TV Cultura mais uma vez mexe com o programa “Manos e Minas”

A não revogação da demissão do produtor Zeca MCA representará um recado de que a TV pública do estado de São Paulo virou as costas para as culturas das periferias.

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A não revogação da demissão do produtor Zeca MCA representará um recado de que a TV pública do estado de São Paulo virou as costas para as culturas das periferias.

Por Joselicio Junior*

No último dia 4 de setembro a TV Cultura demitiu o produtor musical Zeca MCA, que estrutura e organiza o programa “Manos e Minas” desde o seu nascimento em 2008, quando deixou de ser apenas um quadro no programa “Metrópoles” para se tornar o principal programa da cultura hip hop e periférica.

Zeca foi desligado de forma arbitrária, após um pequeno desentendimento com outro funcionário, não foi garantido o amplo direito de defesa, nem mesmo o fato de compor a CIPA da empresa, o que lhe garantiria estabilidade, foi respeitado, o que reforça uma ideia de perseguição, não só ao Zeca, mas principalmente ao programa “Manos e Minas”.

O programa, que vai ao ar todos os sábados, às 19 horas, bate o pico de audiência da TV Cultura na programação adulta. E, hoje, é o único do gênero na TV aberta que traz na sua essência a valorização não só da cultura hip hop, mas de toda a cultura periférica.

A força do programa é tão grande que em 2010, quando assumiu a presidência da Fundação Padre Anchieta, João Sayad tirou o programa do ar, o que gerou uma revolta que culminou na campanha “Volta Manos e Minas”, liderada por Zeca e abraçada por diversas lideranças do movimento hip hop. A pressão foi tão grande que em menos de dois meses o programa já estava incorporado novamente à grade de programação. Em seu retorno, o primeiro convidado a se apresentar foi o Dexter, que abriu o programa com a música Oitavo Anjo, que diz assim: “Acharam, que eu estava derrotado,/Quem achou estava errado,/Eu voltei, to aqui, se liga só, escuta aí:/Ao contrário do que você queria, to firmão, to na correria”, simbolizando a força do movimento.

A demissão repentina de Zeca MCA causou grande revolta na equipe do programa. Segundo a apresentadora Roberta Estrela D’Alva, “Depois de tudo o que vem sendo construído em conjunto no programa nos últimos nove anos, e de tudo o que estava por vir graças ao que foi criado até aqui, essa demissão do Zeca significa uma intervenção abrupta no trabalho de uma equipe que está dando muito certo junta. Todos que nos acompanham sabem o quanto esse cara dá o sangue e representa “a alma” do programa. Foi ele quem me chamou pra estar lá, e se hoje existem poetas no programa, é graças a ele, que sacou a cena do slam e quis levar pro programa, antes de todo mundo. Estou bem triste, inconformada e realmente espero que a TV Cultura tenha dimensão do erro que está cometendo e que possa voltar atrás o quanto antes”.

A saída do produtor musical também gerou grande impacto no meio artístico-cultural. Após anunciar o seu desligamento da TV Cultura, através das redes sociais, na última segunda-feira, 11 de setembro, diversos artistas e produtores manifestaram apoio. Nas redes sociais, o criador e primeiro editor-chefe do “Manos Minas”, Ramiro Zwetsch, afirmou que “quando criamos o manoseminas, eu tinha muitas dúvidas, inseguranças, crises, dilemas, tretas. Foi um período muito estranho, de uma realização muito gratificante, mas também de muitas noites mal dormidas. Fiquei um aninho só, mas vi o programa se fortalecer com o passar dos anos e em 2018 ele completa uma década no ar. Sinto um orgulho enorme, acho que é mesmo uma arma importante de resistência cultural. E o Zeca foi o cara mais ativo nisso tudo: nas ideias, na continuidade do projeto e na amizade que se fortaleceu e foi fundamental para eu manter de pé com todos os perrengues que passamos em 2008 e depois. TV Cultura, eu tenho certeza: você vai se arrepender do erro que cometeu”.

Também manifestaram apoio Anelis Assumpção, cantora e ex-apresentadora, Max B.O., rapper e ex-apresentador, Marcão do grupo DMN, Fióti, músico e sócio da Lab Fantasma, Ully Costa do grupo Sandália de Prata, DJ Sleep, Dj Duh, Dj Nato Pk, Dj Dedé 3D, Dj Nyack, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Tati Botelho, Naruna Costa, atriz do grupo Clarianas.

Após uma jornada de nove anos, mais de 350 programas produzidos, Zeca declara: “Lamento muito a decisão, porque acho que ainda tinha muito o que fazer com o programa, pois é o único da TV aberta que retrata a periferia do jeito que ela é de verdade”. A gravação do programa, que seria feita nesta terça-feira (12), foi cancelada, um sinal real que o programa sofre o risco de ficar fora do ar.

O programa “Manos e Minas” é um nicho de resistência negra, periférica e popular na TV aberta, que sofre com o sucateamento da TV pública, provocada pelo governo do Estado. O programa se mantém pela grandeza e a força das culturas periféricas, pela base construída pelo movimento hip hop nas últimas décadas e, sobretudo, pela dedicação de trabalhadores que colocam a mão na massa, que acreditam na proposta e na essência. O tema abordado nesta coluna não se trata apenas de uma simples demissão, mas de um ataque à base estrutural de um dos mais importantes programas da TV aberta brasileira. A não revogação da decisão por parte da TV Cultura representará um recado de que a TV pública do estado de São Paulo virou as costas para as culturas das periferias.

*Joselicio Junior, mais conhecido como Juninho, é jornalista, presidente estadual do PSOL – SP e militante do Círculo Palmarino, entidade do movimento negro.

Foto: Reprodução/YouTube

 



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