Assédio no ônibus: Divulgar contribui para a reflexão e o combate a esses crimes

A maioria dos leitores da Fórum, além da blogueira Clara Averbuck e da diretora da organização Artemis, Ilka Teodoro, acreditam que a publicação dos casos de abuso sexual em transportes públicos encoraja as mulheres...

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A maioria dos leitores da Fórum, além da blogueira Clara Averbuck e da diretora da organização Artemis, Ilka Teodoro, acreditam que a publicação dos casos de abuso sexual em transportes públicos encoraja as mulheres a denunciar

Por Lucas Vasques

É preciso divulgar os casos de abuso e violência sexual que ocorrem dentro dos transportes públicos no Brasil. A informação é fundamental para que as pessoas tomem consciência de que essas atitudes são crimes e consideradas estupro pela lei brasileira. A divulgação não incentiva a prática, mas estimula a denúncia. O que incentiva o crime é a impunidade. Essa é a opinião da maioria dos leitores da Fórum, que aceitaram o desafio e responderam a questão: divulgar contribui para o combate ou incentiva a prática dos abusos sexuais?

Clara Averbuck, escritora, ativista pelas causas feministas e blogueira da Fórum, e Ilka Teodoro, diretora da Artemis, organização que luta pela prevenção e erradicação de todas as formas de violência contra as mulheres, defendem a mesma posição. “Não tem como ignorar essas coisas que acontecem. Quanto mais casos ocorrerem e forem publicados, mais mulheres terão coragem de falar”, analisa Clara.

Para ela, o que aumenta os casos não é a publicação deles mas, sim, a certeza da impunidade e da ineficiência do sistema. “Não falo em punições mais duras, como castração ou outro tipo de retaliação. É claro que deve haver punição para crimes sexuais, mas o que deve ser repensado é a estrutura que leva um homem a tratar o corpo da mulher dessa forma. É uma longa discussão, que passa por nossa cultura, pela maneira que educamos nossos meninos, pelo sistema de leis e como elas são aplicadas. Tudo tem que ser repensado”, reflete Clara, que foi vítima de violência sexual duas vezes. A última, recentemente, quando sofreu abuso de um motorista da Uber.

Na opinião de Ilka Teodoro, o primeiro aspecto a ser analisado é que os casos de abuso sexual em transportes públicos não aumentaram nos últimos anos. “O que cresceu foi a notificação. As mulheres estão denunciando mais esses casos. Coisas que até então eram naturalizadas, hoje, em função do maior acesso à informação e ao conhecimento de que se trata de um crime, as mulheres estão tomando mais coragem de incriminar e denunciar os casos, o que provoca o aumento do número de notificações. Isso pode ser comprovado nos casos da Lei Maria da Penha. Conforme foram ampliadas as campanhas de divulgação da lei, aumentaram os casos de notificação de violência doméstica”, explica.

“Ilha prossegue dizendo que não se pode considerar a divulgação como publicidade negativa. “Na verdade, é uma publicidade de divulgação, que acaba empoderando, encorajando as mulheres a fazerem as denúncias. Sem contar que hoje a gente vive numa sociedade, na qual as notícias e as informações correm numa velocidade muito maior. Então, é mais fácil chegar ao alcance das pessoas, o que dá a falsa impressão de que os casos aumentaram e que algo mudou. Mas, não. A sociedade continua extremamente injusta com as mulheres, extremamente patriarcal, misógina. E isso ao longo dos séculos. Não é algo que seja recente. A violência contra as mulheres sempre aconteceu”, pontuou.

“A diferença é que hoje isso fica mais público, as mulheres denunciam mais, estão tomando consciência do que são seus direitos e, por isso, acabam se manifestando mais e utilizando mais esses veículos para denunciar. Em função disso, eu acho positiva a denúncia e a divulgação de todos esses casos para que a gente saiba que, de fato, isso é uma conduta que afeta as mulheres diariamente em todos os locais públicos e privados”, finalizou Ilka.

Opiniões dos leitores

“Eu acho que tem que divulgar sim, isso é levar informação a mais vítimas e informar que estamos conscientes que isso é um crime. A divulgação não incentiva a prática, mas incentiva a denúncia. Mais um caso não significa, necessariamente, que os casos aumentaram, mas pode significar que as denúncias aumentaram, ou seja, menos mulheres ficaram caladas. E homem tem medo disso: de que as mulheres falem! De que denunciem! De que sejam corajosas! Ninguém é superior a ninguém. Todos e todas devem ser respeitados de igual para igual.” (Viviane Aranha).

“Não é a divulgação que incentiva a prática, mas a ausência do Estado, no primeiro caso. O salvo conduto e as explicações do promotor, em rede nacional, no sentido de que havia prendido o maníaco do ônibus, apenas, porque havia segurado, violentamente, as coxas da vítima. Agora, será uma competição de destreza.” (Palas Atena).

“Tem que combater denunciando, não podemos calar. O que estimula os ejaculadores na sua prática é exatamente quando eles sabem que existe impunidade e conivência com o seu crime por parte das autoridades. A mídia é responsável também, quando só foca no criminoso e não em quem julga seus crimes.” (Didila Paiva).

“Acho que a divulgação incentiva a denúncia. Provavelmente, isso já acontece com frequência, mas muitas mulheres não denunciam por medo ou vergonha. Divulgar ajuda as vítimas a entenderem que não é culpa delas e que podem e devem denunciar.” (Luciana Teixeira Cardoso Pereira)

“Num primeiro momento, alerta, pois eu não sabia dessa infeliz prática. Para mim, é importante divulgar, pois a gente fica mais atenta, que nos nossos dias isso ainda aconteça, parece animal no cio, o lado selvagem e irracional que não pode controlar é isso, como na guerra a primeira coisa que os soldados fazem é sair estuprando as mulheres como bestas… bem não sou psiquiatra … não vejo como publicidade.” (Silvia Bailarina).

“Não é pela divulgação que outros casos ocorrem. Apenas chama a atenção para essas situações. Em um pequeno grupo de meus relacionamentos já foram relatados dois casos semelhantes.” (Cláudia Hartmann).

“Acredito que a divulgação faz com que esses atos chamem a atenção das pessoas, que muitas vezes acreditavam que ninguém seria preso ou sequer fosse crime. O que acho perigoso é dar detalhes de como alguns crimes são praticados, mas fora isso a divulgação é sim importante.” (Caroline Borba).

“Acredito que divulgar a prisão incentiva que vítimas denunciem casos semelhantes. Além disso, devido acontecimentos recentes, a mídia vem dando maior destaque a casos parecidos, o que talvez nos leve a uma falsa impressão de aumento do número de casos.” (Davi Guimarães).

“O que dá publicidade à prática é a impunidade. Já que o juiz considera que não é crime, dessa forma ele já “autorizou” os homens que quiserem, a fazerem o mesmo.” (La Vine).

“Divulgar combate a prática! Até porque isso sempre aconteceu, porém não era exposto, logo não era criminalizado!” (Danielle Santos).

“Graças ao juiz que disse que isso não é violência, não existe constrangimento. Liberar um abusador deixa clara a impunidade e isso sim estimula, mais e mais, tarados fazerem o mesmo, pois não existe punição severa”. (Thaissa Bueno Sanches).

“Divulgar abuso policial incentiva a prática? Divulgar o golpe de estado incentiva a prática? Divulgar racismo incentiva a prática? E divulgar a cultura do estupro? Problemas na próstata? Fala sério! E, cá entre nós. Não é divulgação, é denúncia.” (Leonardo Milano).

“Tem que falar sim, não fazer tabu.” (Francisco Baraglia).

“Temos que divulgar. As coisas já aconteciam. As vítimas estão denunciando”. (Dayse Carvalho).

“E isso já faz décadas que acontece. Muito bom vir à tona para que se tome providências!” (Rinalva Alves).

“Não incentiva, já é feito a torto e a direito com a conivência da justiça que libera estuprador”. (Allan Olliver).

“Virou moda. Acaba funcionando como divulgação, porque a punição inicial é bem menor que a gravidade do ato. Que divulguem os agressores sendo internados em clinicas psiquiátricas, quando forem”. (Amauri Perini).

“A notícia em si não faz uma coisa nem outra, mas a impunidade sim, então se tem notícia de impunidade a prática se propaga”. (Andrea Pereira Horne).

“Assim como o fato do número de denúncias partindo de mulheres abusadas ter crescido se relacionar diretamente com as ferramentas da Lei Maria da Penha; acredito que o número sempre existiu – nos abusos em geral – mas ficavam constrangidas ou intimidadas em denunciar. Com um desconhecido, em público, é muito humilhante, o pudor da situação emudece. Não deve ser assim, a população deve reagir, são nossas filhas, nossas mães e amigas, somos nós. Como li noutra reportagem, nos sites pornôs, esses vídeos de ‘encochamentos’ são muito partilhados. Sempre existiu e divulgar inibe. Agora, é necessário não apenas constrangimento público do autor, mas uma medida mais severa. A lei tem sido branda com os autores – principalmente os reincidentes.” (Natasha Mari).

“Por isso que não tem lei para esses tarados. Todos presenciam e ficam quietos, sendo coniventes. Tem que divulgar, caso contrário não vai parar nunca.” (Izilda Matos).

“O que incentiva a prática é a certeza da impunidade.” (Bali Aguiar).

“A impunidade é que propaga a prática. (Mayara Chaves).

“O que incentiva é a impunidade”. (George Ayres).

“Não punir o crime e não educar a população é o que incentiva”. (Patrick Lurentt).

“Já viram que não tem punição mesmo, vai virar bagunça agora.”(Peti Madripoor).

“Saber que tal atitude não vai dar em nada, incentiva.” (Sérgio Gilmar Schneider).

“Infelizmente isso ocorre. O incentivo! Mesmo que sejamos democráticos mostrando as coisas, nem sempre isso pode ter os efeitos esperados, pois a natureza humana é muito mais complexa para fazer um modelo. Como a exposição de alguns fatos piora a situação da violência. Em alguns países europeus, os programas que expunham a violência de ambos os lados entraram na lista de ações que diminuem a violência de ambos os lados! Eu não acho que a “onda” de assédio nos últimos dias é de pessoas influenciadas pela exposição do caso, mas, sim, da opinião dos editores e jornalistas de encontrarem os casos. Não e à toa que o processo que estava a ser julgado do mesmo homem do ônibus foi posto em modo acelerado e a decisão saiu de um dia para outro. (Haroldo Kennedy)”.

“Em tese a divulgação deveria servir para evitar o crime, mas por aqui essa tese passou a ser bastante “relativa”, considerando, v.g., o caso da professora que foi agredida; e depois achincalhada, ofendida e humilhada por pastores e políticos de extrema direita devido à sua ideologia. Mas enfim…só acho!” (Paulo Santos).

“Gente, não está acontecendo nenhuma publicidade. Os casos é que estão aparecendo. Isso acontece todo dia, sempre. Desde quando calar resolve?” (Ju Borges Silva).

“Depende, quando a divulgação inclui o fato de que a lei está protegendo esses criminosos e nada vai lhes acontecer pode incentivar sim, a culpa desse surto não é nem da imprensa e nem mesmo do primeiro a cometer, e sim do juiz que o absolveu.” (Talitta Simões).

“Faz publicidade só isso. Combatido? Só se no Brasil tivesse leis para coibir, como não tem… “(M. Lourdes Alencar).

“Será que vamos ter que pleitear ônibus só pra mulheres? Que nem os vagões do metrô?” (Eliz Mafra Alves).

“Ficou claro que incentiva a prática! O sujeito tem que ser preso sem alarde e pronto! “(Rodolfo Damasceno).

“O problema é a divulgação da impunidade, ou melhor, da não existência de criminalidade no ato!” (Nuria Palladino).

“É uma boa reflexão. Tem gente que pratica ilicitudes porque viu isso na mídia. É o famoso “copycat”. A pessoa sentiu-se impressionada pelo que viu e imitou. E sim, não são só jovens ou adolescentes nessa banda. Tem adulto que faz isso também. Agora, o tipo de conduta criminosa/desvirtuante seguirá acontecendo com ou sem a publicidade da pratica e o estímulo a discuti-la. Aliás, sem a publicidade e o debate é impossível combater eficaz e eficientemente essas condutas. Assim, acho que os benefícios superam os malefícios”. (Mateus Estevão Orban).

“Também me faço essa pergunta. Ou as pessoas passaram a denunciar (mais)”. (Deborah Deborah).

**Colaborou Bruno Santana



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