Parada do Orgulho LGBT de São Paulo vai bem, obrigado!

Com altos e baixos – bombardeada por críticas e aplauso e sempre tentando se renovar – a Parada paulistana segue a sendo a maior manifestação LGBT do mundo. Leia mais na coluna de Julian...

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Com altos e baixos – bombardeada por críticas e aplauso e sempre tentando se renovar – a Parada paulistana segue a sendo a maior manifestação LGBT do mundo. Leia mais na coluna de Julian Rodrigues 

Por Julian Rodrigues*

A luta contra a discriminação e pelo reconhecimento dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, mulheres transexuais e homens trans tem as Paradas do Orgulho como marco histórico, um divisor de águas. No centro disso tudo, a Parada de São Paulo.

De uma marcha nitidamente militante em suas primeiras edições, a Parada explodiu e se tornou fenômeno de massas em São Paulo, no início dos 2000.

Desde o início, uma tensão se coloca. Trata-se de passeata ativista com bandeiras demarcadas e linguagem de esquerda ou festa colorida, focada na visibilidade, aberta para o mercado? Quem tem legitimidade para organizá-la afinal? Como mediar a demanda por participação ampla na construção do evento e a necessidade de uma estrutura permanente, que se responsabilize pela Parada o ano todo e cuide das tarefas cotidianas?

Como lidar com as grandes empresas, interessadas agora na lenda urbana do tal pink money? Prefeitura e governo estadual: quais os limites entre o apoio estrutural e a interferência na organização do evento? Sindicatos e movimentos sociais são bem-vindos? Partidos políticos devem ser repelidos? Mas e os apoiadores históricos da Parada, como as/os parlamentares petistas? E as boates e sites gays que sempre reclamam dos custos que a organização impõe para a presença de seus trios elétricos?

A definição do tema de cada edição também nunca foi fácil. De modo geral, a Parada de Sampa sempre definiu a agenda e ao mesmo tempo reverberou os debates e acúmulos nacionais do movimento LGBT em cada momento histórico.

Em duas décadas, os focos principais foram a afirmação da diversidade, a luta pela união civil/casamento entre pessoas do mesmo sexo e a criminalização da homofobia, lesbofobia, transfobia.

A grande mídia estabelece uma relação ambígua com a manifestação. Como é impossível ignorar um evento que reúne milhões de pessoas, a opção majoritária sempre foi abordar o exotismo, o humor, o lado carnavalesco. Ao mesmo tempo, TVs e jornalões se esmeram em dar espaço para as ocorrências negativas: agressões, roubos, brigas, gente passando mal.

Duas décadas

Encarando essas contradições, ano a ano, a Parada LGBT seguiu firme e forte. Uns, dizendo que era só uma festa boba, sem politização nenhuma. Outras dizendo que não se sentiam representados. Nos jornais, gente branca rica reclamava que agora só tinha povo feio na avenida.

Ignorando a disputa pública pela contagem exata da multidão, o fato é que milhões tomam a Paulista, ano a ano. Em algumas edições boates e marcas apareceram mais. Em outras os trios das entidades LGBT, movimentos e sindicatos deram o tom.

Ultrapassando todas as críticas, disputas, dúvidas e tensões, a cada feriado de Corpus Christi São Paulo se torna a capital do arco-íris.

Cidadania, turismo, festa, protesto, incidência política, visibilidade massiva – tudo ao mesmo tempo.

Estado laico e Daniela Mercury

Reinventando-se mais uma vez, a Parada de 2017 equilibrou um tema contundente (a denúncia do fundamentalismo religioso e a defesa da laicidade do Estado) com shows de estrelas nacionais e a volta de grandes marcas patrocinando o evento.

Na abertura, além de várias falas reforçando o tema principal, não faltaram o “Fora Temer” e o grito por “Diretas Já”. Em uma conjuntura de fortalecimento de discursos fascistas não é pouca coisa impulsionar posições anti-golpistas, progressistas e democráticas.

O público também parecia ultrapassar certa tentativa de divisão entre gays de classe média e jovens da periferia. A multidão real é diversa demais. Rótulos e classificações rápidas não chegam nem perto de tangenciar a explosão de cores.

O resumo é o seguinte: são milhões de pessoas que saem de casa para ir a um megaevento que celebra a diversidade. A força educativa da Parada é imensa. Além de incidir sobre o senso comum, cria um espaço para o exercício da liberdade sexual, da livre expressão de gênero ou da pura e simples curtição dos desejos.

Sim, a Parada hoje é mais trans, mais lés, mais preta, mais periférica, mais includente. Menos ou mais politizada, mas nunca sectária. Dessa vez, se equilibrou entre a overdose de Doritos-edição-gay, igrejas inclusivas, lançamento de filmes, exposição de celebridades, sindicatos, e representações da sopa de letrinhas.

A Parada do Orgulho LGBT é patrimônio democrático do Brasil – nossa maior e mais diversa festa popular civilizatória.

*Julian Rodrigues, ativista LGBT e de Direitos Humanos é membro da Aliança Nacional LGBTI; foi coordenador de políticas LGBT da prefeitura de São Paulo



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