Não vamos nos calar: basta de violência nas escolas!

Há anos, a APEOESP denuncia a crescente violência de estudantes contra professores. Por Maria Izabel Azevedo Noronha* A agressão de um estudante de 15...

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Há anos, a APEOESP denuncia a crescente violência de estudantes contra professores.

Por Maria Izabel Azevedo Noronha*

A agressão de um estudante de 15 anos contra a professora Marcia Friggi, em plena sala da diretoria de uma escola pública em Santa Catarina, atingiu não apenas todas as professoras e os professores, mas feriu profundamente a consciência de todos os cidadãos e cidadãs que compreendem a importância da educação para a construção de um futuro melhor para o nosso país.

Há anos a APEOESP, assim como a CNTE e os sindicatos de trabalhadores em educação, denuncia que a violência de estudantes contra professores vem crescendo a níveis alarmantes. A tal ponto que a segurança nas escolas passou a ser a principal preocupação da comunidade escolar, de acordo com pesquisa realizada pela CNTE, em parceria com a APEOESP, em 2014, por meio do Instituto Data Popular, na qual foram ouvidos professores, pais e estudantes. Nesta pesquisa, 72% dos entrevistados disseram considerar a escola um local violento.

Esta pesquisa nacional mostra que 35% de toda a comunidade já presenciou agressões físicas dentro das escolas e que 40% já assistiram a ocorrências de agressões verbais. Outra pesquisa, de âmbito estadual, realizada pela APEOESP também por meio do Instituto Data Popular, em 2013, demonstra que 46% de professores e professoras haviam sofrido algum tipo de agressão dentro do espaço escolar.

O chocante caso da professora Marcia Friggi vem somar-se a tantos outros que ocorrem no cotidiano de nossas escolas, a maior parte deles jamais revelada para além dos muros escolares ou das salas de aula. Desrespeito, indisciplina, bullying, ameaças, são parte do dia a dia do magistério paulista e brasileiro.

O mais desesperador é que não vemos, por parte dos governos de uma forma geral, atitudes e políticas que contribuam para minimizar essa situação. Muito pelo contrário. Em São Paulo, em determinado momento conseguimos sensibilizar o governo do Estado para a gravidade da situação e, em resposta, foi criada a figura do Professor Mediador Escolar e Comunitário.

Como muitas outras políticas, entretanto, esta também foi vitimada pela compulsão dos governos do PSDB pelo corte de gastos e “racionalização” de despesas, que joga a educação e seus problemas sempre para segundo plano. Grande número de professores mediadores foram desligados desta função tão importante e o próprio programa foi reduzido no início de 2017. Um absurdo que levou a APEOESP a recorrer à Justiça para que fosse mantido o programa nas dimensões anteriores. Remetido ao Ministério Público Estadual, obteve parecer favorável, inclusive à emissão de liminar. O próprio Ministério Público também ajuizou ação contra o Estado para que seja revista a redução do programa.

Nós, professoras e professores, não vamos desistir do magistério. Não vamos desistir de lutar para tornar este país uma nação digna e justa por intermédio da educação pública, gratuita, laica, inclusiva, de qualidade para os filhos e filhas da classe trabalhadora. E este sentimento está expresso nas palavras da professora Marcia Friggi, quando diz “Acertaram meu olho, mas não vão me calar”. E, apesar de toda a dor, imediatamente denuncia: “Exerço uma das profissões mais dignas do mundo, por um salário miserável”.

Não temos, mesmo, o direito de nos calar. Dos governos o que queremos é que garantam as condições para o exercício da nossa profissão. Não queremos polícia nas escolas, isto não resolve o problema. Queremos, sim, escolas adequadas, com projeto arquitetônico, equipamentos e projeto político pedagógico que as tornem locais convidativos às crianças e jovens estudantes.

Queremos uma gestão democrática que assegure a participação dos professores, dos pais, dos funcionários e que incorpore a participação desses jovens, por meio dos grêmios, para que considerem a escola um espaço essencial para suas vidas.

Queremos a valorização do magistério, condições de trabalho e salários dignos. E liberdade para ensinar e aprender, como está inscrito na Constituição Federal.

Reduzir a violência nas escolas requer diálogo, respeito e profissionais capacitados em número suficiente. Queremos mais professores mediadores, mais funcionários (que, formados para tal, são também educadores) e o fim da terceirização desmedida nas nossas escolas.

Também sentimos a dor da professora Marcia, como sentimos a dor de todos os professores e professoras que vem sendo agredidos ao longo do tempo. Não vamos nos calar. Basta de violência nas escolas!

* Maria Izabel Azevedo Noronha é presidenta da APEOESP – Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de SP
Fotos: Reprodução/Internet



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