Ivana Bentes: O Chico é um manifesto Bin Laden de maturidade masculina

Professora e ex-secretária do Ministério da Cultura foi mais uma mulher a criticar o “tribunal do Facebook” que vem acusando Chico Buarque de machismo em sua nova canção. “Chico fez e faz a crônica...

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Professora e ex-secretária do Ministério da Cultura foi mais uma mulher a criticar o “tribunal do Facebook” que vem acusando Chico Buarque de machismo em sua nova canção. “Chico fez e faz a crônica de outros mundos e subjetividades, complexas, adultas, não “objetivas”. Eu odiaria viver em um mundo sem metáforas”. Leia

Por Ivana Bentes*, em suas redes sociais 

Sou sujeito fêmea! E o Chico Buarque patrulhado pela direita como petralha, comunista, bolivariano, boquinha da Rouanet e agora pela esquerda como machista, old school, datado, babão, etc. Ai você vai lá ouvir a música, linda, suave, “cantiga” de ninar para adultos e só lembro de Nelson Rodrigues (outro que vai cair em desgraça rs) falando dos “idiotas da objetividade”. O mundo sem metáforas, o mundo da “denotação” e do “literal”, o mundo sem “simbólico” é insuportável. O cara diz que “larga mulher e filhos” e alguém já lê como: um cafajestão que vai abandonar as crianças à mingua e deixar de pagar pensão e dar atenção? Mais um macho abandonador de cria (uma realidade por todo o Brasil, minas largadas pra criar filho sozinho, ok, real), mas tenho dificuldade de enxergar nas letras e músicas de Chico, um mulherófilo old school e suas músicas, essa subjetividade abandonante). O cara diz assim “Na nossa casa/Serás rainha Serás cruel, talvez/Vais fazer manha/Me aperrear/E eu, sempre mais feliz”. Ai vem lá um “Que mané rainha”? hahaha. Sou sujeito fêmea independente. Sai pra lá machão romântico, preciso de você pra nada, etc. Em um mundo em que os machinhos descolados não dão bom dia para a mina com quem transaram na noite anterior, e se escondem e fogem dos afetos, o Chico é um manifesto Bin Laden de maturidade masculina : )  E por ai vai. Enfim. Música, cinema, texto, cantigas são “obras abertas”. Não é o estatuto contra a violência doméstica ou qualquer outro mecanismo de lei de proteção das mulheres que tem que ser cumprido na sua literalidade. A parte boa é saber que  Chico Buarque cumpre com esse debate uma “função”, como Freixo e como muitos outros cumprirão. Vão pagar o pedágio do machismo, do patriarcalismo, real e violento, que temos sim que combater e denunciar cotidianamente. Um “lugar” (foi ele, mas podia ser qualquer outro) no importante debate dos feminismos, um momento pedagógico que desnaturaliza tudo. Todo momento inaugural de algo é furioso e desestabilizador, dogmático também e as vezes redutor. Acho fantástica essa consciência das mulheres e da sociedade brasileira do sujeito fêmea, dos feminismos todos. Chico fez e faz a crônica de outros mundos e subjetividades, complexas, adultas, não “objetivas”. Eu odiaria viver em um mundo sem metáforas! #cantiga #chicobuarque #feminismos

*Ivana Bentes é professora, jornalista, pesquisadora, ex-diretora da Escola de Comunicação da UFRJ e ex-Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura



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