Patrícia Lélis: Não, a teologia feminista não é uma piada

“Sororidade é também respeitar mulheres que optaram pela experiência da fé”. Leia mais no novo artigo de Patrícia Lélis  Por Patrícia Lélis ...

615 0

“Sororidade é também respeitar mulheres que optaram pela experiência da fé”. Leia mais no novo artigo de Patrícia Lélis 

Por Patrícia Lélis 

A teologia feminista é um movimento que abrange várias religiões, como judaísmo, budismo, cristianismo e qualquer outra religião que queira fazer parte. Tudo o que fazemos é reconsiderar as tradições práticas a partir de uma perspectiva feminista. Para quem não sabe, o conceito de “teologia feminista” nasceu no século passado, liderado por Elizabeth Cady Stanton, devido a reuniões de mulheres cristãs que se uniam para estudar passagens bíblicas onde a figura da mulher era presente. Por conta desses encontros nasceu a “Woman’s Bible”, mais conhecida entre nós como “Bíblia para mulheres”.

Já no âmbito católico, nasceu a “Aliança Internacional Joana D’ Arc” que, por sua vez, propunha-se a “assegurar igualdade dos homens e das mulheres em todos os campos”. A Bíblia é patriarcal? Sim. Mas acredito fielmente que Jesus não era machista, misógino e machista.

Gostaria de lembrar aqui algumas partes bíblicas onde vemos isso de uma forma muito clara. Em uma sociedade que dava privilégios ao homem, Jesus procurou tirar esses privilégios. Posso citar aqui Mateus 19: 7-12, que trata sobre o divórcio, e Jesus se posiciona contra os fariseus, os repreendendo, colocando o homem e a mulher em pé de igualdade. Podemos aqui ressaltar que a Bíblia é um livro escrito por humanos, onde podemos ter diversos erros e interpretações.

Também vemos as mulheres que seguiam Jesus desde a Galiléia se tornando suas discípulas, o que mais uma vez podemos chegar a conclusão que Jesus sempre foi um lutador de classes, e sempre quis colocar a mulher em igualdade com o homem, mesmo com todos os “poréns” encontrados na época.

Não podemos dizer que os fatos históricos não tem influencia nisso tudo, sendo que a história está presente em tudo. Ao longo da história do evangelho, podemos afirmar que muitos homens se aproveitaram da crença alheia para beneficio próprio. Criou-se um falso evangelho moralista, onde o único intuito é arrancar dinheiro de pessoas sem senso crítico e alienados religiosos. Mas o evangelho não é isso. Jesus não é isso. Os argumentos de intolerância religiosa não refletem a imagem de Cristo. Infelizmente, chegaram ao ponto de se definir leis do nosso país, com base religiosa, e com argumentos rasos ditos em nome de Deus, mas que não pertencem a ele. E, por pior que seja, encontraram no meio desse caminho pessoas que concordam com tais discursos de ódio, mas se esquecem que acima de tudo, Deus é amor.

O ser humano chegou ao ponto de colocar em questionamento um crime de estupro, cometido por um pseudo homem de deus, que se diz santo, mas que todos os domingos cobra valores absurdos para poder levar a sua suposta “palavra ungida” para pessoas carentes que recebem tais palavras como acalento, por estarem tão perdidas nesse mundo que a cada dia se torna mais sem cruel. Colocaram dentro do nosso parlamento uma bancada evangélica que só destrói a nossa Constituição com seus ideais preconceituosos e conservadores. Mas Deus não é intolerância. Deus não está no deputado – pastor – estuprador. Deus não está dentro da bancada evangélica no nosso parlamento. Passei a acreditar e defender que Deus está dentro de cada uma de nós, e conseguimos refletir sua imagem e semelhança quando ajudamos o próximo, quando agimos por empatia, por amor.

O feminismo cabe, sim, dentro do evangelho, uma vez que podemos afirmar que Jesus também criou nós mulheres para sermos líderes, assim como Débora foi a quarta juíza de Israel, e liderou os israelitas contra o domínio de Canaã. Podemos afirmar que o feminismo cabe no cristianismo quando Jesus não pensou duas vezes antes de salvar uma mulher que seria apedrejada por falsos moralistas. Homens colocaram a ideia de que Deus é um homem de pele e barba brancas, mas a verdade é que ninguém sabe disso ao certo. E tenho certeza que quem começou a colocar a imagem de Deus nessa posição era um homem que queria colocar o homem como superior em relação as mulheres.

Deus é uma figura diversificada. E defendo que ele esteja no senso de justiça, na igualdade e também nas relações interpessoais. Eu fiz uma escolha de não mais frequentar igrejas, me encontro exausta de tanto falso moralismo, e de pessoas que tem preguiça e medo de questionarem a Bíblia. Mas passei a frequentar grupos de estudos feministas, e foi a melhor escolha que fiz. Passei a deixar de ver Deus como esse cara branco, com cabelos reluzentes, e barba de papai Noel. Passei a entender o evangelho puro, onde posso encontrar com ele, e fazer dele uma amigo íntimo. Passei a acreditar que Deus não é esse cara perverso, moralista, e sem humor. Não vamos confundir Deus com religião. Vamos começar a questionar como as mulheres são colocadas no âmbito cristão, e vamos começar isso por Eva. Vamos começar a lembrar que Adão não foi obrigado a nada, comeu do fruto proibido por vontade própria, e alguém na hora de escrever a Bíblia colocou a mulher como pecado, e Adão como o homem vítima de uma mulher que o fez pecar. Nada de novo do que acontece nos dias atuais.

Defendo muito que cada um fique “no seu quadrado”, porém também defendo que o feminismo é para todxs, e pode, sim, se fazer presente em tudo. Vamos sempre lembrar que Jesus era feminista, defensor das mulheres. Sejamos como Jesus.

Fiz esse texto em reposta a querida Nathalí Macedo, que publicou recentemente um texto afirmando que teologia feminista é piada. Espero que nada aqui tenha soado ofensivo, pois tenho muito carinho e respeito pela Nathalí, que sempre se prontificou a me ajudar, e contribui muito para a minha desconstrução diária. Feminismo é pluralismo, e também dialogo de ideia divergentes.



No artigo

x