para protestar também junto com os petroleiros cariocas na #MarchadeBrasilia e gritar #ForaTemer.

Era o seu primeiro protesto: “rapaz, eu nunca tinha visto isso, todo mundo pedindo pra esse homem sair. Ele não ajuda ninguém” – disse o recifense que adora vaquejada e faz repentes.
Josimar gritou, chutou bombas disparadas pela PMDF e até desmaiou. “Acho que apaguei e caí no chão. Perdi meu óculos, e agora?” –contou ao voltar esbaforido do ato realizado na Esplanada dos Ministérios e Praça dos Três Poderes , nesta quarta (24).

Mas Josimar teria ainda fortes emoções no dia do #OcupaBrasilia. Já no aguardo da volta para o Rio de Janeiro, enquanto o grupo ao qual integrava, entre petroleiros e estivadores, esperava o ônibus, no estacionamento do Mané Garrincha ( Estádio Nacional de Brasília), eis que chegam dois carros da ROTAM (Ronda Ostensiva Tática Metropolitana). “Mão pro alto todo mundo!”, esbraveja um dos oito integrantes da equipe apontando a pistola para um grupo de aproximadamente 30 pessoas. “É você mesmo, nós queremos ele é vamos levá-lo!” – explicou o um oficial ao deter Josimar, em uma escolha claramente aleatória, como numa roleta russa.

“Ele tem um chapéu, a câmera pegou, ele tem um chapéu, cadê?” – gritava um dos PMs já colocando um apavorado Josimar em um dos carros da ronda.

Naquele momento de medo e terror alguém encontra o seu chapéu de couro que havia caído durante a abordagem dos policiais. Minutos antes do episódio Josimar tinha comprado o mesmo chapéu em um barraqueiro que vendia lembranças do Nordeste nas imediações do Mané Garrincha. “Agora sim jornalista, sou um verdadeiro vaqueiro de Pernambuco” – contava feliz em um bate-papo acompanhado de um repente sobre aquele dia confuso e cansativo em que este jornalista que vos escreve passou sufoco por causa das bombas de gás lacrimogêneo.

Sob protestos, com registros de imagens e interpelações, os agentes da ROTAM informaram que o nosso vaqueiro repentista seria levado para a 5° DP do Distrito Federal. Para lá os dirigentes do Sindipetro-RJ se dirigiram com o suporte dos advogados voluntários, e nada encontraram. “Olha pra cá não tá vindo ninguém detido nesse ato de hoje. Todas as autuações estão sendo feitas na DPL, sede da Polícia Civil do Distrito Federal – disse um escrivão da delegacia.

A essa altura temia-se pior. Que Josimar teria o mesmo fim de Rafael Braga, o jovem negro favelado acusado de terrorista no Rio de Janeiro por portar uma garrafa de desinfetante em sua mochila nos protestos de 2013. Ou fosse vítima de maus tratos e violência policial tão comum no Brasil de hoje.

No DPL, finalmente, o baleiro foi localizado. A alegação seria que fora detido por atentar contra a ordem pública, e que teria sido identificado visualmente e, posteriormente, localizado por câmeras e helicóptero da PM.

Mas felizmente, essa estória acabou bem com a liberação do repentista pernambucano que foi solto por falta de provas. Assim, o nosso vaqueiro cantante teve um dia para nunca mais esquecer em meio a bombas de lacrimogêneo, spray de pimenta e bordoadas.

Josimar mostrou que é mais um brasileiro descontente com a perda de seus direitos, e que quis ir à capital do país para dizer ao presidente que está cansado de sofrer, como diz a letra de ‘João de Santo Cristo’, música da banda brasiliense Legião Urbana, que narra a sina de um jovem nordestino como Josimar, em suas agruras em uma Brasília brutal, cantada na voz de Renato Russo.

*Por André Lobão, jornalista da Agência Petroleira de Notícias/Sindipetro-RJ



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