Peça desculpas e volte atrás, Doria!

Em sua coluna, ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha repudia ação na Cracolândia comandada por Doria: “Além das políticas desastrosas, há sinais de que o motivo do atual prefeito a esse massacre é viabilizar uma antiga...

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Em sua coluna, ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha repudia ação na Cracolândia comandada por Doria: “Além das políticas desastrosas, há sinais de que o motivo do atual prefeito a esse massacre é viabilizar uma antiga proposta imobiliária para a região”

Por Alexandre Padilha*

Toda vez que um bombardeio de guerra atinge um hospital com enfermos ou uma creche com crianças deixando feridos e mortos, nem mesmo generais conseguem justificar o ocorrido e são obrigados a se desculpar. Até em guerras o mundo estabeleceu códigos para questionar crimes como esses. A ação desastrosa na região da Cracolândia comandada pelo prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin usando como argumento “guerra ao tráfico” é igualmente criminosa e devemos exigir desculpas.

Desculpas por terem permitido que policiais apontassem armas e atirassem bombas a centenas de pessoas que perderam seus documentos, receitas médicas, medicamentos, componentes decisivos para quem faz uso abusivo de drogas na reconstrução do seu projeto de vida. Desculpas por ter gerado uma desorganização total, não no tráfico que já se reorganizou a poucos metros dali, mas nos fluxos dos pacientes aos serviços, interrompendo tratamentos diretamente supervisionados de doenças como tuberculose, diabetes, curativos em feridas crônicas, e outros.

Desculpas às gestantes de alto risco acompanhadas, muitas delas que recebiam visitas diárias dos agentes de saúde e que perderam suas consultas ou como no caso do pai de uma gestante que alugou um imóvel no território para ficar próximo da filha e que não tinha a menor informação de onde ela estaria.

Deveriam pedir desculpas aos trabalhadores da saúde e assistência, que a cada operação desastrosa como essa veem seu trabalho jogado fora e ficam desestimulados para continuar. Desculpas por agora ficar cada vez mais claro que colocaram em risco a vida de pessoas fisicamente vulneráveis sem qualquer articulação prévia com a sua própria Secretaria de Saúde.

Decidi ver olho no olho o que era o território da Cracolândia quando Ministro da Saúde para lançamento da política da Rede de Atenção em Saúde Mental, dos Consultórios na Rua e das práticas de redução de danos que depois contribuíram no programa De Braços Abertos.

No final de 2015 tive a oportunidade de ser Secretário de Saúde do prefeito Fernando Haddad e acompanhar mais de perto os desafios de quem trabalhava na Cracolândia. Lá, incorporei a visão de que motivos e histórias diferentes levam a situação do uso abusivo de drogas, não existe um tipo único de usuário, exigindo diferentes formas de acolhimento, sempre respaldados pelos direitos de todos os humanos.

O De Braços Abertos teve resultados impressionantemente positivos, alguns apurados por pesquisas de entidades internacionais e independentes. Apresentou indicadores que mostraram a redução de 88% no consumo médio da droga e 84% estavam em tratamento de outros problemas de saúde.

Além das políticas desastrosas, há sinais de que o motivo do atual prefeito a esse massacre de sonhos é viabilizar uma antiga proposta imobiliária para a região. Concordamos com a ideia de que as pessoas que estão ali merecem uma moradia melhor do que o fluxo da rua para reconstruírem suas vidas, mas isso se faz com inclusão em um novo território e não com exclusão.

Nos últimos dias, o prefeito tenta criar o seu próprio Comando de Caça aos Cidadãos (CCC), solicitando a Justiça medidas de “busca e apreensão” de pessoas que possam ser usuárias de drogas, tirando-as do território onde vivem à força. Para justificar sua ação higienista, citou apoio de profissionais de saúde sem sequer consultá-los e recebeu questionamentos de entidades como o Conselho Regional de Medicina e Psicologia e entidades internacionais de órgãos ligados a Organização das Nações Unidas (ONU). O Ministério Público conseguiu recorrer e barrar o CCC do Dória, mas ainda há risco do desmanche das ações de cuidado, na surdina.

Após ação desastrosa, uma trapalhada desumana, o novo chefe do programa “Redenção” propõe que, mais uma vez, a gestão Doria recue e desista de ir atrás de autorização para internação forçada dos usuários.

Enquanto isso, os projetos de habitação social para a região ou expansão dos hotéis equipados com profissionais de saúde 24 horas foram paralisados. O que sobrou para aquelas pessoas foi errarem por outras ruas e praças da cidade, sem acompanhamento médico e sendo alvejadas por tiros, porradas e bombas.

 * Alexandre Padilha é médico infectologista, foi ministro da Coordenação Política de Lula, da Saúde de Dilma e Secretário de Saúde da gestão Fernando Haddad.

Foto: Jornalistas Livres



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