Rogéria: a travesti da família brasileira que enfrentou a ditadura militar

Atriz e cantora morreu aos 74 anos, na noite desta segunda-feira (4), em decorrência de uma infecção generalizada. Seu legado é o que fica. Por Bruno Santana...

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Atriz e cantora morreu aos 74 anos, na noite desta segunda-feira (4), em decorrência de uma infecção generalizada. Seu legado é o que fica.

Por Bruno Santana

Uma trans(gressora) desde que surgiu, mesmo que sem saber. Rogéria – ou Astolfo Pinto, com quem dividia a existência – se lançou no mundo da arte em 1964. Que ano mais propício para isso, não? Em pleno golpe que levou os militares ao poder no Brasil, surgia o primeiro espetáculo nacional com transexuais, Le Girls.

Em tempos onde a censura e a perseguição política assombravam a classe artística, Rogéria resistiu e conquistou, em 1979, o Troféu Mambembe – um antigo prêmio criado pelo Ministério da Cultura, em 1977. “Olha para mim. Eu lá era um perigo para a ditadura? Não, querida. Já era gay, me vestia de mulher, e ainda ia me meter em política? Não me interessava”, falou em entrevista ao El País, em janeiro deste ano.

Contou ainda sobre os tempos em que brilhava no palco do Teatro Rival, no centro do Rio de Janeiro. “Nos anos de chumbo, não tinha estrela, não tinha vedete, nada… Todo mundo fugiu. Nós, homossexuais, levantamos o show business naquela época. E as pessoas gostavam da gente”. Era a mãe de Rogéria quem bordava seus vestidos e seu namorado acompanhava suas apresentações.

Por outro lado, nem tudo são flores. “É muito difícil lidar com o preconceito, enfrentei a minha vida toda e enfrento até hoje. Assisto pela televisão o que minhas colegas transexuais, meus amigos gays, que me representam, passam por aí. É uma violência muito triste”, lamentou ao antigo site Ego, da Globo, em homenagem que recebeu no mesmo Teatro Rival, em setembro de 2016.

“Costumo dizer que na minha época travesti batia nos homofóbicos. Sempre que vinha um mais abusado a gente chamava todos os travestis e partia pra cima. Eu gritava: ‘Deixa o último pra mim’, e quebrei muita unha na cara de preconceituosos”, contava. “Acontece que hoje os tais ‘skinheads’ andam com facas, com madeiras, e até com lâmpadas né? Ficou mais difícil a luta”, considerou Rogéria.

Foi quando passou a encarnar a Rogéria todos os dias, que experimentou a reação do público. “As pessoas tocavam em mim e diziam ‘ela é de carne mesmo!”, contou na entrevista ao El País. Agora, um título que a enchia de orgulho era a de “travesti da família brasileira”, criado por ela mesma. “Eu ando pelas ruas do Leme, e as senhorinhas me param para dizer ‘você nunca fez um escândalo… você se comporta’. Isso vem de pequena. Sempre respeitei minha mãe, minha professora, e ainda cuidava de criança”, dizia.

Ainda me lembro quando, em 2010, participei da produção da Encenação da Fundação da Vila de São Vicente. Foi neste ano em que Rogéria brilhou, também, no maior teatro em areia de praia do mundo, sendo a personificação da Europa – sim, ela representou um continente. Já na coletiva de imprensa que antecedeu alguns dias do espetáculo, esbanjava toda simpatia, quando deu um selinho em um dos “câmeras” que estavam ali cobrindo o evento e que havia pedido uma foto junto com ela.

Na peça, que era encenada durante uma semana para contar a fundação da primeira vila do Brasil, a artista roubava a cena ao surgir em cima de uma alegoria, com figurino e glamour dignos de seu brilho. Colocando os mais sinceros sorrisos no rosto do público e arrancando aplausos de toda a arena.

Há um ano foi lançada a sua biografia, Rogéria: Uma mulher e mais um pouco (Sextante, 2016). Nela, o autor Marcio Paschoal nos leva a acompanhar relatos que vão desde causos sexuais até experiências com drogas. “Já não aguentava mais as pessoas me pararem na rua e me perguntarem quando eu faria uma biografia”, disse aO Globo, em outubro de 2016. Revelando ainda, na época, que não impôs quaisquer condições ao biógrafo e apenas combinou que leria o livro “depois de pronto e encerrado”. Recentemente, também fez parte do documentário Divinas Divas, de Leandra Leal. Filme que conta a história da primeira geração de travestis do Brasil. Vale muito a pena assistir.

Seu legado e sua originalidade são o que ficam. Que continue brilhando nos palcos da eternidade, Rogéria.

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Foto: Divulgação e Vitrine Filmes/Divulgação



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