Aldo diz que está distante da agenda do PCdoB e sinaliza ida para o PSB

Ex-ministro da Defesa revela ao blog Nocaute que está "afastado" de uma agenda do PC do B, diz que tem "alianças pontuais" com Rodrigo Maia, mas nega articulação para ser vice do atual presidente da Câmara.

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Ex-ministro da Defesa revela ao Nocaute que está “afastado” de uma agenda do PC do B, diz que tem “alianças pontuais” com Rodrigo Maia, mas nega articulação para ser vice do atual presidente da Câmara.

Do Nocaute

 

Qual a opinião do senhor sobre o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff? Foi golpe? E qual a opinião do senhor sobre o que tem acontecido no País desde então?

O Brasil é um país que testemunhou mudanças importantes na vida, transições e rupturas por golpes de força. Esse golpe que atingiu a presidenta Dilma reuniu elementos institucionais (a atuação do Congresso), jurídicos (a atuação do Supremo), de omissão em momentos decisivos, como na divulgação do áudio da presidenta da República, quebrando completamente a cadeia hierárquica do país, e com uma grande participação da mídia. Talvez como em 64, quando a mídia teve um papel decisivo. Hoje atribuem aos militares o papel decisivo em 64, mas é preciso destacar que os militares foram os últimos a entrar no golpe de 64. Foram os empresários e a mídia os protagonistas decisivos.

E desde que aconteceu o impeachment, qual a avaliação do senhor sobre o governo Temer?

Primeiro, uma carência fundamental de dois elementos de governabilidade: a legalidade e a legitimidade. Qualquer governo assenta a governabilidade nesses dois elementos. Ou seja, 14 milhões de desempregados, a economia do País ladeira abaixo. E restaurar a legitimidade numa situação dessa, só com um fato decisivo, que seriam as eleições.

O senhor foi ministro da Defesa, é um homem muito respeitado pelos militares. Como o meio militar tem reagido ao que está acontecendo, em especial com relação ao sucateamento da Petrobras, à venda de campos do pré-sal?

Claro que essas instituições ficam apreensivas com o grau de degradação que o país vem conhecendo. Uma parte do capitalismo do Brasil que deu certo, que foi a organização dessas grandes construtoras, com presença no mercado internacional, competindo e vencendo construtoras de países muito fortes. Quando essas empresas entram em decadência, são consideradas inidôneas, proibidas de participar de obras públicas no Brasil, é claro que olham para isso com apreensão. A Petrobras, que é uma indutora de desenvolvimento científico, tecnológico, industrial e econômico, também duramente atingida. E no Brasil, infelizmente, não preservamos as empresas. Há países que punem seus corruptos, mas preservam suas empresas. 600 mil trabalhadores, engenheiros e operários, que foram demitidos nessa onda da Lava Jato, não cometeram nenhum crime. Qualquer patriota, qualquer brasileiro que não quer ficar de joelhos diante de potências estrangeiras, só pode ver isso com apreensão.

E o que o senhor acha que existe por trás dessa decisão de destruir o que há de mais importante do capitalismo brasileiro?

Ignorância. São instituições muito jovens, que não sabem o que é o país, não têm conhecimento da história e consideram o combate à corrupção algo absoluto sem qualquer relação com nenhuma outra atividade social, o emprego, a economia, o interesse nacional. Aliás, o Ministério Público celebra, à margem da lei, uma série de convênios de cooperação com instituições internacionais, que deviam ser monopólio do Poder Executivo. Eu fiquei muito tempo no Congresso, vi coisas absurdas, de agentes de segurança, policiais federais, delegados que recebiam dinheiro na própria conta de agências internacionais de combate ao tráfico, com a agência norte-americana.

O senhor acha que por trás do impeachment havia esse interesse de entrega do patrimônio brasileiro?

Depois do pré-sal os americanos rearticularam uma frota para vigiar essa parte do Atlântico, o Brasil passou a figurar como um grande protagonista, player na área de energia. Há gente bem informada que julga que os elementos, as gravações que deram origem a esse processo, sequer foram feitos por instituições nacionais, foram colhidas de alguma forma pelos métodos que levaram à gravação da presidente do Brasil, da primeira-ministra da Alemanha e depois repassados de alguma maneira para que esse processo fosse desencadeado. Há méritos do combate à corrupção – isso precisa ser reconhecido e valorizado. Mas não se pode fechar os olhos para a destruição da economia, de empregos, da ciência, tecnologia.

Os EUA sempre influenciaram em tudo o que acontece no mundo. Aqui na América do Sul especialmente, para não falar da América Latina, nada se move sem a influência americana. Eles estão no mar da China, com seus navios, influenciaram em todos os acontecimentos depois da Segunda Grande Guerra, do Vietnã, Oriente Médio, a queda do governo brasileiro em 64, do Uruguai, do Chile, da Bolívia, os sucessivos golpes.

As evidências dessa influência americana no mundo nos conduzem a uma posição defensiva. É preciso sempre ter a expectativa de que você não está sozinho no mundo e que os acontecimentos interessam ao mundo inteiro, especialmente ao vizinho mais forte e influente, que são os EUA, que procuram influenciar aqui há muito tempo.

Uma informação que saiu envolvendo o senhor é de que estaria de saída do PC do B e a caminho do PSB. O senhor confirma essa informação?

No ano passado o PC do B propôs que eu assumisse uma candidatura à Presidência da República pelo partido. Eu opus alguns argumentos, entre eles de que a nossa aliança com o PT foi tão profunda nos últimos anos que eu acho que o PC do B não resistiria a uma pressão do PT e terminaria por retirar essa candidatura, o que resultaria num conflito muito grande comigo, e desnecessário. No próprio partido, havia e há quem defenda a aliança com o PT e com o Lula, da qual eu discordo, mas compreendo. Outra coisa é a agenda: A agenda nacional deve subordinar as demais. Não é que eu não valorize a questão democrática ou social. Mas acho que nessa etapa histórica, onde as nações mais frágeis estão ameaçadas pela hegemonia das nações mais fortes, o que cabe fundamentalmente é unir amplas forças políticas, sociais e econômicas em defesa da nação. Por conta desse conflito de agenda, estou me afastando dessa agenda do PC do B. E tenho muitos amigos no PSB, desde o Arraes, que era muito meu amigo, meu vizinho, companheiro de jornadas e conversas, o Eduardo Campos, amigo de família, e outros dirigentes do PSB. E isso gerou essa ideia de que eu pudesse sair do PC do B e ir para o PSB. Mas o que eu posso dizer é que com o próprio PSB eu tenho relações políticas muito próximas. Eles deram um passo importante agora, ao se afastar do governo Temer, assumiram atitude de oposição, que é uma coisa muito boa, mas há incertezas sobre o que podem fazer no futuro. Isso me resguarda de qualquer decisão no momento.

O senhor está de saída do PC do B mas não sabe ainda para qual partido vai, é isso?

Não pode haver essa dúvida porque você só sai de um lugar quando quer ir para outro. Fico no PC do B, mas tendo uma relação de conflito com parte da agenda.

O senhor se sente mais próximo ao PSB do que ao PT, por exemplo, que tem uma trajetória muito mais parecida com a do PC do B?

Não tenho identidade com o PT, sempre o considerei um aliado nas lutas politicas. Se tivesse identidade com o PT, teria ido pro PT há muito tempo. Tenho boa relação, amigos, ajudei vários governos do PT, fui ministro de quatro pastas diferentes no governo do PT, líder do governo do presidente Lula, o que mostra que tem uma identidade para essas alianças. Mas não é uma identidade politica e ideológica.

O senhor foi ministro da Dilma, testemunhou a favor dela na Comissão Especial do Impeachment e o PSB votou a favor do impeachment. Isso não é uma questão para o senhor?

O mais importante não é o que o PSB fez, é o que o PSB está fazendo. Nós, seguindo o conselho da Bíblia, se só olharmos para trás, nos tornamos estátuas de sal. É claro que ninguém concorda com aquilo que o PSB fez. Mas não é só por causa do PSB, uma parte do movimento sindical que apoiou o impeachment hoje está na oposição também.

O senhor diz que discorda da aliança do PC do B com o Lula. Por quê?

Porque nós precisamos buscar um caminho que tenha a questão nacional como a centralidade. O PT, o PC do B e a esquerda colocam a centralidade na questão democrática e na questão social. Veja agora: houve uma tentativa de rebelião de servidores da CGU quanto à nomeação de um ministro e dizem agora que 95 diplomatas estariam lançando manifesto de oposição contra o governo. Eu não concordo com um negócio desse. A esquerda se apoia nisso, acha que as instituições de Estado podem se fragmentar quando isso interessa a ela. Eu acho que não. As instituições do Estado, diplomacia, Forças Armadas, aparelhos de segurança, não podem se insubordinar contra o Estado e o poder Executivo.

Outra notícia envolvendo o senhor é de que o PC do B, junto com o PSB, o PDT, o Solidariedade e PTB estariam articulando um apoio a Rodrigo Maia em uma eventual eleição indireta. O senhor estaria sendo cotado como vice do Maia. O senhor confirma?

Houve uma reunião com o PT, PSB, PC do B, PDT, Solidariedade, e anuência do PTB, que teria se comprometido a participar mas não pôde comparecer, centrais sindicais, mas não se discutiu nome e nem participação numa eleição indireta. Todos esses partidos defendem a eleição direta, talvez com exceção do PTB. O que se disse na reunião foi: e se a eleição direta não vingar? Participa-se ou não desse processo? Mas não cogitaram nomes. A outra coisa que deve dar lugar ao boato são as relações que tenho com o próprio Rodrigo Maia, que são relações cordiais, não são de aliança, mas de cordialidade e alianças pontuais. Essas relações explicam essa possibilidade que foi noticiada de apoio, mas não existiu essa conversa, nem essa discussão, nem esse compromisso, porque não existe o que justificaria isso, que são eleições indiretas. Todos nós estamos engajados nas eleições diretas.

O senhor aceitaria ser vice do Rodrigo Maia numa eventual eleição indireta?

Isso não pode ser posto nesses termos, aceitar ou não. Isso tem quer ser posto da seguinte forma: se vier a eleição, o que justificaria a nossa participação, de partidos que tem compromisso com a soberania do povo? Nós participamos de eleição indireta, no colégio eleitoral, quando era uma instituição de origem autoritária. Essa eleição indireta está na Constituição do país. O que se questiona é politicamente se uma eleição indireta resultaria em um governo legítimo. Qual a missão, qual o compromisso, qual a agenda que um governo eleito indiretamente pode assumir? Isso ainda não está posto. É precipitado colocar a discussão agora. Agora deve-se fazer campanha pelas diretas, que está em curso, e discutir na eventualidade disso não acontecer, o que se vai fazer, e os partidos com algum compromisso deviam ter uma posição conjunta.

O senhor que tem muita familiaridade com o Congresso, qual a probabilidade de aprovar eleições diretas?

Parece que a maioria do Congresso resiste a essa hipótese, por várias razões. Primeiro, porque a maioria ainda está na base de apoio do governo e segundo porque seria renunciar a uma atribuição que seria do Congresso. Isso tudo dificulta, mas não é isso que nos interessa no momento.

E qual a opinião do senhor sobre o PC do B ter apoiado Rodrigo Maia, que hoje é um defensor absoluto das reformas do Temer, e faria sentido apoiá-lo novamente?

Quando o DEM apoiou a minha candidatura, sabia que eu era um importante aliado do presidente Lula. E quando eu ganhei a presidência da Câmara, arquivei todos os pedidos de impeachment contra Lula. Os partidos têm noção do que é possível, do que uma aliança permite e não permite. Quando o DEM apoiou a minha candidatura, não foi na esperança de que eu me tornasse oposição ao governo Lula, mas que influenciaria na agenda, com assuntos de interesse partidário ou que não fosse puramente o nosso. Quando votamos no Rodrigo Maia, não era na esperança de que se convertesse num presidente da oposição, mas em participar com aspectos democráticos no debate e na agenda da Câmara dos Deputados.

 



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