Sarahah: crítica honesta e construtiva ou uma porta aberta ao cyberbullying?

App de mensagens anônimas virou o mais novo sucesso da internet nas últimas semanas

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App de mensagens anônimas virou o mais novo sucesso da internet nas últimas semanas e ocupa as primeiras colocações entre os mais baixados na Apple Store do Brasil e dos EUA.

Por Bruno Santana

Do árabe, Sarahah significa “franqueza” ou “honestidade”. Foi baseado neste conceito que o desenvolvedor Zain al-Abidin Tawfiq criou o aplicativo e o slogan: “tenha feedback honesto de seus colegas de trabalho e amigos”. Hoje, o app registra 14 milhões de usuários cadastrados e cerca de 20 milhões de visitantes por dia, entre a versão web e mobile.

Natural da Arábia Saudita, Tawfiq acredita que a comunicação interpessoal no ambiente corporativo deva ser mais honesta. Por isso criou o Sarahah, com o objetivo de incentivar críticas verdadeiras e construtivas ao permitir o envio de mensagens anônimas. Mas até que ponto isso pode ser realmente positivo e não se tornar uma ferramenta de cyberbullying?

Não faz muito tempo que, em 2014, outro aplicativo que permitia mensagens anônimas entre usuários invadiu a internet com boas intenções e em pouco tempo foi “usado para o mal”. Quem se lembra do Secret? Foi criado com o intuito de incentivar as pessoas a confessarem coisas que não teriam coragem de fazer mostrando a cara. Virou um sucesso imediato na web, no mesmo passo em que se transformou numa plataforma onde pessoas expunham segredos que outras não queriam que fossem revelados – quando não partiam para postagens difamatórias, de conteúdo preconceituoso e mentiroso. Com o crescente número de críticas – e processos na Justiça – os criadores tiraram o aplicativo do ar.

Entrevistado pelo site Mashable, o desenvolvedor do Sarahah ressalta que, de alguma forma, todas as redes sociais enfrentam esse tipo de problema e diz que está trabalhando em aperfeiçoamentos para minimizar esse tipo de prática – como filtros para palavras ofensivas, além de permitir que os usuários bloqueiem essas pessoas. “Realmente faço o meu melhor para criar um ambiente positivo”, diz.

No começo, a proposta do app era ser usado para fins profissionais, uma vez que Tawfiq enxergava a falta de uma comunicação honesta com seus chefes, na empresa de petróleo em que trabalhava na Arábia Saudita. Sua meta inicial era atingir mil mensagens enviadas com o Sarahah, que existia apenas como um website em língua árabe. Sem atingir suas expectativas, decidiu compartilhar o site com um amigo que considerava um influenciador digital.

De acordo com Tawfiq, em poucos dias, o site pulou de 70 usuários para mais de mil. A partir daí “se espalhou como um vírus” em outros países,como Líbano e a Tunísia, até chegar ao Egito, no início de 2017. Com mais de 3 milhões de pessoas registradas, o site ganhou uma versão em inglês e, posteriormente, virou aplicativo para dispositivos móveis.

Este sucesso atual do aplicativo no chamado mundo ocidental veio por causa do novo uso dado a ele. Por aqui, os usuários criaram o hábito de compartilhar o nome de usuário em redes como Facebook, Instagram e Snapchat, estimulando amigos e conhecidos a enviarem perguntas anônimas – ao invés das críticas construtivas. Muitos vão além, compartilham publicamente essas perguntas – acompanhadas ou não das respostas – nas mesmas redes sociais.

Polêmico ou não, a verdade é que, independentemente de quais ferramentas vão coibir o mau uso, o que precisa mudar é o comportamento dos usuários que pensam que podem escrever o que bem entendem na internet sem responder por seus atos. Enquanto esperamos por essa mudança, o Sarahah desbancou grandes redes sociais já consolidadas, como Facebook, Instagram e Twitter em número de downloads de acordo com as análises da Sensor Tower.



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