Uso das Forças Armadas em favelas no Rio é “espetáculo à classe média”, afirma ex-ouvidora da Polícia

Para Julita Lemgruber, aumento da violência no Rio de Janeiro é resultado de um colapso institucional. Enquanto as ocupações de comunidades passam uma falsa sensação de segurança para atender às expectativas da alta classe...

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Para Julita Lemgruber, aumento da violência no Rio de Janeiro é resultado de um colapso institucional. Enquanto as ocupações de comunidades passam uma falsa sensação de segurança para atender às expectativas da alta classe média, quem sofre são os moradores das favelas

Por Ingrid Gerolimich

*Colaborou Ivan Longo

Desde a última semana, o Brasil tem acompanhado apreensivo os acontecimentos envolvendo a favela da Rocinha, localizada na zona sul do Rio de Janeiro. Após a instauração de um conflito entre grupos de traficantes pelo controle da comunidade, as Forças Armadas promoveram a ocupação do local, o que levantou muita polêmica por conta da violência e colocou em xeque a efetividade deste tipo de ação.

Para a socióloga e diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, Julita Lemgruber, o uso das Forças Armadas nestas situações não passa tão somente de um espetáculo que se apresenta à classe média através de uma falsa sensação de segurança, enquanto as comunidades pagam o preço da ausência de uma institucionalidade capaz de combater a violência nestas localidades ao mesmo tempo em que preserva seus moradores.

Em entrevista à Fórum, Julita, que é ex-ouvidora da Polícia do Estado, destrinchou um pouco mais o assunto.

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Fórum – Há rumores de que há a participação do PCC nesta guerra por território na Rocinha e também em outras comunidades no Rio de Janeiro? Haverá uma reconfiguração do crime organizado no Rio? Quais serão as possíveis consequências disto?

Julita Lemgruber – Infelizmente, eu não tenho bola de cristal e acho que qualquer um que faça qualquer tentativa de afirmar sobre como esses grupos vão se configurar nesses próximos meses estará fazendo uma análise precipitada. O que está acontecendo agora é resultado de um colapso institucional. E essa crise institucional agrava o quadro de violência no Rio.

Há uma crise de legitimidade no Rio de Janeiro. Nem quem está no varejo do tráfico e nem quem está na polícia está levando a sério esta política de segurança. Esses dois grupos já perceberam que falta uma política de segurança efetiva no estado.

Eu acho que, num contexto onde não há política de segurança publica, há reações violentas. Existe uma movimentação no tráfico e em nenhum momento temos a percepção de que as informações da área de inteligência estão sendo usadas para evitar que a população das favelas sofra mais ainda.

O caso da Rocinha chama atenção por sua localização geográfica mas, nas últimas semanas, tem havido confrontos não só entre a polícia e o tráfico, mas entre grupos de traficantes em várias favelas do Rio, e ninguém fica indignado. Então, quando vem a Rocinha, a perturbação da ordem chegou a uma favela localizada entre a Barra e a Zona Sul da cidade . Só aí, então, todo mundo fica incomodado.

Hoje [terça-feira, 26], completam três ou quatro dias que alunos de escolas da alta classe média não estão tendo aula. No entanto, ao longo de todas essas semanas, milhares de crianças de favelas não conseguiram ter aula. Hoje teve tiroteio na Maré. Se você for ao site do Viva Maré, você vai ver fotografias de crianças deitadas no chão. Ainda não tivemos confirmação, mas parece que teve gente atingida pelas chamadas balas perdidas, que de perdidas não têm nada, têm endereço certo, que é o favelado.

Acho que a gente tem que olhar a chamada crise da Rocinha dentro do cenário do Rio de Janeiro, onde a polícia, até o dia de hoje, já matou mais de 600 pessoas e morreu muito também. Então, é bom que a gente tenha essas informações à mão quando tentarmos analisar esse caso da rocinha.

Fórum – As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) fazem parte deste colapso institucional a que você se referiu?

Lemgruber – As UPPs colapsaram e é claro que quem está no varejo das drogas já percebeu isso há muito tempo e por conta disso começou toda uma movimentação. Deixou-se de acreditar na possibilidade de qualquer tipo de policiamento que se desejava comunitário ser bem sucedido, já houve um reconhecimento do fracasso dessa proposta. Então, eu acho que tudo o que está acontecendo, esses embates entre os grupos de traficantes, é resultado dessa acomodação, estão aproveitando este vácuo de poder.

Fórum – Qual a sua opinião sobre o uso das Forças Armadas em casos como a Maré e a Rocinha? Somente na Maré, a manutenção das Forças Armadas custou R$600 milhões aos cofres públicos. Na sua visão, esta quantia foi bem investida?

Lemgruber – Eu acho que esse dinheiro é jogado fora. Uma reportagem do jornal O Globo mostrou que foram gastos 600 milhões de reais na Maré durante 15 meses. E, hoje, os jovens envolvidos com o varejo do tráfico estão todos novamente circulando armados pela favela sem nenhuma preocupação. Isso é uma comprovação do absoluto desleixo com o dinheiro público, com os nossos impostos. Esse dinheiro foi gasto para dar a sensação de uma sociedade segura para as Olimpíadas quando, na verdade, era uma farsa e hoje estamos vendo o resultado dramático dessa farsa que foi a presença das Forças Armadas na Maré.

Na verdade, o que a gente precisa aprender a ver por trás das notícias é que esse espetáculo da presença das Forças Armadas é para transmitir alguma sensação de segurança para a classe média. Claramente, não é segurança pra quem vive na favela. Ontem, li um texto de um morador de favela no jornal Folha de São Paulo muito impressionante, onde ele pergunta a quem servem os tanques, caveirões e helicópteros. Para trazer segurança pra quem? Para a favela? Claro que não. Então, está na hora da gente deixar a hipocrisia de lado, não é?

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil



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