Marco Aurélio Garcia morreu dez anos e um dia depois do “top top” no JN

Foi no dia 19 de julho de 2007, dez anos e um dia antes de morrer, que Marco Aurélio Garcia foi filmado fazendo um gesto obsceno ao saber o resultado do ludo do Airbus...

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Foi no dia 19 de julho de 2007, dez anos e um dia antes de morrer, que Marco Aurélio Garcia foi filmado fazendo um gesto obsceno ao saber o resultado do ludo do Airbus da TAM. O problema era falha mecânica e não responsabilidade do governo

 

Por Julinho Bittencourt

 

No dia 19 de julho de 2007, o então assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, foi avisado pela reportagem do Jornal Nacional que iria ao ar matéria com o laudo técnico do acidente da TAM, ocorrido poucos dias antes, em 17 de julho. A produção do jornal pedia que ele assistisse para, posteriormente, repercutir o documento.

Era uma pegadinha. Assim que o assessor foi avisado, o câmera Rafael Sobrinho, do JN, se postou embaixo da janela da sala de Garcia no Palácio do Planalto para filmar a sua reação. Dito e feito. Desde o terrível acidente, o governo era vítima de acusações levianas da imprensa sobre uma provável responsabilidade da Infraero na morte daquelas quase 200 pessoas. Ao ver a reportagem, em cena que marcou a sua vida, Marco Aurélio Garcia, desabafou com um sonoro “fodam-se”, seguido do gesto popular do top top, imortalizado pelo Fradim, do Pasquim. Na cena, Garcia estava acompanhado pelo seu assessor, Bruno Gaspar, que juntou os braços e fez o gesto da cópula. A cena foi ao ar e Garcia atirado aos leões. Estaria desrespeitando a memória das vítimas do acidente entre outras acusações ainda mais levianas.
A reação do explosivo militante foi, como ele mesmo explicou posteriormente, contra a postura da imprensa e jamais de desrespeito às vítimas:
“Essas imagens refletem minha indignação frente a uma determinada versão que se quis passar para a opinião pública, que creditava ao governo a responsabilidade de um acontecimento dramático. É indignação porque não se trata simplesmente de jogar a responsabilidade nas costas do governo. Trata-se de explorar uma tragédia na qual morreram 200 brasileiros. Então, isto é um sentimento de indignação, é uma reação privada que qualquer pessoa de bom senso teria neste momento”, disse Garcia.
Curiosamente, Marco Aurélio Garcia veio a morrer, em consequência de um infarto agudo do miocárdio, dez anos e um dia depois daquele dia, em que foi mostrado em cadeia nacional numa cena privada que, de certa forma, o desabonava. Tanto que acabou se desculpando em nota pelo fato (veja abaixo).

Muito anos depois, em abril de 2016, no exato dia da famigerada votação do impeachment de Dilma na Câmara, encontro durante a tarde Marco Aurélio Garcia no Ki-Filé, na Asa Norte, tradicional restaurante de Brasília onde se come a melhor carne de sol daquelas bandas. Perguntei sobre a votação e ele, curiosamente, respondeu com o mesmo gesto do top top e falou, sorrindo: “estamos fodidos garoto, estamos fodidos”. Por trás do sorriso e do escárnio provavelmente se escondia uma dor enorme no coração do velho militante que, pouco mais de um ano depois, veio a falhar. Naquele dia, no entanto, antes de chegar à porta do restaurante, ele se virou e completou: “Estamos fodidos, mas a gente volta”.

Confira a íntegra da nota de Marco Aurélio Garcia
“Minha reação, absolutamente pessoal, às informações do Jornal Nacional de que havia indícios de falha mecânica no acidente da TAM, exibidas em sucessivos noticiários de TV e reproduzidas em jornais, não expressa "satisfação", "alívio" ou "felicidade", como pretenderam setores da mídia.
O momento que vive o país, abalado pela morte de cerca de 200 homens, mulheres e crianças – muitos dos quais gaúchos, como eu – é antes de tudo de recolhimento, luto e pesar.
O sentimento de que fui possuído ao ver o noticiário foi fundamentalmente de indignação. Sem nenhuma investigação, ou parecer técnico consistente, importantes setores dos meios de comunicação não hesitaram, poucas horas depois do acidente, em lançar sobre o governo a responsabilidade da tragédia de São Paulo, como já haviam feito anteriormente com a queda do avião da Gol. Os novos fatos mereceriam ao menos o reconhecimento de que houve
precipitação e desinformação da opinião pública.
Assim, o sentimento que extravasei, em privado, foi e é de repúdio àqueles que trataram sordidamente de aproveitar a comoção que o país vive, para insistir na postura partidária de oposição sistemática a um governo duas vezes eleito pela imensa maioria do povo brasileiro. Aos que possam, ainda assim, sentir-se atingidos por minha atitude, apresento minhas desculpas.



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