Jean Wyllys dá uma aula do que é ser deputado federal

A campanha para as próximas eleições já começou. Não oficialmente, mas sim na prática Por Jean Wyllys*...

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A campanha para as próximas eleições já começou. Não oficialmente, mas sim na prática

Por Jean Wyllys*

Nas últimas semanas, várias pessoas, com a melhor intenção, me perguntaram por que eu não estou “fazendo campanha”. Essas pessoas me dizem, preocupadas, que eu deveria passar mais tempo no Rio de Janeiro (o estado pelo qual fui eleito) e participar de mais atividades de rua, comícios, panfletagens, caminhadas e outro tipo de eventos que, embora tenham, formalmente, outro fim não-eleitoral, servem na prática como uma espécie de “pré-campanha”.

A preocupação é legítima. As mudanças na legislação votadas durante o “reinado” de Eduardo Cunha e outras que estão em debate atualmente têm como principal objetivo e consequência prejudicar partidos como o PSOL e potenciais candidatos como eu. Ao encurtar o tempo da campanha legal (de 90 para 45 dias), reduzir o tempo de TV e outras medidas semelhantes, os partidos como o PSOL, com menos apoio dos veículos de comunicação tradicionais e sem práticas clientelistas (cabos eleitorais, placas distribuídas por todo o estado, uso de dinheiro público e compra de votos) são prejudicados, porque fazem campanha de forma mais honesta e com pouquíssimo dinheiro, de modo que o tempo de TV e a quantidade de dias em que podem pedir voto abertamente são fundamentais para compensar.

Eu entendo a preocupação, mas o objetivo do meu mandato não é a reeleição ou a possibilidade de disputar outro cargo. Isso pode vir como consequência do meu trabalho, mas não posso inverter as prioridades em benefício da minha carreira política, porque estaria traindo a confiança dos quase 145 mil eleitores que votaram em mim nas últimas eleições.

Ser deputado federal significa ter uma série de responsabilidades inerentes ao cargo. Não são apenas as sessões plenárias, nas quais eu estou sempre presente, mas falo pouco porque ninguém escuta (quando um deputado aparece na televisão discursando no plenário, muitas vezes está falando sozinho, num auditório vazio). Também tem as reuniões das comissões, quase todos os dias, que são muito importantes e eu participo muito ativamente delas. Tem as frentes parlamentares, as audiências públicas, os encontros com setores da sociedade civil, etc. Tem o tempo de elaboração de projetos de lei e pareceres junto à minha equipe, que eu levo muito a sério, e por isso meus projetos são tão elogiados. E além de tudo isso tem as reuniões do Parlasul, onde represento o Brasil junto com outros parlamentares.

Tudo isso significa passar boa parte da semana em Brasília, dentro do Congresso (eu também preferiria estar no Rio fazendo atividades na rua!) e viajar periodicamente a Montevidéu para o Parlasul, sem tempo para fazer vida social.

Por outro lado, pelas pautas que eu defendo no Congresso (direitos humanos, liberdades individuais, direitos de minorias, etc.), meu mandato tem alcance nacional. Não sou um “vereador federal” dedicado a conseguir coisas para sua cidade ou estado e ganhar votos, mas um deputado “nacional” que, pela agenda que toca, precisa ir com frequência a outros estados. Quando eu participo de uma audiência, mobilização, palestra, reunião de trabalho ou alguma outra atividade em São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Belém, Belo Horizonte, Fortaleza ou Recife (e, muitas vezes, em cidades com menos habitantes e mais distantes das metrópoles), eu sei que as pessoas que me recebem não votarão em mim, porque não têm o título eleitoral no meu estado, mas o trabalho que eu faço em cada uma dessas viagens é muito importante para as lutas, as ideias, os projetos e as necessidades sociais dos eleitores do Rio que votaram em mim e de muitos de outros que moram em outros estados, mas também se sentem representados pelo nosso mandato.

No domingo, eu gostaria de ter estado na praia de Copacabana no ato pelas diretas, mas estava denunciando os golpistas no Parlasul. Por isso pedi ao meu amigo Wagner Moura que lesse minha carta de saudação, e ele o fez. Mesmo à distância, eu também estava presente, não apenas pela carta, mas também porque a minha equipe estava lá junto com a militância do PSOL. O mesmo aconteceu em outras mobilizações recentes. Nos protestos em Brasília, eu não discursei no carro de som porque estava no plenário, fazendo obstrução para enfrentar as “reformas” de Temer. Esses protestos são importantíssimos, porque sem mobilização nas ruas, pouco pode ser feito na institucionalidade, mas meu trabalho muitas vezes me obriga a estar travando a luta dentro dos prédios da institucionalidade, combatendo os inimigos desse povo que está na rua. E, diferentemente dos deputados estaduais e dos vereadores, que ficam a semana inteira no próprio estado, eu preciso estar boa parte dela em Brasília.

Se eu for candidato nas próximas eleições, espero que os eleitores lembrem do que eu fiz pelo país como deputado, e não de quantas vezes me viram fazendo um discurso ou panfletando.

Em 2014, minha campanha foi muito diferente das outras. Eu não discursei em muitas praças, com microfone, para uma multidão que escuta e aplaude. Preferi fazer dezenas de reuniões por semana em casas de família com 10, 20 ou 50 pessoas, onde não havia discurso, mas diálogo. E aqui, nas redes sociais, continuamos conversando. Minha campanha foi diferente e foi uma das mais baratas do país, sem dinheiro de empresários, e mesmo assim fui o sétimo mais votado do estado.

A questão não é fazer de tudo para ter mais votos, mas fazer de tudo para representar melhor os votos que a gente tem, todos os dias e não apenas na campanha. E que aqueles e aquelas que votaram em mim não se arrependam e saibam que estou trabalhando duro para honrar essa confiança.

Um abraço!

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

*Publicado originalmente na Mídia Ninja



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