O que a mídia tradicional não diz sobre as eleições legislativas da França

A questão central: apesar de Macron receber 32% dos votos, terá aproximadamente 75% das cadeiras no parlamento. O sistema democrático de pesos e contrapesos entre governo e oposição está ameaçado Por Vinicius Sartorato*, colaborador da Rede...

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A questão central: apesar de Macron receber 32% dos votos, terá aproximadamente 75% das cadeiras no parlamento. O sistema democrático de pesos e contrapesos entre governo e oposição está ameaçado

Por Vinicius Sartorato*, colaborador da Rede Fórum

O recém-eleito presidente francês, vem a cada dia, cacifando-se como “o queridinho” das elites econômicas e políticas da União Européia. Macron fez exatamente o que era esperado, criticou Donald Trump sobre temas migratórios e ambientais. Na formação do governo, requentou o discurso da “Terceira Via”. E ainda sinalizou que fará as reformas tão desejadas pelo mercado.

Aproveitando-se da alta popularidade que goza, também valeu-se do discurso do “novato da política”, “anti-casta”. Elemento que foi muito alardeado na formação de seu partido-movimento, “A República em Marcha”. Tais posturas encontraram ressonância nos meios tradicionais da mídia francesa e européia, que frequentemente reforçaram a paridade entre homens e mulheres, bem como o número de candidatos novos em seu partido.

Após cinco semanas de sua posse (14/5), Emmanuel Macron esperava ansiosamente as eleições legislativas que definiriam suas relações com o Parlamento para os próximos 5 anos. Como favorito, o resultado foi confirmado. Sua aliança conquistou aproximadamente 32% dos votos. Cerca de dez pontos à frente do Partido Republicano, do ex-Presidente Nicolas Sarkozy, que amargou um desempenho negativo, atingindo 22% do total dos votos. Neste caminho, o desempenho negativo foi geral. As expectativas de todos foram frustradas. A Frente Nacional, de Marine Le Pen, teve apenas 14%. A “França Insubmissa”, de Jean-Luc Mélenchon, conquistou 11% e o Partido Socialista, de Hollande e Hamon, somente 10%, em sua maior derrota na história.

Tal resultado, mostra a popularidade de Macron e a desconfiança sobre os outros partidos, mas traz outros detalhes não tão aparentes. Um desses detalhes é a maior abstenção nas últimas cinco décadas, com 48% da população eleitoral participando do processo. Outro detalhe, são as críticas sobre uma forte distorção democrática promovida pelo sistema eleitoral.

Eis a questão central: apesar de Macron receber 32% dos votos, terá aproximadamente 75% das cadeiras no parlamento. Uma situação que veio à tona na fala dos perdedores, mas também na fala de diversos analistas franceses e de todo o mundo. Uma situação que não convém – para muitos – explorar. O sistema de voto distrital misto francês, em que cada lista partidária indica um candidato e o vencedor “leva tudo”, para além de um debate técnico de cientistas políticos e sociólogos, mascara uma distorção da democracia, que tende a fortalecer os grandes partidos e esmagar as minorias.

Se por um lado a decadência dos partidos tradicionais possui muitos motivos e o sistema político-partidário, hegemonizado há décadas pelo Partido Republicano e Socialista, acabou, por outro lado, os franceses correm o risco de estarem fomentando a hegemonia de um partido único. O receio de muitos é que Macron ganhe o “status de monarca”, promovendo medidas polêmicas como a reforma trabalhista, previdenciária, do Estado de Bem-Estar Social e de benefícios importantes de forma autoritária. Em resumo, o sistema democrático de pesos e contrapesos entre governo e oposição está ameaçado, não só sobre o encaminhamento das reformas supracitadas, mas também sobre à fiscalização ao Poder Executivo e a representatividade da própria democracia.

*Vinicius Sartorato é sociólogo, mestre em Políticas de Trabalho e Globalização (Universidade de Kassel, Alemanha)

Foto: Loic Venance



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