“Caravanas”, um disco lindo de um Chico Buarque em plena forma

É, realmente, um assombro que um artista com a idade e o prestígio de Chico Buarque ainda tenha tanta fome de bola.

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É, realmente, um assombro que um artista com a idade e o prestígio de Chico Buarque ainda tenha tanta fome de bola.

Por Julinho Bittencourt

Finalmente o disco “Caravanas”, de Chico Buarque, chega ao público, tanto em plataformas digitais quanto em lojas físicas (para quem for capaz de encontrar alguma). Antes de falar sobre o disco em si que, de fato, supera todas as expectativas que já não são poucas quando se trata de Chico Buarque, lembramos Wilson das Neves, que não o gravou, pois já estava doente e veio a falecer neste domingo (27), uma semana depois do seu lançamento.

Posto isto, vamos ao disco. É, realmente, um assombro que um artista com a idade e o prestígio de Chico Buarque ainda tenha tanta fome de bola. O disco, um tanto curto – e este talvez seja o único reparo que se possa fazer – é composto por nove canções, sendo sete inéditas.

A primeira a ser divulgada e que abre o disco é “Tua Cantiga”, um lundu acusado injustamente de ser tanto repetitivo quanto machista, bateu na rede e estrondou em sucesso e polêmicas.

Logo a seguir, em “Blues pra Bia”, Chico se dispõe a outra quizomba, desta vez com uma linda canção de um garoto que se declara a uma menina que gosta de meninas:

“Que no coração de Bia
Meninos não têm lugar
Porém nada me amofina
Até posso virar menina
Pra ela me namorar”.

“Moça do Sonho” é uma das não inéditas. Composta com Edu Lobo para o musical “Cambaio”, a linda canção ganha um arranjo novo e enxuto, com o belo violão do maestro Luiz Cláudio Ramos e o violoncelo de Hugo Pilger. Com um grande lirismo, Chico deixa transparecer cada vez mais um espaço onírico, que se apresenta nas mais diversas situações.

A inusitada e linda “Jogo de Bola” retorna ao futebol, tema recorrente que Chico desta vez compõe feito um garoto que narra ou joga um jogo imaginário. A seguir, inaugura parceria com o neto Chico Brown e dispara a linda valsa “Massarandupió”, uma das mais belas surpresas do disco:

“No mundaréu de areia à beira-mar
De Massarandupió
Em volta da massaranduba-mor
De Massarandupió”

Antenado até a tampa com tudo o que se passa ao redor, o vô Ico regrava a inesquecível “Dueto”, desta vez com a neta Clara Buarque. A canção ganha um verso maroto que os dois revezam, citando várias redes sociais: “Consta no Google, no Twitter, no Face, no Tinder, no Whatsapp, no Instagram, no Email, no Snapchat, no Orkut, no Instagram”. Impagável é o sotaque carregado ao pronunciar as redes e o riso contido de Chico no final.

“Casualmente” é a terceira parceria de Chico com o baixista Jorge Helder. Muito mais fluida do que as anteriores, “Bolero blues” e “Rubato”, esta nova é um bolero feito para a cantora cubana Omara Portuondo, que acabou não gravando a canção. Uma linda melodia repleta de referências à Havana e traz o clima dos antigos boleros.

A seguir vem outra canção de amor de Chico. “Desaforos” responde à uma suposta mulher que estaria falando mal do compositor imaginário, “apenas um mulato que toca boleros”:

“Fico admirado por incomodar-te assim Nunca pensei que pensasses em mim”

O disco encerra com a sua obra-prima. A canção título “Caravanas” tem outra letra imaginária, onde a interlocutora alterna momentos de ódio, racismo com um indisfarçável desejo sexual pelas indesejáveis caravanas de favelados que invadem as praias da Zona Sul do Rio de Janeiro. A melodia, baseada no famoso tema “Caravan”, de Duke Elington, conta ainda com a participação de Rafael Mike no Beat-box:

“Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré”.



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