Invisibilidade lésbica: uma violência silenciosa

Em meio a tantas dinâmicas de opressão e privilégio, faço uso deste espaço para, num essencialismo estratégico, ser apenas mais um eco em meio a tantas vozes silenciadas. Abaixo toda forma de opressão, todo racismo, classismo e LGBTfobia. Viva a resistência sapatão!

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Em meio a tantas dinâmicas de opressão e privilégio, faço uso deste espaço para, num essencialismo estratégico, ser apenas mais um eco em meio a tantas vozes silenciadas. Abaixo toda forma de opressão, todo racismo, classismo e LGBTfobia. Viva a resistência sapatão!

Por Láris Vasques*   

A existência de um dia nacional para visibilidade lésbica nos conduz a algumas incômodas, porém necessárias, constatações. A mais imediata delas diz respeito ao próprio cenário que torna essa data de mobilizações urgente. Quando clamamos por visibilidade, este é um sinal óbvio de que nossas demandas, individuais e coletivas, têm pouco ou quase nenhum espaço no jogo político. Infelizmente, as teias que tecem esse drama são diversas e todas muito bem conectadas.

Nosso país lidera o ranking mundial de violências perpetradas contra a população LGBT. Somos representadas na primeira letra do movimento social e político que luta pelo fim disso, mas ainda estamos às margens dessa discussão. Nossa ‘letra’ apresenta os menores índices de LGBTfobia, mas longe de sinalizar algum tipo de privilégio ou avanço, a subnotificação desses dados é apenas mais um sintoma de nossa invisibilidade. Porque nos é negada a possibilidade de existir, porque somos invisibilizadas no plano real e simbólico, vemos apagadas nossas demandas e violações, como se não existissem. Isso é invisibilidade.

A potência cruel dessa coisa abstrata e silenciosa que nos atinge, a invisibilidade, perpassa toda nossa experiência: das violências que sofremos cotidianamente à negação simbólica da existência de uma relação afetivo-sexual entre mulheres. Nas entrelinhas do questionamento de “como é o sexo entre lésbicas?” não mora apenas uma curiosidade marcada pela incidência do padrão heteronormativo, pois no imaginário coletivo, e no terror anal de nossos xingamentos, ninguém tem dúvidas de como se dá uma relação sexual entre dois homens.

Essa indagação corriqueira, que atravessa o cotidiano das lésbicas, sinaliza efeitos perversos dessa invisibilidade, pois a maioria dos profissionais de saúde ignora ou desconhece os meios de contágio ou transmissão de doenças sexualmente transmissíveis entre mulheres. Nossas políticas públicas de saúde sexual, reconhecidas mundialmente, ignoram as nossas necessidades de prevenção.

Na medida em que vemos nossas relações afetivas sendo negadas, quando temos a nossa sexualidade estampada, somos colocadas como objeto de fetiche dos homens, num gozo que não nos inclui e nem nos apraz. Enquanto isso, continuamos sendo expulsas de casa e de outros espaços, seguimos sofrendo estupros corretivos e sendo sub-representadas nos espaços de poder. Isso é invisibilidade.

Falando em invisibilidade, semana passada eu quase me apaguei. Visando a uma seleção como docente de psicologia, ao editar meu currículo, titubeei colocar ou não minha experiência com saúde mental LGBT, por medo de não ser contratada. No fim das contas coloquei. Sei que, infelizmente, esse é um “luxo” que nem todas podem assumir. Resolvi colocar naquele papel, nesse e em todos os outros, reais e simbólicos, aquilo que não pode ser apagado, aquilo que faz parte da minha existência e devir.

A invisibilização apaga nossas histórias e as possibilidades de que sejamos sujeitas na história. Lutamos e resistimos para que nossas vozes ecoem, para que nossas demandas e violações sejam vistas. O dia da visibilidade lésbica deve ser celebrado como uma via para que busquemos protagonizar a nossa história. Em meio a tantas dinâmicas de opressão e privilégio, faço uso deste espaço para, num essencialismo estratégico, ser apenas mais um eco em meio a tantas vozes silenciadas. Abaixo toda forma de opressão, todo racismo, classismo e LGBTfobia. Viva a resistência sapatão!

*Láris Vasques é sapatão, membra da comissão especial LGBT do Conselho Regional de Psicologia (CRP-01) e atua como psicóloga do Centro de Referência em Direitos Humanos do Distrito Federal (CRDH/DF).

Foto: Agência Brasil



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