Célio Turino: “O negócio da leniência”

A alternativa minimamente ética será cobrar o valor de uma única vez, porque assim não poderiam repassar para preço e o dinheiro teria que sair do capital dos controladores, de preferência com confisco de bens.

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A alternativa minimamente ética será cobrar o valor de uma única vez, porque assim não poderiam repassar para preço e o dinheiro teria que sair do capital dos controladores, de preferência com confisco de bens.

Por Célio Turino*

Resolvi fazer umas contas básicas para compreender o que pode estar por trás dos acordos de leniência fechados pelo MP, Justiça e empresas com gestão corrupta, que causaram grande dano ao país. Aparentemente, podem parecer grandes valores a serem recuperados, mas, se formos atentos e pararmos de nos guiar pela sociedade do espetáculo, vamos encontrar escândalos ainda maiores que os provocados pelas corrupções que deram origem a estes acordos. Apenas utilizando exemplos da J&F e Odebrecht. Aos números:

J&F – Leniência: R$ 10,3 bi, a serem pagos em 25 anos. Valor a ser pago por ano: R$ 400 milhões ou R$ 33 milhões/mês. Faturamento anual: R$ 170 bilhões. Percentual sobre o faturamento: 0,22%.

Odebrecht – Leniência: 3,280 bi, a serem pagos em 23 anos. Valor a ser pago por ano: R$ 142,6 milhões ou R$ 12 milhões/mês. Faturamento: R$ 107,7 bi. Percentual sobre o faturamento: 0,14%.

Para que as pessoas possam comparar, esses percentuais são inferiores ao que foi a alíquota máxima da CPMF, e que todos os brasileiros pagavam. Exatamente, estamos diante de um grande engodo, em que o valor da leniência é troco abaixo de zero. Mesmo que não seja agora, a história condenará mais este embuste. Pode até ser que todos os membros do MP, Judiciário, Imprensa etc, etc, povo, inclusive, tenham se distraído em meio à espetacularização e valores bilionários, bem como sejam muito ruins em matemática (O que é fato no Brasil inteiro, infelizmente), e por isso não tenham percebido o embuste. Mas, seguramente, alguém fez esta conta e ganhou muito, muito, dinheiro no mercado jurídico das leniências e delações premiadas (haja prêmio!), tanto que estamos vendo um procurador do MP bastante enroscado (terá sido só ele a fazer contas?).

Enquanto isso, o povo é tratado como otário, isso porque o povo se deixa ser tratado como otário, infelizmente, distraindo-se em ódios fúteis e brigando entre si.

Tem mais, estes valores serão embutidos nos preços dos produtos dessas empresas, ou seja, quem irá pagar esta multa será o próprio povo.

A alternativa minimamente ética será cobrar o valor de uma única vez (porque assim não poderiam repassar para preço e o dinheiro teria que sair do capital dos controladores), de preferência com CONFISCO de bens, e em valores que, de fato, pudessem ressarcir o dano, ao Estado, e também o dano coletivo, ao povo, que é muito maior que o valor apurado nessas leniências.

Mas, enfim, o brasileiro é um povo que não se revolta nunca, vivendo em uma falsa consciência, que o faz amar os opressores. Triste o destino de nossa nação, mergulhada em tanto ódio e ignorância!

Foto: Wikimedia Commons



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