Antonio Cícero: “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”

“Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são ‘letristas’. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque”, avalia Cícero, recém eleito para a...

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Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são ‘letristas’. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque”, avalia Cícero, recém eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras. Confira sua entrevista à Fórum 

Por Lucas Vasques

Filósofo, escritor, poeta, letrista, ensaísta e mais. Há muitos Antonio Cícero em um só. No último dia 10 de agosto, em reconhecimento à sua rica trajetória intelectual, ele foi eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo Eduardo Portella. Antes, os ocupantes da cadeira 27 foram Joaquim Nabuco (fundador da cadeira e que escolheu como patrono Maciel Monteiro), Dantas Barreto, Gregório da Fonseca, Levi Carneiro e Otávio de Faria.

Antonio Cícero é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea”, definiu Domício Proença Filho, presidente da ABL. E sua trajetória foi longa. Autor dos livros de poemas Guardar, A cidade e os livros, Porventura e O livro de sombras, este em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, também publicou ensaios filosóficos, além de ter uma intensa militância na cena cultural brasileira, organizando e participando ativamente de coletâneas e conferências.

Cícero escreve poesia desde jovem, mas sua escrita passou a ser mais conhecida popularmente depois que começou a compor as letras das canções de sua irmã Marina Lima, como Fullgás, Para Começar e À Francesa, as duas primeiras em parceria com Marina e a última com Cláudio Zolli. Também teve outros parceiros na música, com destaque para Waly Salomão, João Bosco, Orlando Moraes, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos (coautor, junto com Cícero e Sérgio Souza, do grande sucesso O Último Romântico).

Fórum – A poesia, de alguma forma, é encarada com certo menosprezo, inclusive dentro do universo intelectual. Sua eleição à ABL pode representar uma mudança nesse paradigma?

Antonio Cícero – Há muitos “universos intelectuais”. Não acho que a poesia seja encarada com menosprezo nos melhores universos intelectuais. Ao contrário: os maiores intelectuais que já conheci – e conheci muitos, tanto no Brasil quanto no exterior – têm a poesia na mais alta conta. Que intelectual de peso pode desprezar as obras de Homero, Virgílio, Horácio, Dante, Shakespeare, Camões, Antero de Quental, Calderón de la Barca, Keats, Wordsworth, Goethe, Hölderlin, Baudelaire, Mallarmé, Fernando Pessoa, T.S. Eliot, Manuel Bandeira, Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Armando Freitas Filho ou tantos e tantos outros?

Fórum – Você, além de filósofo e poeta, também ficou conhecido por ser um letrista de destaque na MPB. Uma velha discussão que permeia o mundo acadêmico é se letra de canção é poesia. Há poesia em letra de canção? E quais as intersecções entre ambas? 

Antonio Cícero – A poesia começou sendo cantada. Os poemas de Homero eram recitativos, isto é, eram meio recitados e meio cantados. Os poemas líricos gregos, como a própria palavra “lírico” indica, eram cantados, acompanhados pela lira. Assim, alguns dos maiores poemas da tradição ocidental eram o que chamamos de “letras de música”. Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são “letristas”. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Fórum – Dentro desse debate, o fato de Bob Dylan ter sido escolhido para ganhar o Prêmio Nobel de Literatura indica que a literatura pode ser encarada de uma forma mais ampla?

Antonio Cícero – Sim, claro.

Fórum – Em sua avaliação, o que há de filosofia na sua poesia?

Antonio Cícero – Na poesia podem entrar todas as faculdades humanas: razão, intelecto, emoção, sensação, sentimento, emoção, memória, cultura etc. Assim, o que pensamos filosoficamente pode, de um modo ou de outro, entrar num poema. Contudo, a filosofia não é, num poema, necessariamente mais importante do que um gosto, uma impressão, um amor, um ódio, um corpo, um rosto… Quando está presente, ela não passa de um elemento, muitas vezes inteiramente secundário. Não é, de maneira nenhuma, a filosofia que torna um poema bom ou ruim. Mesmo quem não é marxista pode, por exemplo, admirar imensamente um poema de Brecht em que estejam presentes ideias marxistas.

Fórum – Um poema, apesar de ser uma forma bem particular de linguagem, pode funcionar como crítica ou narrativa filosófica?

Antonio Cícero – Sim. O poema de Lucrécio De rerum natura pretende ser um tratado filosófico epicurista. Mas o que o torna bom enquanto tratado epicurista não é necessariamente o que torna alguns de seus trechos esplêndidos enquanto poesia. Por exemplo, os seguintes dois versos têm sido considerados como versos insuperáveis em qualquer literatura, mesmo por quem não é epicurista:

nequiquam, quoniam medio de fonte leporum

surgit amari aliquit quod in ipsis floribus angat”,

 que podem ser traduzidos como

tudo é em vão, pois da própria fonte da doçura

súbito surge algo que nos amargura”

Fórum – O presidente da ABL, Domício Proença Filho, afirmou que você é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea. Você encara isso como uma forma de reconhecimento por seus anos de trabalho?

Antonio Cícero – Sim. E fico muito grato ao presidente Domício Proença Filho por ter afirmado isso.

Foto: Eucanaã Ferraz/Divulgação



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