Para colunista da Folha, mulheres que rebatem machismo e até assédio são “respondonas”

“Mulheres respondonas: a nova onda do showbiz brasileiro”. Este é o título do novo artigo de Tony Góes em que tenta enaltecer mulheres do meio artístico que estão, cada vez mais, unidas por direitos...

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“Mulheres respondonas: a nova onda do showbiz brasileiro”. Este é o título do novo artigo de Tony Góes em que tenta enaltecer mulheres do meio artístico que estão, cada vez mais, unidas por direitos e respeito. Ao classificar este tipo de empoderamento como uma “onda” e as definir como “respondonas”, no entanto, colunista apela para o mesmo machismo que essas mulheres tentam combater 

Por Redação 

Parte da imprensa brasileira, muitas vezes até com boas intenções, parece ter ainda alguma dificuldade de interpretar ou classificar a luta das mulheres por direitos e respeito e acaba apelando para o mesmo machismo que essas mulheres tentam combater. Já há algum tempo que muitas mulheres não aceitam mais ficar caladas diante de opressões e aquela que se aventurar a deixar de lado seu papel de submissa em uma sociedade patriarcal, é taxada de “louca”, “intolerante”, “feminazi”, entre outros apelidos pejorativos. Apelidos que, provavelmente, não seriam utilizados para se referir a um homem que tivesse atitudes parecidas.

Quem não se lembra da maneira como a mídia tradicional brasileira se referia à Dilma Rousseff, primeira mulher presidenta da República da história do país? Se ficava nervosa, Dilma havia tido “explosões nervosas”. Se tomava uma decisão em detrimento da opinião de outros homens, era “intolerante”. Termos como esses jamais foram utilizados para se referir a presidentes homens em situações parecidas.

Em artigo publicado nesta segunda-feira (4), Tony Goes até tenta enaltecer as mulheres que não ficam mais caladas mas, para isso, acaba apelando para o machismo. No texto, intitulado “Mulheres respondonas: a nova onda do showbiz brasileiro”, o colunista cita os casos da cantora Anitta, que respondeu a um vereador que sugeriu que ela fosse garota de programa e a chamou de “vagabunda de quinta”, e outros casos como o da apresentadora Fernanda Lima, que teceu críticas ao machismo de Silvio Santos ou ainda de atrizes que entraram em uma campanha contra o assédio sexual após vir à tona o caso do “ejaculador” do ônibus.

Todas essas situações expostas pelo colunista se referem à mulheres reagindo a machismo e assédio. Ao classificar essas atitudes como uma “onda”, Goes reduz uma luta que foi calada por anos a uma “moda” ou algo passageiro. Ao menos é o que fica implícito no termo. Mais do que isso, reproduz o machismo criticado por essas mulheres ao utilizar o termo pejorativo “respondonas”. Será que utilizaria termo “respondão” para se referir homens mobilizados em torno de uma causa?

A armadilha machista em que o texto está calcado fica ainda mais clara no trecho em que o colunista chama o vereador que criticou Anitta de “vítima” das “respondonas”. Isso quer dizer que a vítima não é Anitta, alvo das ofensas, mas sim o vereador, que teve que ouvir a resposta da cantora?

As intenções do colunista, pelo teor do texto, devem ter sido das melhores – e de boas intenções o mundo está cheio. Mas não se combate machismo com mais machismo.



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