O humanismo imprescindível de Drauzio Varella

O Dr. Drauzio Varella trata as pessoas. Sejam elas quem e o que forem. Não importa o que tenham feito. O médico completou a sua trilogia carcerária com mais duas publicações tão ou mais...

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O Dr. Drauzio Varella trata as pessoas. Sejam elas quem e o que forem. Não importa o que tenham feito. O médico completou a sua trilogia carcerária com mais duas publicações tão ou mais comoventes quanto “Estação Carandiru”. “Carcereiros”, de 2012, e agora, o recém lançado “Prisioneiras”, sobre o devastador e solitário mundo das mulheres presidiárias. Em todos os casos, o médico deixa claro o tanto que aquele estranho e adverso microcosmo reproduz, de certa forma, a vida fora das prisões

Por Julinho Bittencourt

O Dr. Drauzio Varella trata as pessoas. Sejam elas quem e o que forem. Não importa o que tenham feito. Muito mais do que isso, ele pensa as pessoas, ou um mundo melhor para elas. A história é antiga, mas para nós, o público, começou com as suas visitas semanais e voluntárias ao complexo penitenciário do Carandiru, em São Paulo, durante os anos 90.

Preocupado com a epidemia de Aids que se alastrava dentro da população carcerária, Dr. Drauzio mergulhou em um mundo até então completamente estranho à sua bolha de cientista e cidadão bem formado. Começa então uma viagem que ele generosamente compartilhou no comovente livro “Estação Carandiru”, best seller brasileiro de 1999. Em 2003, a publicação virou o também excelente filme “Carandiru”, de Hector Babenco.

O que mais impressiona no relato do médico é a sua completa e ampla distância da sanha de justiça. Em cada história, relato ou descrição de tudo o que viveu por ali ele enxerga seres humanos privados de suas vidas, possibilidades, à margem da própria sorte. Posto isso, não faz julgamentos. É um médico, como gosta de dizer, e não juiz ou policial. A ele resta tratar de gente. E assim o faz.

Dr. Drauzio completou a sua trilogia carcerária com mais duas publicações tão ou mais comoventes quanto “Estação Carandiru”. “Carcereiros”, de 2012, e agora, o recém lançado “Prisioneiras”, sobre o devastador e solitário mundo das mulheres presidiárias. Em todos os casos, o médico deixa claro o tanto que aquele estranho e adverso microcosmo reproduz, de certa forma, a vida fora das prisões.

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Há, no entanto, um pequeno livro do Dr. Drauzio que passou quase despercebido, diante do barulho que fez a sua trilogia carcerária, mas que deveria ser leitura obrigatória em todas as instancias da raça humana. “Palavra de Médico – Ciência, Saúde e Estilo de Vida” é uma coletânea de seus artigos em várias publicações e trata com simplicidade, mas nunca de forma banal, de várias questões que envolvem o nosso bem-estar.

Nele, o médico fala sem preconceitos ou barreiras sobre sexualidade, envelhecimento, alimentação, prática de esportes, doenças sexualmente transmissíveis e mais uma série de assuntos imprescindíveis. O livrinho é um precioso manual para os que, não só querem viver muito, mas bem, com saúde e disposição.

Dr. Drauzio, com seu jeito coloquial e bem-humorado, destila inteligência por todos os poros. Não engana a ninguém. Faz questão de deixar claro que a preguiça é o pior inimigo da pratica esportiva e que o sedentarismo é, por consequência, o pior inimigo da saúde. Ou um deles, ao lado da gordura. Mas, ao mesmo tempo, também não mente sobre as delícias de uma boa carne. Tudo, segundo ele, é questão de parcimônia.

Trata-se, enfim, de um cientista que está a serviço do bem-estar, custe o que custar. Para isso, não nega uma boa e virulenta briga com a indústria do tabaco ou com fundamentalistas religiosos, quando se trata de questões delicadas como aborto, gravidez precoce, sexo entre adolescentes, uso de drogas, entre outras celeumas.

Sua mais recente pendenga foi coma a ação desastrada da administração do prefeito João Doria na Cracolândia. Em poucas palavras, o médico definiu de forma fulminante a questão: “Todo mundo tem que se convencer de que não é possível acabar com a Cracolândia. A Cracolândia não é causa de nada, é consequência de uma ordem social que deixa à margem da sociedade uma massa de meninos e meninas nas periferias.”

A frase veio logo depois de Doria anunciar que havia acabado com a Cracolândia.

A popularidade de Doria despencou depois da ação. Os livros e o apreço da população por Drauzio Varella vão muito bem, obrigado.



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