Mulheres com deficiência, raça, classe e algumas notas sobre Angela Davis

“As mulheres com deficiência precisam se juntar à luta das mulheres, porque se elas se movimentarem, todas as estruturas da sociedade se movimentaram e se acessibilizarão com ela”. Leia mais no novo artigo da...

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“As mulheres com deficiência precisam se juntar à luta das mulheres, porque se elas se movimentarem, todas as estruturas da sociedade se movimentaram e se acessibilizarão com ela”. Leia mais no novo artigo da coluna de Adriana Dias 

Por Adriana Dias*

Como mulher com deficiência, a mulher negra sempre me serviu de inspiração. No feminismo, que agora começa ouvir a mulher negra, eu não vejo a mulher com deficiência ainda. E, por isso, peço ajuda às mulheres negras.

É impossível pensar no movimento feminista sem evocar Angela Davis. “Mulheres, raça e classe” foi meu livro de cabeceira durante muito tempo. Poucas autoras conseguiram, como Davis, explicitar como as relações de classe, raça, gênero se entrelaçam, desenvolvendo estruturas aprisionantes para mulheres, e como as mulheres, silenciadas por esses nós poderosos criados pelos imensos poderes coloniais, precisam refletir acerca de sua condição.

Lembro que, ao citar no primeiro capítulo do livro o debate iniciado a respeito das declarações de Urich B. Phillips, em 1918, que defendia, absurdamente, que a escravidão apresentou a civilização aos povos negros, lembrei imediatamente de trechos dos neonazistas de minha pesquisa de Doutorado que enfatizam que nunca nenhum povo evoluiu sem contato com o poder civilizatório do homem branco. Phillips é o exemplo de “estudioso” que o neonazis gostam de citar: um defensor do sistema colonialista. Tanto ele quanto seus admiradores de todas as épocas estão absolutamente incorretos, e as mulheres, os negros e os pobres pagaram muito alto o preço dessa falácia.

Se o sistema colonial foi habilidoso em plantar falácias e cana de açúcar, também foi em desenvolver disputas  entre as mulheres, entre os pobres, entre os diversos movimentos sociais. No feminismo, as mulheres negras foram historicamente caladas. Entre os mais pobres, os negros sempre os menos favorecidos, os mais perseguidos, os mais encarcerados.

O Estado que pune e acusa olha para o negro com vinte vezes mais violência, acusa a mulher negra muito mais veemente, criminaliza a pobreza sempre que vê brecha.

No livro de Davis, ela descreve como na Era de Ronald Reagan (1981 a 1989) os movimentos sociais foram sistematicamente desarticulados nos EUA. Esse processo se fortaleceu durante a Guerra Fria, escrito sobre o ódio às esquerdas, e a partir de um ultra-conservadorismo religioso na América, com as grandes cruzadas religiosas em estádios. Além disso, ele praticamente extinguiu todos os programas sociais de combate a pobreza, dos habitacionais, aos voltados a Universidades e educação.

Ao descrever esse o modo Reagan de destruição do mundo social, Davis lembra o papel que a mulher negra assume ao se empoderar: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

Sinto que o governo Temer quer destruir os movimentos sociais e ser um Reagan super destruidor em menos tempo.

As mulheres com deficiência precisam se juntar à luta das mulheres, porque se elas se movimentarem, todas as estruturas da sociedade se movimentaram e se acessibilizarão com ela.

*Adriana Dias é formada em Ciências Sociais e mestre e doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp. Coordena o Comitê “Deficiência e Acessibilidade, da Associação Brasileira de Antropologia. Também é membro da American Anthropological Association



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