PT e PSDB separados desde o nascimento

Em novo artigo em sua coluna na Fórum, Alexandre Padilha explica o motivo pelo qual PT e PSDB seguem, desde o princípio, caminhos opostos e como isso tem se dado na prática na atual...

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Em novo artigo em sua coluna na Fórum, Alexandre Padilha explica o motivo pelo qual PT e PSDB seguem, desde o princípio, caminhos opostos e como isso tem se dado na prática na atual conjuntura política. Leia 

Por Alexandre Padilha*

A postura diametralmente oposta na atual crise política institucional e econômica do Brasil de Temer e as perspectivas que se abrem para o futuro próximo enterram definitivamente uma tese que, muitos artigos, comentários em programas televisivos e bate boca em mesa de bar já tentaram vender, de que todas as dificuldades do país em consolidar seu processo democrático, iniciar um novo ciclo do sistema político e dar sustentabilidade histórico de desenvolvimento deve-se ao fato de que PSDB e PT, “nascidos no mesmo ninho” , nunca mais se acertaram. Decidiram ser polos opostos na política brasileira e, até para sobreviverem em seus projetos de poder, deram fôlego e gás a lideranças e estruturas partidárias regionais oligárquicas, montadas em torno de lideranças tradicionais que dominam das TVs aos clubes de futebol, ou cartórios partidários nacionais fisiológicos, criados ou mantidos exclusivamente para vender tempo de TV ou base de apoio no parlamento nacional.

Esta tese, que parte de uma visão elitista, que acredita que dentro do PT e do PSDB estariam as “melhores cabeças”, que poderiam pensar em outro Brasil, já houve momentos absolutamente superados ao longo da história, mas volta e meia vem alguém e diz: “Ah, Fernando Henrique e Lula deveriam sentar os dois, assim se resolveria o problema do país”. Os dois já se sentaram, muitas vezes, mas não é de uma boa conversa e respeitosa, nem de convescotes, que resolveremos “os problemas do país”. Mas verdade seja dita, Lula e FHC defendem, hoje, a mesma solução política imediata para crise do Brasil de Temer: renúncia e convocação de eleições diretas.

É verdade que PT e PSDB surgiram no mesmo ninho, o caldo político, social e econômico paulista nos estertores do ciclo de crescimento econômico e asfixia política da ditadura militar e as novas estradas do processo de abertura política em curso. Mas, é verdade também, que já nasceram separados. Pela idade não fui testemunha ocular (nem auricular) das conversas desta época, embora lembre até hoje, ainda criança, ao lado da minha mãe, estar com um boné laranja em meio ao sol do dia de eleições gerais em 1978, na avenida que dá entrada para a Cidade Universitária da USP (Waldemar Ferreira), próximo ao Rei das Batidas (onde ficava o ponto de ônibus de chegada do circular da cidade universitária e saída de outros ônibus) estarmos distribuindo um santinho da campanha de Fernando Henrique para senador junto com foto e frase de Lula e outros sindicalistas o apoiando.

Muitos anos depois, já na juventude, convivendo com lideranças que fizeram parte da criação do PT e suas reuniões prévias, ficava ainda mais clara a separação desde o nascimento. De um lado, parte dos ilustrados, não aceitava um partido com nome de trabalhadores, do outro, as lideranças sindicais como Lula, Jacob Bittar, Olívio Dutra, Gushiken, José Olívio não admitiam não serem protagonistas.

Em 1993, contaram-me que veio de Jacó e de Olívio uma célebre frase: “Esses caras querem montar um partido junto conosco onde o trabalhador entra com o pescoço e eles entram com a forca”. Ambos, nunca me negaram ou confirmaram a autoria, mas em meio a uma risada, lembram que alguém falou. Além de protagonismo, algo a se entender pela campada micropolítica, já estavam ali perspectivas diferentes do papel da classe trabalhadora e da organização popular para o futuro do país.

O tempo foi passando, o PT foi criado já em 1980, o PSDB conviveu período maior com o PMDB até o fim do Plano Cruzado e os estertores do governo Sarney até ser criado. Além das divergências do nascimento quanto ao protagonismo, foram ficando mais claros os caminhos opostos, mesmo depois de certa convergência entre suas lideranças que foi decisiva para o que existe de “Estado de Garantia de Direitos” no texto constitucional de 1988. Ela começa com a vitória do ideário Tatcher/Reagan sobre o definhamento do socialismo real no leste europeu, o que levou a uma divisão no seio da social democracia europeia e adjacências que influenciou decisivamente os tucanos, que passaram a serem porta-vozes de um projeto de substituição do papel do estado na economia, interrupção de uma perspectiva de ampliação de garantia de direitos sociais e submissão plena a globalização financeira que se iniciava.

Ganha matizes iniciais no primeiro turno da eleição presidencial de 1989, quando os dois partidos se nacionalizam, sob as lideranças públicas de Lula e Covas. Ganha cores mais profundas já no segundo turno presidencial com o titubeio do PSDB em apoiar Lula e o apoio real de parte de suas lideranças a Collor, consolidando-se a imagem de tucanos sempre em cima do muro. Um quadro de aproximações ou distanciamento durante todo o governo Collor, nas indecisões sobre apoiar ou não o impeachment, de compro ou não o governo Itamar, de apoiar presidencialismo ou parlamentarismo no plebiscito nacional de 1993 até que se cristalizam durante as eleições de 1994, quando de um lado Lula lidera uma aliança consolidada de centro- esquerda e FHC cria-se como uma aliança anti-Lula e que põe em prática um projeto baseado na ortodoxia econômica, nas privatizações e na submissão absoluta a lógica do sistema financeiro. Foram 20 anos, até 2014, os dois partidos liderando polos com perspectivas opostas de país.

Chegue aonde chegar, a crise política e institucional na qual o Brasil se meteu desde o final das eleições de 2014 vai iniciar um novo ciclo político histórico no país. Embora ainda não tenhamos claro quais serão as soluções para a atual crise, estando ainda profundamente em risco a nossa democracia já abalada com o golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016, é inegável que ela trará impactos muito fortes em todas as estruturas partidárias e da vida político-social, sem contar com os ventos que sacodem as vidas partidárias e a democracia representativa em todo mundo.

Se formos capazes de garantirmos soluções imediatas no marco da democracia, é possível tirarmos dos movimentos atuais possibilidades de futuro. Se forem aprofundadas as tentações autoritárias ou de seletividade aniquiladora do aparato jurídico-midiático, como condenação sem provas do Presidente Lula e asfixiamento /criminalização do PT, da CUT e outras expressões da luta do campo popular, aí as consequências são imprevisíveis.

Esta semana, o PSDB decretou o seu fim enquanto projeto político para o país na medida em que declara que fará de tudo, se submeterá a tudo com dois objetivos de curto prazo: minimizar as consequências jurídicas para os seus dois últimos candidatos a presidente, Aécio e Serra, participando de um grande acordo político-jurídico para lavar todos os encrencados depois da queda de Dilma, da condenação de Lula e asfixiamento do PT, do qual Temer-PMDB é um dos fiadores institucionais mais importantes pelo espaço que ocupa no Congresso Nacional, e cumprir a finalidade econômica do golpe, congelar investimentos públicos, entregar o pré-sal, acabar com os direitos dos trabalhadores, sendo negligente diante dos retrocessos que envergonhariam o verniz ilustrado dos tucanos como a entrega de parte das terras da Amazônia para a especulação e a submissão das agências reguladoras técnicas (como a ANVISA criada pelos tucanos) ao pior fisiológico da política, como na decisão do Congresso em legislar sobre a liberação de medicamentos para o emagrecimento. Quem submete tudo a objetivos de curto prazo, não tem futuro.

O campo da centro-direita, com discurso modernizador de inserção submissa na globalização financeira mantendo um certo verniz de modernidade até pode ter lideranças tucanas, ou ex-tucanas, no seu comando, mas o PSDB enquanto “partido abrigo” para reuni-las, não terá o mesmo papel e espaço.

Este parafuso em que se enfiaram os tucanos se intensifica com a ausência total de qualquer liderança nacional, nova ou recente, em condições de liderar projetos de sucessão a Temer.

Desestabilizaram o país, semearam o ódio, negligenciaram a instalação de medidas de exceção pelo Estado e estão colhendo Bolsonaros, Marinas, Joaquims. O ensaio de nova liderança tucana a partir do atual prefeito São Paulo, que vive uma saraivada de críticas externas, pesquisa desta semana – veja aqui – do Instituto IPSos revela grande elevação de rejeição ao “gestor de Facebook”; atualização para o século 21, do “caçador de marajá do jet sky” que foi Collor, – rejeição de 39% a 52% entre abril e junho.

Seu pacote de privatização de parques e mercados em São Paulo estacionou na Câmara Municipal, sendo questionado por vereadores do próprio PSDB. Internamente, foram duas semanas de críticas públicas de FHC e Serra. O ápice foi o vídeo do presidente municipal do PSDB, Mario Covas Neto, desancando publicamente o novo Doria no seu meio de predileção: o Facebook. Não sou daqueles inebriados pela arrogância que um dia declarou o fim do PT. É claro que lideranças deste PSDB podem se reciclar e serem a alternativa daqueles que sempre os apoiaram (setores econômicos, jurídicos, mídia, forças politicas conservadoras ) e vieram ser sucesso. E Temer, aconteça como acontecer: indiretas, diretas agora, diretas algum dia, presidencialismo, parlamentarismo. Mas o PSDB como conhecemos não será mais o protagonista. O PT o seu último congresso e as últimas pesquisas mantive aberto um universo de possibilidades. Mas isso tema para nossas outras conversas.

alexandre padilha
*Alexandre Padilha
é médico, foi secretário municipal da saúde na gestão de Fernando Haddad e ministro nas gestões Lula e Dilma.

 

 

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