Mães do Cárcere: mulheres relatam os dramas da maternidade na prisão

Livro traz depoimentos sobre as trajetórias de gestantes e lactantes encarceradas e a dor da separação de seus filhos     ...

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Livro traz depoimentos sobre as trajetórias de gestantes e lactantes encarceradas e a dor da separação de seus filhos   

 

Por Adriana Delorenzo

 

Durante um ano, a jornalista Natália Martino e o fotógrafo Leo Drumond visitaram o Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade, localizado em Vespasiano (MG), a primeira unidade prisional destinada exclusivamente a gestantes e lactantes. Lá, ouviram histórias de mulheres encarceradas. O resultado está na obra “Mães do Cárcere” (editora Nitro), viabilizada com financiamento coletivo no Catarse. O livro traz os depoimentos na íntegra, acompanhados de comentários dos autores sobre os bastidores dos relatos. Quem eram aquelas mulheres privadas de liberdade que contavam como foram parar ali, na maioria das vezes, vidas que começaram com violências na infância, com abuso sexual e abandono.

Os autores citam estudo de Barbara Musumeci e Iara Ilgenfritz, em “Prisioneiras: vida e violência atrás das grades” (editora Garamond), que mostra que mais de 95% das mulheres presas foram submetidas a violência física, sexual ou psicológica ao longo de suas vidas. A maioria delas são negras e analfabetas. Segundo o Ministério da Justiça (2014), apenas 31% das presas são brancas e 44% delas não concluíram nem o ensino fundamental. Dessas, 15% não tiveram acesso à educação formal.

Os depoimentos trazem também os sofrimentos que elas passam ao ter a gestação na unidade e a dor da separação da criança. De acordo com a Lei de Execução Penal, as unidades prisionais femininas devem ser dotadas de berçários, para que as mães possam cuidar de seus filhos, inclusive amamentá-los até os 6 meses de idade. A legislação diz ainda que as unidades devem ter creche para abrigar crianças maiores até 7 anos. Na prática, apenas a permanência por 6 meses é cumprida.

Uma das cenas mais difíceis vivenciadas pelos autores foi o dia da separação de Daniela de seu filho, Samuel. “Em silêncio, um grupo de cerca de quinze presas deu as mãos e formou um círculo. Juntas, começaram a cantar músicas religiosas e rezar. Daniela só chorava.” Uma das presas pegou o Samuel, que seguiria para Brasília com a avó, que passaria a ser sua tutora. Esse é um drama das mães, quem não consegue um tutor tem o filho levado para um abrigo.

O livro revela outras questões das mulheres encarceradas, como os filhos “lá fora”.  O filho de Michele, por exemplo, de 8 anos, ficou com o pai. “O pai falou que não queria mais. Mandou para o abrigo.(…) Ele juntou com uns meninos moradores de rua e fugiu.” A mãe conta que quando recebeu o benefício de passar sete dias fora da prisão foi atrás do menino nas ruas. “Quando ele veio, não acreditei. Foi a cena mais triste da minha vida. Todo sujo, com os pés pretos, descabelado, os olhos caídos, manchado. Umas manchas brancas no rosto, não sei o que era aquilo. Drogado. Começou a chorar e perguntou se agora eu ia ficar com ele. Hoje, Caique está com 12 anos e eu fico aqui muito preocupada. Ele lá, sem estrutura nenhuma, na rua.”



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