Hildegard Angel: Sérgio Cabral não lavou dinheiro com joias, teve prejuízo

A mídia nacional, no capítulo luxo, é completamente desorientada. Qualquer casa de dois pisos é mansão. Qualquer copeiro é mordomo. Igual novela de Gloria Magadan.

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A mídia nacional, no capítulo luxo, é completamente desorientada. Qualquer casa de dois pisos é mansão. Qualquer copeiro é mordomo. Igual novela de Gloria Magadan.

Por Hildegard Angel

A Lava Jato mistifica ou é muito desinformada, quando diz que Sérgio Cabral lavou dinheiro comprando joias. Sua mulher, Adriana, adquiriu joias em que se paga pelo design, cujos preços, na revenda, caem a valores baixíssimos.

O joalheiro Antonio Bernardo produz joias minimalistas e cobra essencialmente – e muito caro – pelo seu design. A H. Stern não goza conceito de marca da elite. Criou a fama de joalheria de turista e de rico de primeira viagem, que nos últimos anos ela se esforça por mudar. No Brasil, faz isso com ações de marketing, somando a si a imagem de personalidades que formam opinião na moda, como Costança Pascolato. No exterior, empresta brincos e colares para atrizes que vão ao Oscar. Quem investe em joias como lavagem não compra design, compra peso de ouro ou quilates de brilhantes – pedra, não é farelinho. Faz lances, via internet em leilões no exterior, Sotheby’s, Christie’s, e deixa as joias lá fora, nos cofres. O pessoal que tem joias e entende de joias até ri, quando vê o estardalhaço que a mídia faz com as joias da Adriana Ancelmo. Mais uma a cair no conto do paco das joalherias, que cobram caríssimo por peças desimportantes e, quando se vai desfazer delas, o brilhante é poeira, o ouro é casquinha e a marca não agrega o valor pretendido.

A mídia nacional, no capítulo luxo, é completamente desorientada. Qualquer casa de dois pisos é mansão. Qualquer copeiro é mordomo. Igual novela de Gloria Magadan.

Aliás, e já que estou embalada, o mesmo está acontecendo com as antiguidades, cujo mercado no Brasil está super na baixa. As peças boas não são mais encontradas nos antiquários, está tudo nos leilões internacionais. E o brasileiro rico (rico rico) só está comprando nos leilões lá de fora. As peças importantes, pinturas da Renascença, torsos romanos de mármore do século 1, vasos gregos do século 6 Antes de Cristo, os móveis do século 18 assinados, as cômodas Biedermeier, as joias de Van Cleef, Bulgari e Fabergé – até o cachimbo do Einstein! – ele adquire nesses leilões bacanas e deixa em seus depósitos no exterior ou em seus apartamentos em Londres, Paris, Nova York.

O rico brasileiro de verdade já desistiu do Brasil. Está pouco se lixando se tem gente pobre, vivendo e defecando nas ruas. Não é que ele seja insensível, é que ele não vive aqui. Ele está por aqui. Tem seu apartamento à beira mar, frequenta seu clube, onde joga tênis, convive com seu reduzido círculo de amigos e ponto. Depois, embarca no seu jato para a residência lá fora. O Brasil é para ganhar dinheiro e remeter dinheiro. Este rico não tem mais o embaraço da língua, como alguns ricos de gerações anteriores, pois os filhos e netos já dominam o inglês desde que nascem e sequer conhecem a nossa História. O rico brasileiro é globalizado, não tem brio patriótico, ao contrário, sente bastante preconceito e desprezo em relação ao nosso país, onde lamenta ter nascido. Existem, naturalmente, as raras exceções. Por isso mesmo, louváveis.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 



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