Alemanha: Merkel fica e neonazistas devem voltar ao parlamento

Contexto político local abre caminho para que neonazistas voltem ao parlamento  Por Vinicius Sartorato*, colaborador da Rede Fórum de Jornalismo ...

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Contexto político local abre caminho para que neonazistas voltem ao parlamento 

Por Vinicius Sartorato*, colaborador da Rede Fórum de Jornalismo 

Há exatamente seis meses atrás, escrevia um texto que retratava o pior momento de Angela Merkel desde que tornou-se chanceler. Era março de 2017, ela estava para encontrar Donald Trump pela primeira vez, diante de um verdadeiro festival de críticas, principalmente sobre sua política migratória.

Naquele momento, dentre as várias questões, destacavam-se: 1) a possibilidade do fim da “Era Merkel”; 2) o retorno do Partido Social-Democrata (SPD) à chefia do Poder Executivo; e 3) a ascensão do neonazismo no país.

O tempo parece ter favorecido a líder alemã. Se naquele momento ela aparecia em segundo lugar nas pesquisas de opinião para um próximo mandato, agora, a menos de uma semana da eleição, seu partido CDU-CSU parece ter consolidado sua liderança com uma média de 37 pontos percentuais e uma vantagem de 13 pontos para o 2º colocado.

Mas o que justificaria essa recuperação? Dentre os fatores externos, a chanceler alemã comprou brigas com Trump, com o governo britânico, enfrentou a extrema-direita europeia e alinhou-se à direita neoliberal de Emmanuel Macron – fatores que a ajudaram a melhorar sua imagem no cenário político internacional.

Dentre os fatores internos, neutralizou seus opositores de direita e de esquerda, valendo-se do discurso pró-imigração, sendo este o seu maior desgaste nos últimos tempos. Com seus opositores neutralizados e sua imagem de líder européia, estável, forte e moderna garantida, parece ter retomado o controle da situação.

Por outro lado, o retorno – tão sonhado – do SPD à chefia do Poder Executivo, sob liderança do ex-Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, aparentemente foi um “vôo de galinha”. Mas por quê?

Inicialmente, a candidatura do “conhecido desconhecido” Schulz teve uma ascensão extraordinária, levando-o rapidamente ao primeiro lugar nas intenções de voto (fevereiro-abril), atingindo a expectativa de 33%, muito acima de sua média anual do partido de 24%. Schulz trouxe ânimo à militância de centro-esquerda, apresentou-se como um homem de origem humilde, carismático, que jogava futebol na juventude e que tem boas ligações com os sindicatos. Presente na mídia européia, teve dificuldades para desvencilhar a imagem de seu partido do governo que participa há anos; e dificuldades para tratar de questões nacionais, dado seu distanciamento nos últimos anos.

Eis que hoje o SPD de Schulz parece não encantar mais. Parece estar fadado ao papel de coadjuvante da última década. Apesar de na comparação com a eleição de 2013 ver o partido de Merkel em uma situação de desgaste maior, o SPD não conseguiu reverter o quadro e voltar ao sonho dos seus anos áureos (1969-1982 e 1998-2005), em que foi o partido hegemônico no país.

O terceiro aspecto deste texto poderia ser a análise do crescimento do extremismo político de esquerda e direita no país, porém a expressividade do populismo de extrema-direita é assustadora e merece maior atenção agora. Flertando inclusive com o passado nazista, o partido movimento, originário em grande parte do movimento PEGIDA e de dissidentes à direita do CDU-CSU, Alternativa para Alemanha (AFD), é, sem dúvidas, a maior surpresa do cenário político alemão nos últimos anos.

Atingindo seu ápice entre fevereiro-abril de 2017, com um forte discurso anti-imigração e anti-União Européia, chegaram a marca 15%, sendo a média anual de 10%, fato inédito para agremiações com esse perfil de extrema-direita desde a redemocratização do país.

É neste quadro que acontece as eleições alemãs no próximo domingo (24). O tema que ganhou maior atenção da população é, sem dúvidas, a questão da imigração em massa. Muitos criticam o oportunismo dos políticos, que por essa situação, deixaram para segundo plano temas importantes como a crescente desigualdade social e temas correlatos, como uma reforma tributária, acesso à moradia, educação, saúde e transporte.

Evitando um confronto com outras forças políticas, o CDU-CSU e o SPD optaram por realizar apenas um “duelo” em cadeia televisiva. Fato que gerou críticas dos opositores de partidos menores, como a Esquerda (Die Linke), o Partido Verde (Grüne), os Liberais (FDP) e o Alternativa para Alemanha (AFD), que buscam atingir a cláusula de barreira de 5% para participar do parlamento.

Ao que tudo indica, apesar da “fadiga Merkel”, não será nesta eleição que veremos “o fim da Era Merkel”. Resta saber como o SPD se sairá, se abandonará o papel de coadjuvante da década para ser oposição; se os “pequenos” terão força para ultrapassar os 5% mínimos e se teremos pela primeira vez em muitos anos um partido que realmente flerta com neonazistas do país.

*Vinicius Sartorato é sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização, pela Universidade de Kassel – Alemanha.



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