Procurador diz que Janot tinha pressa em tirar Temer e barrar Dodge, a quem chamava de “bruxa”

Ângelo Goulart Villela afirmou que espera que a Lava Jato continue apurando, mas com responsabilidade: “Hoje, prende-se para investigar. O ônus da prova é do investigado”.

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Ângelo Goulart Villela afirmou que espera que a Lava Jato continue apurando, mas com responsabilidade: “Hoje, prende-se para investigar. O ônus da prova é do investigado”.

Da Redação*

“Rodrigo Janot fez o acordo de delação com a JBS com o objetivo de derrubar o presidente Michel Temer e impedir a nomeação de Raquel Dodge para substituí-lo no comando da Procuradoria-Geral da República”. A afirmação é do procurador da República, Ângelo Goulart Villela, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Ele revelou que estava presente a uma conversa na qual Janot disse: “A minha caneta pode não fazer meu sucessor, mas ainda tem tinta suficiente para que eu consiga vetar um nome”. Segundo Villela, ele se referia a Raquel Dodge. Além disso, ainda de acordo com o procurador, “ele tinha pressa e precisava derrubar o presidente. O Rodrigo tinha certeza que derrubaria”.

O procurador deixou a prisão no dia 1º de agosto, onde ficou 76 dias sob suspeita de vazar à JBS informações do Ministério Público. “A desonra dói muito mais que o cárcere”, disse. Alvo da Operação Patmos, ele foi denunciado por corrupção passiva, violação de sigilo funcional e obstrução de Justiça.

Ele negou ter recebido propina e disse u se aproximou da JBS para negociar uma delação. Relatou sua amizade com Janot e afirmou que o ex-procurador-geral chamava Dodge de “bruxa”, em conversas reservadas.

Principais trechos da entrevista:

Jamais recebi propina da JBS. Nunca estive com Joesley, com Wesley, nem por telefone. Com Francisco Assis e Silva [diretor jurídico do grupo] tive dois contatos. Nunca recebi valor nem promessa de vantagem. O meu interesse era de liderar um acordo da maior empresa que a gente estava investigando. Os dividendos que receberia seriam profissionais, de reconhecimento.

Tive uma relação de amizade íntima durante um tempo, como Rodrigo Janot, frequentava a casa dele, tinha como grande amigo. Mas foi se enfraquecendo com o passar do tempo. A partir do rompimento dele com Eugênio Aragão [ex-procurador e ex-ministro da Justiça], fiquei distante porque nutro amizade e carinho enorme por ele [Aragão]. Eu nutria também pelo Rodrigo, mas me mantive distante. E aí eu vi que o Rodrigo mudou o tratamento comigo e com a minha família.

A última vez que estive na casa do Rodrigo foi o final do ano passado. Era uma segunda-feira, o achei muito cansado, perguntei se estava bem de saúde, e ele disse que sim, mas que estava ansioso para terminar o mandato.

A Operação Patmos tem uma motivação bem clara. Janot interpretou que eu havia mudado de lado também para apoiar a Raquel Dodge, a principal e mais importante adversária política dele. No Encontro Nacional de Procuradores da República, em outubro do ano passado, início de novembro, o Janot soltou uma frase que me chamou a atenção. Estavam eu e mais alguns colegas, poucos, e ele falou: “A minha caneta pode não fazer meu sucessor, mas ainda tem tinta suficiente para que eu consiga vetar um nome”. E ele falava de Raquel, todo mundo sabia.

A divergência política entre o grupo do Rodrigo e o da Raquel é fato público e notório. Não é apenas uma opinião. Nós tínhamos um grupo de Telegram que se chamava “Gabinete PGR”, com poucas pessoas, alguns assessores. Rodrigo falava pouco. E, vez ou outra, alguém tecia comentário sobre a Raquel. Tudo no campo político. Mas o Rodrigo se referia a Raquel com uma alcunha depreciativa para demonstrar que estavam em lados totalmente opostos na política interna: Bruxa. Está no meu celular, que foi apreendido.

Não é possível esperar que Raquel Dodge diminua o ritmo da Lava Jato. Qualquer um que entrasse não teria como mudar a Lava Jato. O que se espera é que continue apurando, mas com responsabilidade e profissionalismo, evitando vazamentos seletivos, evitando assassinatos de reputações. Hoje, prende-se para investigar. O ônus da prova é do investigado, eu que tenho que demonstrar que sou inocente.

Claro que eu conheci o ex-procurador Marcelo Miller. Era uma das cabeças mais pensantes, responsável pela negociação de delações, sobretudo na parte internacional. Foi na gestão do Rodrigo que a gente deu um salto muito importante na técnica de follow the money, de seguir o dinheiro. O Rodrigo tinha no Miller um verdadeiro escudeiro. Tanto é que o Miller era enviado para as missões em nome da PGR, o que demonstrava uma relação de confiança plena.

Há duas hipóteses. A primeira, que o Rodrigo tivesse conhecimento da participação do Miller a favor da JBS, talvez não tão profundo. A segunda seria que Rodrigo não soubesse de nada, teria sido ludibriado. Mas não quero crer que o PGR fosse uma rainha da Inglaterra na condução dessa investigação. É evidente que ele tem assessores de extrema confiança e esperava que eles fizessem o report. Não acredito que o Miller teria feito tudo isso sem conhecimento, ainda que parcial, de pelo menos algum membro da equipe de Rodrigo.

Sinceramente, não me preocupo se haverá anulação ou não da delação da JBS. E digo isso por uma razão simples: não cometi crime algum. Logo, não há prova, porque não existiu crime. Fui tachado de corrupto, de ter recebido R$ 50 mil, de ser alguém que tentava obstruir à Justiça e vazar documentos. Foram na minha casa e não encontraram nada. Meu patrimônio é compatível com a renda familiar e vivo no limite do razoável.

*Com informações da Folha de S.Paulo

Foto: Youtube



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