Organizar a resistência para conter o avanço do fascismo

Grupos de caráter fascista que atacaram as manifestações do Ocupa Brasília, policial que levou preso líder sindical porque usava microfone, agentes do MBL que agrediram servidores em Porto Alegre revelam que parcela da sociedade...

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Grupos de caráter fascista que atacaram as manifestações do Ocupa Brasília, policial que levou preso líder sindical porque usava microfone, agentes do MBL que agrediram servidores em Porto Alegre revelam que parcela da sociedade que está integrada a um projeto autoritário

 

Por Paulo Pimenta*       Foto Lula Marques/AGPT

 

Vivemos uma realidade violenta, de regressão e declínio do Estado Democrático de Direito, um contexto que oprime, mas que ensina e exige reflexão. A ruína de uma democracia é também a decadência de uma sociedade que desmorona e, cada dia mais, nos deparamos com episódios de brutalidade contra as manifestações de trabalhadores (as), com ofensivas para impedir a organização social contra o golpismo no Brasil e perdemos espaço de diálogo pressionados por um autoritarismo da direita que ascende.

A dissimulação é a forma encontrada para criminalizar quem denuncia o golpe. Quando a democracia é desrespeitada, os partidos e os indivíduos de esquerda são transformados em bandidos e o poder obscuro tem como aliado a imprensa mentirosa, a reação à calúnia e a desobediência em face do cerceamento às liberdades são sinais de vida e combatividade, são exemplos de resistência à servidão ao fascismo e à renúncia da história.

A história é cheia de exemplos de como o poder é usurpado, apropriado, desvirtuado para atender interesses ilegítimos alavancados por discursos e práticas de tiranos. Quando a democracia se enfraquece, o fascismo confisca a ética de muitos cidadãos que aderem à vontade de repressão por conformismo ou como forma de pertencer ao grupo que se alça a fazer a expropriação do bem público em nome da promessa de uma limpeza moral.

Os grupos de caráter fascista que se armaram para atacar as manifestações do Ocupa Brasília, o policial que levou preso um líder sindical porque usava o microfone para debater a reforma trabalhista, os agentes do MBL que agrediram servidores (as) municipais em Porto Alegre, a impunidade do Estado em relação às chacinas de camponeses e indígenas, a ação higienista do prefeito Doria contra pessoas em situação de vulnerabilidade, são algumas expressões reveladoras de que uma parcela da sociedade que está integrada a um projeto de poder autoritário.
A escalada fascista conta com a adesão espontânea de setores da sociedade que temem perder privilégios, de partidários da direita que enveredam à extrema direita ao ver suas lideranças abatidas em grandes esquemas de corrupção e de indivíduos que se oferecem para trilhar esse caminho, empurrados pela lógica neoliberal que atiça a destruição do “outro” na guerra da sobrevivência. Todos esses setores têm como horizonte comum a expectativa de que a ajuda à conquista do poder será recompensada, para isso têm que disseminar o ódio à esquerda, desprezar as populações em situação de pobreza e vulnerabilidade, destruir a potência da resistência e propagar a discriminação étnico-racial, de gênero, orientação sexual, entre outras formas de oprimir e descaracterizar a quem se pretende aniquilar.

Existem, ainda, àqueles que se tornam submissos porque não fazem uma reflexão ética e se calam ou até admitem a prisão arbitrária do filho do vizinho, a extinção do emprego de quem não está próximo, a falta de ética do médico que não atende a criança filha de petista, o abuso do juiz contra o líder político que é um desafeto, o cinismo da imprensa que até acham graça, o promotor que acusa sem provas, a restrição da aposentadoria de quem não é da família. Essas pessoas que viram coniventes frente ao extermínio da juventude negra, à exploração do trabalho infantil, à tortura, à escravidão, ao genocídio, ao estupro e aos linchamentos podem se tornar marionetes que ajudam a maltratar, a excluir, a destruir, a explorar e a espoliar.

Em uma atmosfera que empurra para a aderência ao fascismo, indivíduos e instituições estão expostos e não podemos presumir que a susceptibilidade desses setores às ideias e métodos antidemocráticos irá desaparecer sem a desconstrução dessas concepções e práticas. Portanto, mais do que nunca, é necessário um trabalho vigoroso de combate e de denúncia das formas de opressão, discriminação e autoritarismo que cada vez mais estão presente e se disseminam entre diversos grupos sociais.
O combate ao fascismo passa pela organização da resistência e implica uma ampla campanha de discussão, informação e denúncia, que possibilite a reflexão sobre as experiências históricas que conduziram às ditaduras, como o que aconteceu no Brasil em 1964. As mídias sociais, os artigos políticos, a produção acadêmica, a produção cultural, a ação combativa no parlamento, as reuniões políticas, os atos de rua, são contrapontos que precisam ser fortalecidos, pois têm um papel preponderante para estabelecer essas conexões entre o presente histórico e as formas de poder e tirania como o nazismo, o fascismo, que não estão distantes de nós. Essa capacidade crítica de leitura da realidade é um imperativo necessário para organizar a resistência como uma atividade cotidiana, intensa e imprescindível.

*Paulo Pimenta é jornalista e deputado federal PT/RS



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