Juliano Medeiros: “É hora de ter lado”

A resolução aprovada pela direção nacional da Rede, em que o partido declara que não comporá as iniciativas unitárias em favor de eleições diretas, não é um raio em céu azul. Ela expressa uma determinada leitura política majoritária no partido e uma rejeição à...

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A resolução aprovada pela direção nacional da Rede, em que o partido declara que não comporá as iniciativas unitárias em favor de eleições diretas, não é um raio em céu azul. Ela expressa uma determinada leitura política majoritária no partido e uma rejeição à frente única formada desde o golpe para deter os retrocessos liderados por Temer.

Por Juliano Medeiros*

Acontece essa semana o julgamento do processo que pede a cassação de chapa Dilma-Temer. O pedido de cassação, caso acatado pelo Tribunal Superior Eleitoral, resultará no afastamento do presidente golpista e na convocação de eleições – diretas ou indiretas. Essa definição se dará nos próximos dias e tem mobilizado milhares de pessoas em todo o Brasil na defesa de eleições presidenciais democráticas, no caso de cassação de Temer.

A luta em defesa das eleições diretas, no entanto, não se resume apenas ao futuro da democracia brasileira: ela determinará, também, os rumos da agenda do Estado brasileiro. Hoje, graças ao golpe de abril de 2016, essa agenda busca destruir as conquistas sociais alcançadas na transição democrática que culminou na promulgação da Constituição de 1988. Por isso, além de garantir a devolução à soberania popular da prerrogativa de escolher o presidente da República, a luta por eleições diretas é indissociável à continuidade ou ao fim das reformas que constituem a agenda a que nos referimos aqui.

Diante deste contexto de definições vitais para a democracia brasileira, partidos políticos lançaram, essa semana, a Frente Parlamentar Suprapartidária Por Diretas Já. Essa iniciativa se soma a diversas outras que buscam fortalecer a defesa do imediato afastamento de Temer e a convocação de eleições diretas para a Presidência da República. Dela participam todos os partidos que fazem oposição a Temer no Congresso Nacional, com exceção de um: a Rede Sustentabilidade. A Rede é, sem dúvida, um partido que se opõe a essas reformas. Um partido que enfrenta na Câmara dos Deputados e no Senado Federal a agenda de retrocessos de Temer. Nada explicaria, portanto, a inusitada decisão de seu Elo Nacional (equivalente a seu Diretório Nacional) que definiu que a Rede só participará “de atos de partidos sobre Eleição Direta, inclusive frentes parlamentares, se estiverem diretamente associados com o apoio à Lava Jato e a luta pelo combate à corrupção”. Mas vejamos o que está por trás dessa decisão.

A Rede Sustentabilidade foi formada por diferentes expressões da sociedade brasileira: empresários, militantes partidários de origem progressista, ambientalistas e outros ativistas. Se reivindica um projeto de “nova política” e tem em Marina Silva sua principal liderança. No entanto, nas últimas eleições presidenciais, apoiou a candidatura de Eduardo Campos (PSB) até o trágico acidente que o vitimou. Como candidata a presidente, Marina manteve a alianças com PPS e PPL e chegou a liderar a corrida presidencial. Derrotada, apoiou a candidatura de Aécio Neves (PSDB) no segundo turno, numa clara guinada à direita.

Uma vez conquistado o registro legal, porém, a Rede recebeu majoritariamente parlamentares com origem na esquerda, como Randolfe Rodrigues (PSOL), Alessandro Molon (PT) e Aliel Machado (PCdoB). Sua primeira bancada está claramente “à esquerda” do espectro político, o que às vezes também gera dificuldades internas. Basta lembrar a discrepância entre a posição do partido no impeachment de Dilma Roussef: enquanto a direção da legenda assumiu posição ambígua – “Nem Dilma e nem Temer” – suas principais lideranças na Câmara dos Deputados e no Senado Federal opuseram-se claramente ao golpe. Recentemente, em entrevista concedida ao jornal O Estado de São Paulo, Marina Silva chegou a demonstrar simpatia por algumas das medidas propostas pelo governo ilegítimo de Temer, afirmando que votaria pela admissibilidade das reformas se fosse parlamentar. Enquanto isso, seus parlamentares davam o combate para impedir que essas medidas fossem aprovadas na Câmara e no Senado Federal.

Assim, a resolução aprovada pela direção nacional da Rede, em que o partido declara que não comporá as iniciativas unitárias em favor de eleições diretas, não é um raio em céu azul. Ela expressa uma determinada leitura política majoritária no partido e uma rejeição à frente única formada desde o golpe para deter os retrocessos liderados por Temer. Essa rejeição se dá através da centralidade dada pelo partido à defesa da Operação Lava Jato. Partidos como PT e PCdoB – com vários parlamentares investigados – e PSOL – que não têm investigados, mas é crítico aos métodos utilizados pelos procuradores de Curitiba – não concordam com o condicionante apresentada pela Rede. E os dirigentes do partido sabem disso. Por isso colocam a defesa da Operação Lava Jato como contrapartida em sua adesão à luta por eleições diretas como forma de afastar-se dos setores mais claramente identificados com a esquerda.

A Rede prefere, ao invés de fortalecer a luta dos movimentos sociais, partidos, intelectuais e artistas progressistas por eleições diretas, entregar o futuro da democracia brasileira ao TSE. É óbvio que há divergências no interior da frente criada para impulsionar a luta. O PSOL, por exemplo, tem posição favorável à cassação da chapa Dilma-Temer, diferente de PT e PCdoB. Outras propostas, como eleições gerais ou a realização de uma Constituinte Exclusiva, não encontrarão unidade no interior dessa frente. Mas isso não deveria impedir estes setores de marcharem juntos para derrubar o governo ilegítimo, barrar as reformas e garantir as diretas.

A decisão da Rede Sustentabilidade, portanto, expressa um veto à esquerda, representada não nos partidos que se identificam claramente com esse espectro político, mas nas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, na intelectualidade crítica e nos artistas progressistas que se somam à luta por diretas. É pouco provável que a Rede, com essa decisão, tenha condições de impedir que seus militantes e parlamentares comprometidos com a democracia se somem às iniciativas unitárias em favor de eleições diretas. Mas esse episódio demonstra a dificuldade do partido de Marina Silva de se posicionar diante do turbilhão em que se transformou a política brasileira. Felizmente, poderemos contar com vozes dissonantes, entre militantes e parlamentares, que não vacilarão diante deste momento histórico para a democracia.

*Coordenador Político e Liderança do PSOL na Câmara dos Deputados

Foto: Marina Silva (Commons)

 

 



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