Celso Athayde: “Queremos o poder porque somos maioria”

Um dos articulares do Partido Frente Favela Brasil quer que os moradores de comunidades, em sua maioria negros, tenham a possibilidade de olhar para a política de uma outra forma, se sentindo representados por ela.

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Um dos articulares do Partido Frente Favela Brasil quer que os moradores de comunidades, em sua maioria negros, tenham a possibilidade de olhar para a política de uma outra forma, se sentindo representados por ela.

Por Lucas Vasques

Em meio ao verdadeiro caldeirão político no país, surge mais um partido: a Frente Favela Brasil. Seus representantes estiveram em Brasília nesta quarta (30), com o objetivo de registrar a legenda no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Agora, terão dois meses para conseguir 487 mil assinaturas e, então, viabilizar sua participação nas próximas eleições de 2018.

Embora não seja filiado, Celso Athayde emprestou sua credibilidade para ser tornar um dos principais articuladores da legenda. Sua trajetória o credencia para a tarefa. Nascido na Baixada Fluminense, negro e pobre, chegou a morar seis anos embaixo de um viaduto no Rio de Janeiro, vendendo balas quando era criança.

Entretanto, sua luta o levou a progredir na vida. Hoje, além de empresário (é presidente da Favela Holding), é um respeitado ativista nas comunidades e um dos protagonistas do movimento negro. Autodidata, é autor de três livros e coautor de Falcão – Mulheres do Tráfico, Falcão – Meninos do Tráfico e Cabeça de Porco, sendo os dois primeiros com MV Bill e o último com o sociólogo Luiz Eduardo Soares. É fundador da Central Única das Favelas (CUFA), a maior organização não governamental no Brasil, com foco nas comunidades.

Em relação ao Partido Frente Favela Brasil, Athayde define: “Se eu fosse obrigado a dizer agora o que somos, eu diria que somos um partido “pós-ideológico”, de vocação popular e com um viés democrático, que se dedica a produzir os meios para que o estado brasileiro reconheça a falta de negros e moradores das favelas e periferias nos espaços de poder e nas esferas de representação política”.

Fórum – O que é o Partido Frente Favela Brasil?

Celso Athayde – É a necessidade de fazer os moradores de favelas, em sua maioria negros, terem a possibilidade de olhar para a política de uma outra forma: se vendo dentro da política, além de e se sentirem representados por ela.

Fórum – O que pretendem seus representantes?

Celso Athayde – Pretendemos construir uma plataforma em que negros e favelados não somente votem, mas sejam votados.  Temos 78 milhões de negros aptos a votar no Brasil e não achamos que isso faça sentido. Os partidos todos nos reconhecem como negros. Por isso, têm setores de negros. Existem diferentes tipos de modelos de gestão, inclusive modelos negros. Sempre foi. A diferença é que agora não vamos pedir cotas e nem reclamar, vamos apenas organizar e seguir nosso baile.

Fórum – Como nasceu esse movimento até amadurecer e se transformar em partido? O impeachment da presidenta Dilma Rousseff deu o start?

Celso Athayde – O movimento começou há muitos anos, de muitas formas. A cada dia que passa o país sucumbe mais e mais, e a corda arrebenta no lado mais fraco. E sabemos qual é esse lado.  Porém, o estalo foi dado na véspera da votação do impeachment, quando o Brasil via Dilma e Lula discutindo com as bancadas assuntos que até hoje não sabemos, e também o Aécio com Temer. Ou seja, as mais diversas bancadas influenciaram naquela votação e os negros não estavam lá representando seu coletivo. Talvez alguém ache isso um absurdo, mas é bom lembrar que os partidos têm cotas para negros. O PMDB tem a ala afro, o PSDB tem o Tucanafro, assim como todos os outros.  Eu não sou contra isso, acho que os negros devem estar em todos os espaços. Por outro lado, isso prova que os negros são vistos nos partidos e na sociedade como negros, como diferentes. Seguindo essa lógica, não há contradição em criar o partido dos diferentes.

Fórum – Você já declarou que a ideia do partido não é cobrar direitos e, sim, ter poder. É isso mesmo?

Celso Athayde – Eu afirmo que não estamos criando um partido de pedintes, que não vamos lutar para ter direitos, mas queremos o poder porque somos maioria. Temos 78 milhões de eleitores negros e pardos.  Mas não é o poder pelo poder, mas o poder pela possibilidade de mudar em escala a vida dos que os partidos e campos não conseguiram dar resposta até hoje.

Fórum – O objetivo é inverter a lógica de poder em relação aos brancos?

Celso Athayde Nunca foi e nunca será. Não há espaço para esse tipo de pensamento no movimento. Os brancos fazem parte do nosso partido desde o primeiro dia. Existem negros casados com brancas e brancos casados com negras. Não estamos debatendo as relações afetivas e raciais, estamos debatendo representatividade. Você deve casar com quem ama, mas não pode aceitar que seu irmão tenha menos direito do que seu marido branco, por exemplo. Da mesma maneira que os partidos deixam os negros se representarem nas repartições criadas para eles, é natural que aqui os favelados, negros e brancos estejam juntos. Existe o partido da mulher e entendo que a mulher seja a voz dele, partido cristão. Eu acho coerente que os pastores sejam os líderes do PRB e não os candomblecistas. Os brancos são bem-vindos e no nosso quadro temos muitos.  Mas eles mesmos entendem que é legítimo estarem aqui para contribuir com nosso avanço e, por consequência, com a igualdade de oportunidades para então discutir a meritocracia.

Fórum – Quais as principais pautas que estão na agenda do partido?

Celso Athayde – A inclusão da favela e do favelado no poder institucional. A apropriação da política por essas pessoas. Na verdade, quando você ler o IBGE, vai perceber o quanto os negros e moradoras de favelas estão em desvantagem. Daí a pauta não fica restrita a linhas, mas as mais diversas demandas que surgem todos os dias nesse país chamado favela.

Fórum – Em sua opinião, qual o potencial de crescimento e atuação da legenda?

Celso Athayde – Hoje (quarta, 30), entramos com o pedido de 28 diretórios. O nacional, o do Distrito Federal e dos 26 estados. Nunca antes algum partido conseguiu esse feito. Seremos o maior partido do Brasil. Nosso partido tem o ativo que os outros não tem em sua raiz. O compromisso histórico e territorial com a verdade, lealdade e solidariedade.

Fórum – O panorama político atual desgastado pode favorecer o crescimento do partido?

Celso Athayde – Esse partido é formado por pessoas que não fazem parte da política e não querem viver subordinados a esse modelo sem interferir nele diretamente.  Enquanto a favela diz que odeia a política, os políticos vão criando seus impérios da forma que está estampada nas páginas policiais. Infelizmente.

Fórum – Quais os critérios do partido para sua militância? É necessário estar engajado nas causas sociais preconizadas por suas lideranças?

Celso Athayde – O partido é feito por voluntários. Eu, por exemplo, não sou fundador, não tenho cargo e sequer vou me filiar.  Simplesmente porque sou empresário e não acho que a minha atividade seja compatível com política. Também porque não tenho vocação.  No fundo, somos um movimento que defende uma causa. E para essa causa ser resolvida precisamos estar na mesa que decide e, naturalmente, sentar na mesa que decide. Queremos ser reconhecidos como um movimento social que tem um braço na política.

Fórum – Qual é a participação da mulher dentro dos quadros do partido, em termos de porcentagem?

Celso Athayde – A mulher tem 50% em todos os cargos. Nenhum homem responde sozinho no partido. Nas presidências funcionamos sempre como copresidente e a copresidenta. É uma forma que decidimos de não manter a paridade na prática. Também está no estatuto que 50% das candidaturas serão de mulheres.  Se considerar que os jovens também são o motor do partido, com 50% dos cargos para pessoas até 35 anos, então estamos dizendo que as mulheres com mandatos serão negras e jovens. Isso é revolução.

Fórum – A militância atua de graça e quem for eleito será obrigado a doar 50% do salário para um fundo. Como será aproveitado esse dinheiro?

Celso Athayde – Não existe obrigação, eu não quero ser voluntário de um partido que enche o bolso de político.  Se o partido é para voluntários, todos precisam seguir essa regra, os nossos representantes também. Entendemos que a atividade parlamentar deve ser voluntária, e quem assinar o termo de voluntariado (filiação), concordará com essa condição. Criamos a Fundação Zumdara (alusão a Zumbi e Dandara).  Os recursos vindos dessas doações serão devolvidos para a sociedade através de editais, quando iremos viabilizar projetos sociais e de reparação étnica pelo Brasil. Desde que esses projetos não sejam ligados a ninguém do partido.

Fórum – Você se colocou como sendo nem de esquerda e nem de direita e, sim, preto. Esse conceito se estende ao partido?

Celso Athayde – É impressionante a necessidade que todo mundo de fora da favela tem para saber se somos de direita ou de esquerda. De direita é lógico que não somos por todas as pautas que ela tem.  Por outro lado, não queremos viver essa ilusão de que esses Fla-Flus são verdadeiros, porque tem muito de blefe ideológico. A favela está de olho nas eleições, é uma guerra ideológica e no primeiro turno os eleitores entram nessa guerra assumindo seu lado, e no segundo turno eles vão para os mesmos palanques em troca de secretarias. Pois é, a ideologia e os campos ficam para os torcedores.  Só para citar um exemplo. Mas se eu fosse obrigado a dizer agora o que somos, eu diria que somos um partido “pós-ideológico”, de vocação popular e com um viés democrático, que se dedica a produzir os meios para que o estado brasileiro reconheça a falta de negros e moradores das favelas e periferias nos espaços de poder e nas esferas de representação política. A ideia de direita e esquerda, forjada na organização industrial, gerou espaços opacos onde segregou os negros. Sei que vão discordar, mas nós estamos por nossa conta. O Frente Favela Brasil vai dar sentido a este espaço como um lugar de invenção social, política e econômica. Esta é a base conceitual programática do nosso partido. Mas não quero deixar de reconhecer os avanços que a esquerda proporcionou. Tanto é verdade que os negros sempre estiveram mais próximos desse lugar.

Foto: Divulgação



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