Criolo cai no samba e manda recado: “Meninos mimados não podem reger a nação”

Em seu disco novo, “Espiral da Ilusão”, todo de sambas, o cantor paulistano fala de amor e de política, com recado que parece ter endereço certo.

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Em seu disco novo, “Espiral de Ilusão”, todo de sambas, o cantor paulistano fala de amor e de política, com recado que parece ter endereço certo.

Por Julinho Bittencourt

O cantor e compositor Criolo acaba de lançar o disco “Espiral de Ilusão”, onde abandona completamente o rap e cai no samba. Ao contrário de discos de outros colegas, como é o caso de Marcelo D2 no lindo “A procura da Batida Perfeita”, o que o rapper paulistano faz é samba mesmo e não intervenções do ritmo aqui e acolá.

O disco abre com o lindo e debochado samba “Lá vem você”, pra deixar bem claro a que veio. Passagens rápidas aparentemente isoladas umas das outras, cena urbana: “Tanta gente na porta de bar, Que vive a sorrir, que vive a chorar, Eu só queria você meu benzinho voltando pro lar”.

A canção título, escrita no feminino, é um lindo samba-canção que cobra a fatura de uma traição feito um soco na boca do estômago: “É que amar é algo novo pros homens, Mulheres amam, homens “não sei o quê”, Pra proteger minha raiz de sensibilidade, Por favor não me liga, não me procure mais tarde”.

Entre várias novidades e sentimentos profusos, Criolo ainda se dá ao luxo de ser um tanto jornalístico em “Menino Mimado” e encomenda o samba com endereço certo: “Eu não quero viver assim, mastigar desilusão, Este abismo social requer atenção, Foco, força e fé, já falou meu irmão, Meninos mimados não podem reger a nação”.

Das dez composições do disco, nove são de Criolo e apenas “Hora da Decisão” é de Ricardo Rabelo e Dito Silva. Praticamente todos os sambas vêm no formato tradicional, com refrão e glosa ou então no velho AABA.

O mesmo acontece com os arranjos. Estão lá no disco os instrumentos tradicionais, como cavaco, violão, percussão, sete cordas, enfim, samba com jeito de samba mesmo. No entanto, as suas composições parecem vir de outro recorte em sua vida. Não lembram em quase nada tudo o que o compositor andou fazendo, com raras exceções.

A impressão que dá é que, ao ouvir “Espiral de Ilusão” nos deparamos com outro compositor, que não ele mesmo. Mas, ao mesmo tempo, escondido entre seus versos, sempre aparece a sua marca registrada. Frases musicais curtas, soluções diretas e anedóticas para as letras, muito vigor criativo e uma certa alegria despreocupada.

Tudo é muito bem feito, simples. A produção lembra muito os velhos discos clássicos de samba da década de 70, com poucos instrumentos e sabor de roda. Impossível ouvir “Espiral de Ilusão” e não correr de volta para os primeiros discos de Cartola ou até mesmo “Axé! Gente amiga do samba”, de Candeia.

Criolo conta que suas grandes influências vêm do pai e da mãe. Na casa onde foi criado, no bairro do Grajaú, quase no limite ao sul de São Paulo, não faltavam discos de Martinho da Vila e Moreira da Silva. Por falar neste, o hilário samba de breque “Filha do Maneco”, não o deixa mentir.

“Espiral de Ilusão” é surpreendente. Um lindo e divertido disco que mostra mais uma das inúmeras facetas de Criolo. Vale destacar ainda a bela capa de Elifas Andretto.

Foto: Capa Espiral de Ilusão/Divulgação

 



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