40 Anos sem Elvis, o inventor da cafonice americana

Seguido pelos Beatles, Rolling Stones e uma miríade enorme de astros, Elvis foi o pioneiro a se apossar e embranquecer a vigorosa música dos negros, domesticando-a e fazendo milhões com isso, tanto para si próprio quanto para a indústria.

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Seguido pelos Beatles, Rolling Stones e uma miríade enorme de astros, Elvis foi o pioneiro a se apossar e embranquecer a vigorosa música dos negros, domesticando-a e fazendo milhões com isso, tanto para si próprio quanto para a indústria.

Por Julinho Bittencourt

A descrição da visita dos Beatles ao então ídolo Elvis Presley, em sua mítica casa denominada Graceland, na cidade de Memphis, no estado americano do Tennessee é, no mínimo hilária. Elvis recebeu os quatro garotos sem sair de sua poltrona, onde tocava (mal) um contrabaixo e assistia TV.

Ao redor de Elvis, um séquito de pessoas fazia todas as suas vontades, num tratamento digno de um monarca. George Harrison, que já não encontrava mais atrativos na música cafona que o então rocker fazia, foi o primeiro a se entediar e, segundo as suas palavras, procurar um baseado para fumar em algum lugar da casa.

Na hora de ir embora, meio desapontados, todos se despediram. Lennon parou na porta, se voltou e gritou: “Longa vida ao rei!”, e saiu. Elvis teria dado um sorriso irônico e um pequeno aceno. Naquele período, o até então insuperável cantor começava a perder o seu reinado para os próprios Beatles, que estavam ali na sua sala, o que deve ter lhe provocado algum incômodo.

O fato é que Elvis foi o primeiro grande astro do rock que a indústria cultural produziu. Surgiu na década de 50 e não parou de virar notícia até a sua morte, gordo, bêbado e viciado em anfetaminas, em 16 de agosto de 1977. Ao contrário do Beatles, que acabaram no auge, foi consumido pela indústria e virou uma caricatura de si próprio.

A sua aparição, em 1971, ironicamente a mais icônica e imitada até hoje, ao vivo em Las Vegas, com uma roupa prateada bisonha, papos enormes e uma cintura em forma de porpetas, é umas das imagens mais caricatas e tristes da música pop. Elvis sobreviveu a isso e é, até hoje, uma das maiores e mais perfeitas representações da cafonice americana. A sua mais completa tradução.

Mas o fato é que foi, sem sombra de dúvidas, um grande artista. Com uma voz única e afinadíssima, transitou por várias fases, desde o rock and roll da década de 50 até as suas versões incríveis para baladas românticas como a linda “Bridge Over Trouble Water”, de Paul Simon e, é claro, o hino informal republicano “My Way”.

Elvis sempre se cercou de grandes músicos, que o seguiram durante toda a carreira. A sua banda, com o nome de Blue Moon Boys, contava com o guitarrista Scotty Moore, morto em 2016, o baixista Bill Black e o baterista D.J. Fontana. Uma cozinha cultuada por músicos e críticos, digna do talento do seu band leader.

Nesta quarta-feira (16), faz quarenta anos que Elvis se foi. Homenagens mundo afora deixam claro a sua importância e influência, que persiste, apesar do abismo que há entre o seu modus operandi e o que se faz hoje no mercado da música pop.

Elvis ajudou a inventar o que temos e ouvimos hoje. Para o bem e para o mal. Seguido pelos Beatles, Rolling Stones e uma miríade enorme de astros, foi o pioneiro a se apossar e embranquecer a vigorosa música dos negros, domesticando-a e fazendo milhões com isso, tanto para si próprio quanto para a indústria.

Photo by Michael Ochs Archives/Getty Images



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