Uma dissociação forçada: Michel Temer torna-se um risco para os golpistas

Para a Globo e para as elites do país, tirar Temer do poder é dissociar a “corrupção” das reformas que pretendem aprovar. Leia mais no artigo de Raphael Silva Fagundes  Por Raphael Silva Fagundes*...

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Para a Globo e para as elites do país, tirar Temer do poder é dissociar a “corrupção” das reformas que pretendem aprovar. Leia mais no artigo de Raphael Silva Fagundes 

Por Raphael Silva Fagundes*

De acordo com os estudos semiológicos, em uma imagem há dois sentidos, o óbvio e o obtuso1. O óbvio é a imagem como um todo. O conjunto, sua totalidade. Nesse nível ela transmite uma ideia geral, como nos filmes de Eisenstein, o sentido óbvio é sempre a revolução socialista. Por outro lado, o obtuso é o sentido que está nas partes que compõem a imagem. Essas partes não representam nada se olharmos de relance, mas se retiradas da imagem percebemos um significado independente. É como as pinturas do artista barroco Arcimboldo em que diversos elementos da natureza se unem para formar um rosto. Um abacaxi, cachos de uva, pêras etc.. No entanto, sabemos que cada um destes elementos possui um significado fora da imagem. As reformas trabalhistas estão sendo “pintadas” desta maneira, pois há um grande interesse em dissociá-las da imagem degradante do governo Temer.

Antes das denúncias que colocaram o governo golpista em xeque, o discurso era de associação. Em 2015, por exemplo, a revista Isto é estampou na capa: “A solução Temer”. O vice era visto como a “peça fundamental para assegurar a governabilidade do País”2. As notícias sobre as reformas começavam assim: “Duas das principais bandeiras do governo Michel Temer, a reforma da Previdência e a reforma trabalhista…”3 Ou: “Temer defende reforma trabalhista e diz que é saída para manter empregos”4. O fato é que as reformas eram sempre atreladas a imagem do presidente.

Hoje, o discurso começa a se alterar: “O aperfeiçoamento das leis não pertence ao presidente. Pertence à necessidade de a gente atualizar essas leis e permitir que elas possam dialogar com a realidade do mercado de trabalho em nosso país”5, disse o relator do projeto das reformas trabalhistas Ricardo Ferraço. “O governo”, afirmou o senador Tasso Jereissati do PSDB sobre a derrota na Comissão de Assuntos Sociais, “levou todo mundo para Moscou e esqueceu da votação”6. Nesse último caso, especificamente, não acredito que tenha sido esquecimento, mas uma estratégia de dissociar a imagem difamada do governo com o projeto reformista.

A oposição, por seu turno, ainda relaciona as reformas ao governo Temer, mas ainda se apoia em um argumento muito fraco7, incapaz de ser mantido após uma possível caída do governo e a subida de um representante da direita ainda idôneo.

Hoje, só alguns governistas e ideólogos liberais relacionam o projeto “Ponte para o futuro” com as reformas trabalhistas. O jornalista da Globo, Carlos Alberto Sardenberg, propõe uma “reforma, sem Temer”8, mas antes associava uma coisa a outra: “Se as reformas trabalhista e previdenciária, nessa ordem, não forem aprovadas, o governo Temer acabou”9. Seria inútil, ele entrou para isto. Por outro lado, nunca se esperou uma continuidade do presidente peemedebista, “o nome em ascensão é João Dória, cuja principal virtude é definir muito bem o seu lado: pelas reformas, pelas privatizações, pela redução do Estado, contra Lula e o PT”10. O atual prefeito de São Paulo poderia dar continuidade ao governo que implementou as reformas.

O texto das reformas trabalhistas foram escritos sim por mãos sujas. Nós não podemos cair nesse discurso que tem fins retóricos e persuasivos. Um discurso que inventa uma ruptura, uma dissociação entre as reformas trabalhistas e Michel Temer, como tijolos recuperados intactos de um edifício em demolição.

Essa estratégia argumentativa busca a dissociação das noções a partir de um remanejamento profundo capaz de destacar incompatibilidades. Como um governo corrupto pode fazer reformas que querem “salvar” o país? A oposição, ingênua (?), faz essa mesma indagação11. Logo, é necessário dissociar Temer (o corrupto da vez) das reformas. Para os estudiosos da retórica, Chaim Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, essa estratégia conduz uma solução que valerá não só no presente, mas “igualmente no futuro porque, ao reestruturar a nossa concepção do real, ela impede o reaparecimento da mesma incompatibilidade”12. Por isso, é preciso dissociá-las de Temer e eleger um futuro condutor do projeto, ainda não envolvido em escândalos de corrupção, como o Doria, o Bolsonaro etc…

As reformas passam a ter um sentido em si (modernização das relações trabalhistas, solução para a crise etc.) que nada tem a ver com o governo Temer. Deixa de funcionar obtusamente. A próxima missão é fortalecer ainda mais o argumento de que o texto das reformas está bem diferente daquele apresentado no período em que Michel Temer era visto como a solução para a crise.

As elites se esforçam para transformar as reformas em óbvio e libertá-la dos entraves que desaceleram o desmonte do Estado em prol do capital. O objetivo de dissociar as reformas da corrupção é para concretizar um projeto iniciado desde 2016. Desta maneira, a corrupção acabou por se tornar uma forma deformada de Deus, porque se sem Este tudo seria permitido, sem a corrupção tudo que as corporações empresariais (verdadeiras articuladoras do golpe) pretendem fazer será permitido, como a privatização dos serviços públicos, o enrijecimento das relações entre patrões e empregados etc.. Com a corrupção, ou seja, se associarmos Temer às reformas, dificilmente estas poderão vir a ser aprovadas.

Tudo não passa de um embuste para dar continuidade a um projeto impopular que só conseguiu popularidade ao suscitar ódio ao PT e a esquerda, jogando o país em uma divisão viciada que tem como objetivo obnubilar as lutas de classe. Tudo se resume a corrupção. Pode-se ser um troglodita ridículo, desde que nada de obscuro tenha sobre esta pessoa! Lógico que a corrupção é algo execrável e que, evidentemente, a pessoa que se vale dessa prática deve ser punida. Mas política é conflito de interesses, retórica, filosofia…

Não podemos nos deixar iludir pelo arcabouço retórico desenvolvido pelos grupos que querem entregar a nação aos interesses do mercado. Temos que sim unir a classe operária e ouvir as soluções apresentadas por ela e não por economistas de aluguel que se vendem por qualquer interesse especulativo. Eles estão esperando as reformas serem aprovadas no plenário do Senado, e se não passarem, pode até ser o fim do governo Temer (ou talvez o fim dele seja antecipado, justamente para tornar a aprovação do projeto no Senado possível), contudo, esses mesmos ideólogos não se cansarão de empreender argumentos “lógicos” e artimanhas retóricas empedernidas para a realização de seus oportunos projetos.

*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí

1 BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios sobre fotografia, cinema, pintura, teatro e música. Trad: Léa Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

2 FILHO, Mario Simas e JERONIMO, Josie. O papel de Temer. Disponível em: http://istoe.com.br/429011_O+PAPEL+DE+TEMER/

3 Veja principais pontos das reformas trabalhista e da Previdência http://g1.globo.com/politica/noticia/veja-principais-pontos-das-reformas-trabalhista-e-da-previdencia.ghtml

4 MATOSO, Felipe. Temer defende reforma trabalhista e diz que é saída para manter empregos. Disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/08/temer-defende-reforma-trabalhista-e-diz-que-e-saida-para-manter-empregos.html

5 LOURERO, Marcelo.Decisão sobre reforma trabalhista virá do plenário do Senado. Disponível em: http://blogs.oglobo.globo.com/miriam-leitao/post/decisao-sobre-reforma-trabalhista-vira-do-plenario-do-senado.html

LINDNER, Julia, NAKAGAWA, Fernando e BONFIM, Isabela. Governo foi para Moscou e esqueceu da votação da reforma trabalhista, diz senador. Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,governo-foi-para-moscou-e-esqueceu-da-votacao-da-reforma-trabalhista-diz-senador,70001851904

7 http://www.senadorpaim.com.br/noticias/noticia/6711

8  SARDENBERG, Carlos Alberto. Reformas, sem Temer. Disponível em: http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2017/05/reformas-sem-temer.html

9 Políticos desesperados. http://www.sardenberg.com.br/artigos/11-politica-economica/11453-pol%C3%ADticos-desesperados.html

10 Idem 

11 Não dá para votar reforma trabalhista com esse governo, diz Paim. Disponível em: http://veja.abril.com.br/economia/nao-da-para-votar-reforma-trabalhista-com-esse-governo-diz-paim/

12 PERELMAN, Chaïm e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado de Argumentação: a nova retórica. Trad: Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão, São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 469.



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