Afrofuturismo ou raio laser mais barato

“O fato de que as práticas culturais negras tenham muitas vezes se voltado ao passado como forma de resistência, no resgate de uma tradição que esteve sempre ameaçada pela violência colonial, não se opõe...

994 0

“O fato de que as práticas culturais negras tenham muitas vezes se voltado ao passado como forma de resistência, no resgate de uma tradição que esteve sempre ameaçada pela violência colonial, não se opõe a um olhar voltado, agora, ao futuro tecnológico. Estes dois focos são complementares e fundamentais para uma vivência mais plena do presente”. Leia mais na coluna de Tomaz Amorim 

Por Tomaz Amorim*

Por que a África é vista como terra do passado e os países do norte como terra do futuro? A escravidão e o colonialismo se acostumaram a representar o negro como primitivo. Aquele a ser ensinado, civilizado, domesticado, resgatado do passado e contemporanizado no mundo desenvolvido da modernidade. O ocidente moderno declarou a cultura tradicional como retrógrada, inimiga do progresso, e celebrou o novo na mesma medida em que desprezou o velho. Àqueles na periferia do mundo em desenvolvimento, especialmente à figura sempre marginalizada do negro, restou o passado. E nem mesmo um passado justo historicamente, mas um passado extirpado de grandezas. Quando não foram planificadas na categoria vazia do “folclore”, as contribuições técnicas e culturais de civilizações não-europeias foram esquecidas nos livros de história.

Aquiles Mbembe, importante filósofo contemporâneo, define a visão da África pela Europa como a de uma negação constante de si mesma, uma antítese a ser ativamente ignorada, como um “inconsciente”. O que resta dela é paralisada em um presente que não é fluxo, mas algum estranho tipo de presente-passado imemorial. Em “O tempo que se move”, ele descreve a projeção ocidental das sociedades africanas: “A invocação do tempo primordial bastaria. Enrijecidas numa relação de puro imediatismo com o mundo e com elas mesmas, tais sociedades seriam incapazes de enunciar o universal”.

Capa do álbum Fear of a black planet, do Public Enemy

O Afrofuturismo (termo cunhado por Mark Dery nos anos 90 em um ensaio tão sagaz quanto seu título, “Black to the Future”) é um movimento estético e político que tenta reposicionar a negritude no imaginário temporal pós-diáspora. Nos EUA, ele se manifestou, por exemplo, na música de George Clinton, na pintura de Ellen Gallagher e na literatura de Octavia Butler. Levado de volta para a África, ele se manifestou no cinema de Wanuri Kahiu (que em uma bela palestra relaciona elementos tradicionais de diversos povos africanos com cenários futuristas) e na literatura de Ben Okri. (Já em 1947, o escritor nigeriano Amos Tutuola, segundo Greg Tate, utilizava a cultura yorubá ao modo da ficção científica em suas histórias). Do passado primitivo onde foi relegada, a cultura com origens africanas retoma para si um lugar nas hipóteses do futuro: exploração espacial, tecnoxamanismo, música eletrônica de vanguarda, viagem no tempo, sexualidade ciborgue e queer. O mundo do futuro, até então limitado a sua representação nórdica, passa a ter não apenas protagonistas negros, mas as próprias manifestações culturais negras propõem um novo tipo de futuro a partir de pressupostos, narrativas e questões que não digam exclusivamente respeito à tradição cristã europeia e patriarcal. Libera do monopólio a especulação histórica e tecnológica produzindo um efeito político poderoso: projetar seu próprio grupo em um futuro comum.

Jean-Michel Basquiat – Molasses

A indústria cultural está atenta às mudanças de consumo e desejo de representação de seu público. Historicamente, os super-heróis negros foram dotados com poderes ligados às forças primordiais como elementos da natureza, animais, etc. A mutante negra dos X-Men mais conhecida, a Tempestade, é uma rainha africana que controla trovões. Seu sucessor mais recente, no entanto, o Super Choque, já combina elementos tecnológicos com poderes elétricos. Do trovão à eletricidade. Movimento semelhante aconteceu com o marido da Tempestade, o Pantera Negra, que apesar da relação política-animal evidente, é líder do país mais avançado tecnologicamente na Terra do universo Marvel: Wakanda. Em 2018, será lançado o filme do Pantera que misturará ação, política e ficção científica. No universo dos quadrinhos e dos cinemas da DC, é o Ciborgue quem encarna o Afrofuturismo, misto de humano e robô, responsável por todas as máquinas da Liga da Justiça.

Embora o termo tenha surgido nos Estados Unidos, as semelhanças históricas com a escravidão e colonização fazem com que as reflexões do Afrofuturismo encontrem terra fértil no Brasil. Atenta para isso, Kênia Freitas organizou em novembro de 2015 a Mostra Afrofuturismo, “Cinema e Música em uma Diáspora Intergaláctica”, e sua apresentação ajuda a entender a potência dessa estética: “As populações negras do continente americano são as descendentes diretas de alienígenas sequestrados, levados de uma cultura para outra. Os seus antepassados, separados dos seus territórios originais, foram abduzidos como escravos para o Novo Mundo”. A mostra exibiu filmes importantes do movimento estadunidense além da manifestação afrofuturista mais importante do cinema brasileiro, o filme “Branco Sai, Preto Fica” (2015) de Adirley Queirós. O mundo distópico de um homem negro, vítima de um tiroteio e de uma ação racista da polícia na periferia, reage com parafernália tecnológica e viagens no tempo, propondo explodir uma Brasília segregada com gambiarras sci-fi de ondas de rádio. As ondas de rádio emitidas pelo radialista em sua cadeira de rodas são ainda mais explosivas por carregarem, além de palavras de ordem raivosas, o ritmo poderoso e nostálgico da música de baile black. O filme faz pensar: o que há de mais futurista do que a fiação improvisada nas origens da música eletrônica negra? Do que a tipografia espacializada e tridimensional do grafite? Do que a história hacker do movimento Hip Hop, berço de técnicas inovadoras de edição e manipulação de sons remixados à serviço da dança e das festas de comunidade?

Capa do álbum Quanta, de Gilberto Gil

As teorias da conspiração que não abrem mão da relação entre o Antigo Egito e os alienígenas (parece ser mais fácil imaginar uma invasão alienígena, do que aceitar uma civilização clássica não europeia) são invertidas no Afrofuturismo e os egípcios é que passam a se tornar mestres da técnica. Seu principal precursor, o músico estadunidense Sun Ra, embaralhou o Antigo Egito com as civilizações espaciais no seu jazz cósmico dos anos 70. Suas bandas e álbuns carregam nomes icônicos como Sun Ra visits planet Earth, The Nubians of Plutonia, Interstellar Low Ways, The Futuristic Sounds of Sun Ra e sua obra-prima que deu origem ao filme homônimo Space is the Place. Esta atualização do Egito Antigo também se manifestou na música negra brasileira. (Essa é a mistura do Brasil com o Egito!). A tentativa parece ser, através de uma revisão histórica positiva, religar um passado africano grandioso com o presente desolado de que ele foi separado. Reencontrar as narrativas do Egito no passado arcaico e no futuro, como faz Jorge Ben com Hermes Trismegisto e Errare Humanum Est, e perguntar: Eram os deuses egípcios astronautas? Ou relocalizá-las no Pelourinho como faz o Olodum em “Faraó Divindade do Egito”: “Despertai-vos, a cultura Egípcia no Brasil, / invés de cabelos trançados / veremos turbantes de Tutancâmon. / E nas cabeças se enchem de liberdade, / o povo negro pede igualdade / e deixamos de lado as separações”.

Obra do artista plástico estadunidense Rammellzee

É impossível falar de música negra brasileira e tecnologia sem se referir a Gilberto Gil e o fino equilíbrio que ele estabelece em sua obra entre modernidade e tradição. Gil conserva o passado sem medo da tecnologia que surge – ele prefere devorá-la em uma antropofagia temporal, vendo na tecnologia uma continuação ou uma semelhança com práticas tradicionais. Seu cérebro eletrônico pode tudo, ou quase tudo. O Expresso 2222 partia de Bonsucesso em 1972 e levava direto ao fim do milênio no ano 2000. Seu álbum Quanta, de 1997, encarna esta tensão como poucos na história da música brasileira. A segunda canção é uma samba, no estilo tradicional de homenagem aos mestres do passado, mas dedicado entre outros ao físico César Lattes. A canção que dá título ao álbum se refere às grandezas e belezas quânticas e celebra as relações não excludentes entre ciência de ponta e arte clássica, celebra o quântico dos quânticos e o cântico dos cânticos: “Sei que a arte é irmã da ciência / ambas filhas de um Deus fugaz / que faz num momento / E no mesmo momento desfaz”. Empunhando uma “lâmina quântica do querer / Que o feiticeiro o sabe ler”, Gil condena os charlatões da ciência e da arte, ao mesmo tempo em que celebra as tecnologias modernas e aquelas que vêm da cultura popular. Se curam, se funcionam, então vão juntas a aspirina que “aspira a dor” e a os banhos de folhas e a pílula de alho, “da planta antibiótica / da velha medicina / que desenvolvimento!”. As tradições são atualizadas no tempo: “Com quantos gigabytes / Se faz uma jangada / Um barco que veleje / Que veleje nesse infomar / Que aproveite a vazante da infomaré / Que leve um oriki do meu velho orixá / Ao porto de um disquete de um micro em Taipé”.

Ellen Gallagher – Abu Simbel

A ficção científica brasileira tem um dos seus inícios na obra O presidente negro (1926) de Monteiro Lobato, que tem um problemático fundo eugenista. Ali a questão racial é um problema nacional a ser resolvido pelos brancos, bons cidadãos, através de esterilização negra via raios gama. No Afrofuturismo, por outro lado, a técnica serve em geral para solucionar ou refletir sobre a opressão racial da perspectiva daqueles que a experienciam. Janelle Monae, cantora e atriz estadunidense contemporânea, dedicou três álbuns (e mais quatro futuros) ao seu cenário futurístico conceitual, Metropolis, em que a narrativa de uma androide numa sociedade distópica traz elementos para pensar a segregação racial e social no presente dos EUA. Ela explica em uma entrevista: “Eu escolhi uma androide porque a androide para mim representa “o outro” em nossa sociedade. Eu posso me conectar com “o outro”, porque existem tantos paralelos com a minha própria vida – só de ser uma artista mulher e afro-americana na indústria musical de hoje. O androide representa o novo “outro” para mim”. É difícil não pensar no feminismo futurista do “Manifesto Ciborgue” de Donna Haraway: “O ciborgue é um tipo de eu – pessoal e coletivo – pós-moderno, um eu desmontado e remontado. Esse é o eu que as feministas devem codificar”.

Raper Sharaya J

Muitos dos temas presentes em distopias futuristas já aparecem no presente (e no passado) cotidiano de grupos negros: vigilância e controle estatal, bioengenharia, necropolítica, segregação, necessidade de improvisos tecnológicos, etc. Talvez fosse possível dizer que a representação distópica branca nada mais seja do que a projeção da história negra no seu próprio futuro. O comediante Dave Chappelle lembra ironicamente sobre a dificuldade de se fazer um filme de viagem no tempo ao passado com um protagonista negro… Seria isso uma explicação para a instigante sabedoria, como se eles entendessem mais profundamente o funcionamento destes mundos, de personagens negros em ficções científicas como Morpheus e a Oráculo em Matrix, Joana em 3℅, Nick Fury nos Vingadores, etc.? (Trata-se também de reivindicar uma presença apagada. Ytasha Womack, responsável pelo estudo Afrofuturism: The World of Black Sci-Fi and Fantasy Culture, se perguntou quando criança: por que a voz do Darth Vader é feita pelo ator negro James Earl Jones, mas sua imagem é de um ator branco? O mitológico comediante Richard Pryor vinga esta ausência em sua esquete antológica “Star Wars Bar”).

O fato de que as práticas culturais negras tenham muitas vezes se voltado ao passado como forma de resistência, no resgate de uma tradição que esteve sempre ameaçada pela violência colonial, não se opõe a um olhar voltado, agora, ao futuro tecnológico. Estes dois focos são complementares e fundamentais para uma vivência mais plena do presente, construído como intersecção entre a memória do passado e a projeção de futuros coletivos. Para voltar à Mbembe: “o presente enquanto experiência de um tempo é precisamente o momento no qual se emaranham diferentes formas de ausência: ausência dessas presenças que não estão mais e das quais nos lembramos (a memória), e ausência desses outros que não estão ainda e que antecipamos (a utopia)”.

Confira, abaixo, uma lista com mais alguns materiais sobre o assunto.

Clipes, vídeos e trailers

Playlist de música afrofuturista no Spotfy

Coletânea de capas de álbuns afrofuturistas

https://afrofuturisticalbumcovers.tumblr.com/

Imagens de moda e ensaio em português sobre o Afrofuturismo

http://mequetrefismos.com/modas/dossie-afrofuturismo-saiba-mais-sobre-o-movimento-cultural/

Catálogo da Mostra Afrofuturismo, fundamental para quem quiser se aprofundar na questão em língua portuguesa

http://www.mostraafrofuturismo.com.br/Afrofuturismo_catalogo.pdf

Fábio Kabral, que escreve romances e reflexões sobre o Afrofuturismo.

Site brasileiro sobre super-heróis negros

http://www.ladonegrodaforca.com.br/

*Tomaz Amorim Izabel, 29, tem graduação e mestrado em Estudos Literários pela Unicamp e é doutorando na mesma área na USP. É militante da UNEAfro Brasil. Além de crítica cultural, também escreve poesia [tomazizabel.blogspot.com] e coedita o blog Ponto Virgulina de traduções literárias. Publicou traduções para o português de Franz Kafka e Walt Whitman

Foto de destaque: Arte do álbum “ArchAndroid” de Janelle Monae



No artigo