Depois de festa “Se nada der certo”, filho de porteiro dá resposta contundente ao Colégio Marista

“Se nada der certo, vou para o Colégio Marista. Lá pelo menos eu posso esconder meu ser vazio atrás de um patrimônio que consegui pisando nos outros”, escreveu o filho de um porteiro após...

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“Se nada der certo, vou para o Colégio Marista. Lá pelo menos eu posso esconder meu ser vazio atrás de um patrimônio que consegui pisando nos outros”, escreveu o filho de um porteiro após a repercussão de uma festa de 2015 em que os alunos se fantasiaram de faxineiras, atendentes do McDonalds, vendedores ambulantes e outras profissões que julgaram ser inferiores. Leia 

Por Redação 

Tem gerado polêmica nas redes sociais as fotos de alunos do terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Marista e da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), no Rio Grande do Sul, na festa “Se nada der certo”. Nas fotos, eles aparecem fantasiados de garçons, faxineiras, atendentes do McDonalds, porteiros e outras profissões que julgam ser inferiores.

A festa em questão aconteceu este ano na Instuição Evangélica de Novo Hamburgo e no ano de 2015 no Colégio Marista, mas veio à tona nesta semana após matéria do HuffPost Brasil. Ambos os colégios divulgaram nota pedindo desculpas pelo ocorrido e afirmando que não tinham intenção de depreciar nenhuma profissão.

Um filho de porteiro, no entanto, resolveu dar sua própria resposta ao Colégio Marista. Marcio Ruzon, que também já foi porteiro, publicou em seu Facebook, na noite desta segunda-feira (5) uma carta contundente em que expõe críticas aos alunos e ao colégio e que conta a experiência de seu pai enquanto porteiro.

“Meu pai conseguiu sustentar 3 filhos (e minha mãe administrando como uma Economista) com pouco mais de um salário, hoje todos bem e com família, mas infelizmente ele não deu certo”.

Confira a íntegra.

Ao Colégio Marista:
Meu pai aposentou-se como porteiro. O mesmo que vocês têm aí na entrada do Colégio, que os pais “que deram certo” passam e nem cumprimentam.
Então, falando do meu pai, ele trabalhava feito um condenado (aliás, mesmo depois que se aposentou teve que voltar à portaria pra completar a renda). O que meu pai recebia de salário era uma mensalidade que as famílias “que deram certo” pagam pra vocês ensinarem essa ética (ou falta dela) aos estudantes.
Ele tinha uma Barra forte preta e com ela ia de sol a sol, chuva a chuva, noite a noite, cuidar de fábricas ou de condomínios ao estilo que os alunos moram ou que os pais “que deram certo” trabalham como Diretores, Gerentes.
Aprendi a profissão com meu pai. Fui porteiro por anos. Vi o que é você comer em pé ou no banheiro porque não tem ninguém pra substituí-lo nos intervalos. Cansei de atender pessoas na guarita enquanto mastigava um ovo frio.
Já usei papelão como mesa em cima da privada para almoçar.
Colégio Marista, meu pai não deu certo. Criou três filhos junto com a minha mãe que ficava apreensiva em casa: -” Será que ele volta?” Porque meu pai pegava estradas perigosas de madrugada, aliando-se ao fato de muitas vezes cuidar de galpões abandonados,que era alvo de bandidos.
Mas ele não deu certo.
Conseguiu sustentar 3 filhos (e minha mãe administrando como uma Economista) com pouco mais de um salário, hoje todos bem e com família, mas infelizmente ele não deu certo.
Meu pai não é desses pais bacanas que param aí na frente do Colégio, com Cherokees, Tucson, sorrindo pra quem convém e pisando nos descartáveis.
Meu pai tem um Palio que vive quebrando, e mesmo debilitado pela idade, levava todos os netos às escolas públicas. Levava e buscava.
Mas, que pena! Meu pai não deu certo.
Quem deram certo foram essas famílias que dependem da faxineira, do porteiro, do zelador, da cantineira, do gari, da empregada doméstica. Eles deram certo!
Ainda bem que muita gente “dá errado” na vida, senão quem iria preparar o lanche dos filhos que vão para o Colégio Marista? O pai? A mãe? Não sabem nem como ligar um fogão! Mas deram certo, não é?
Fique um dia sem um gari na sua rua e no dia seguinte você já está ligando na prefeitura fazendo birra! Ué? Pega uma vassoura e varre! Você não “deu certo”?
Fique sem porteiro no condomínio e mundo para. Não sabem descer pra atender o motoboy? Tem medo de quem seja? Pode ser um ladrão, não é? Deixa que o porteiro arrisca (sem seguro de vida) a vida por você (com seguro de vida).
Gente que não deu certo existe pra isso: mimar os que deram certo.
Tenho orgulho de ter um pai que não deu certo, Colégio Marista. E eu tenho orgulho de não ter dado certo também. Já pensou, criar minha filha num ambiente que debocha de profissões, que em vez de promover a isonomia e empatia, fomenta a segregação e a eugenia?
Deus me livre!
Aliás, por falar em deus, vocês são de formação católica certo?
Se nada der certo, vocês vão virar carpinteiro também? Embora eu sendo agnóstico, respeito muito um carpinteiro que “não deu certo” e que vocês finjem amar. Que feio, Colégio! Ensinando crianças a desprezarem seu Mestre?
Enfim, falei demais. Obrigado pela lição de hoje. Talvez tenha sido o único ensinamento que vocês deixaram:
Se nada der certo, vou para o Colégio Marista. Lá pelo menos eu posso esconder meu ser vazio atrás de um patrimônio que consegui pisando nos outros.

Viu, a lição de vocês acabou “dando certo”!

 



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1 comment

  1. ORLANDO BERNARDES Responder

    Parabéns pela carta maravilhosa.

    Esta classe média ou alta que acha que dar certo na vida é ter dinheiro, antes de tudo, me dá pena. Na verdade, como diz a carta, não passam de seres vazios, sem cultura, sem ética e respeito ao próximo. São criados vendo a Globo com seus programas imbecis e alienantes. Não passam da reprodução do que veem e escutam na mídia. Parabéns Rede Globo, vocês conseguiram. Produziram almas miseráveis aos montes.


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