Privatização do TBC mobiliza artistas contra Sérgio Sá Leitão

Gente como Fernanda Montenegro, Sérgio Mamberti, Clarisse Abujamra, José Celso Martinez Corrêa entre tantos outros de um lado só fazem comprovar, por outro, um governo ilegítimo que tem um ministro da Cultura inexpressivo que...

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Gente como Fernanda Montenegro, Sérgio Mamberti, Clarisse Abujamra, José Celso Martinez Corrêa entre tantos outros de um lado só fazem comprovar, por outro, um governo ilegítimo que tem um ministro da Cultura inexpressivo que não se incomoda em fazer este tipo de trabalho sujo.

Por Julinho Bittencourt

A bomba estourou no programa “O É da Coisa”, de Reinaldo Azevedo, na Band News FM, no final de agosto. Logo após repetir meia dúzia de frases sobre o Estado mínimo, o ministro da Cultura de Temer, Sérgio Sá Leitão (na foto com Michel Temer), soltou com exclusividade que, é claro, ia privatizar equipamentos e o primeiro seria o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC).

“Nós temos em vista promover a concessão, entre vários equipamentos – e eu vou falar aqui com exclusividade – do Teatro Brasileiro de Comédia, aqui na Bela Vista”, falou Leitão para os aplausos efusivos do histriônico entrevistador.

Os pulinhos de alegria do apresentador – que podem ser vistos a partir do minuto 1:02:04, não conseguiram, no entanto, ser tão intensos quanto o rugido do leão que veio do outro lado, aquele que conhece e sabe, desde sempre, da importância do TBC: a classe teatral.

O perfil “Salvar o TBC – Movimento contra a privatização do Teatro Brasileiro de Comédia”, aberto no Facebook, conta com uma multidão de atores, diretores, cenógrafos, figurinistas, técnicos e toda a sorte de profissionais de teatro, além de público e simpatizantes. É tanta gente de peso, que seria mais fácil listar quem, porventura, ficou de fora.

Gente como Fernanda Montenegro, Sérgio Mamberti, Clarisse Abujamra, José Celso Martinez Corrêa, Sérgio de Carvalho, Walderez de Barros, Álvaro Machado, Marco Antônio Rodrigues entre tantos outros de um lado só fazem comprovar, por outro, um governo ilegítimo que tem um ministro da Cultura inexpressivo que não se incomoda em fazer este tipo de trabalho sujo.

 

Um ministro que vê cada vez mais distante o seu pedido, feito em entrevista no dia de sua posse, para a classe artística: “baixar a bola e tentar buscar objetivos comuns”. Na verdade, ao que tudo indica e fica cada vez mais claro, não há “objetivos comuns”.

Sérgio Mamberti – Foto: Paulo Pinto/AGPT

“O ministro não nos fez nenhuma consulta, não conversou nem discutiu isso com ninguém. Simplesmente foi lá e anunciou. O TBC é um marco do teatro brasileiro”, desabafou Sérgio Mamberti, responsável pela compra do equipamento no governo Dilma, quando era presidente da Funarte.

Mamberti foi mais além e disse acreditar que se trata de uma ação coordenada para desidratar a cultura através do baixo orçamento, acabar com o ministério, vender equipamentos e, no limite, fazer vista grossa às tentativas de censura. “A cultura é questionadora”, disse.

Fernanda Montenegro – Foto Antonio Milena – ABr

Outra que se manifestou prontamente foi a atriz Fernanda Montenegro. Ela chamou a investida de Sá Leitão de “insultuosa privatização”. Personalidade que representa como poucos a cultura brasileira, atriz da fase áurea do TBC nos anos 1950, Montenegro endossou o manifesto das Artes Cênicas brasileiras: “Peço juntar meu nome a tantos representantes da nossa Cultura que apoiam esse manifesto sobre o TBC. Agradeço o envio da mensagem a respeito dessa insultuosa privatização. O TBC foi e é um centro histórico do nosso Teatro”.

O crítico e curador teatral da Biblioteca Mário de Andrade, Álvaro Machado, conta que, em duas assembleias, foi tirada uma comissão de 4 pessoas para discutir com Sá Leitão o assunto. Até o momento, estão esperando uma vaga na agenda do ministério. “Nossa prioridade é manter na esfera pública, mas se o TBC vier mesmo a ser privatizado, nós precisamos saber como tudo vai ficar. A cultura virou um ônus para eles, que precisa ser vendido pra fazer caixa. O Arena e o Oficina, junto com o TBC, formam o núcleo do teatro brasileiro moderno, que existe ainda em São Paulo, sendo que o Oficina está ameaçado pelo Condephaat e agora o TBC pela privatização”, disse.

Resposta lacônica do ministro Sá Leitão

O TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) de São Paulo está fechado há dez anos. Recentemente, teve parte de sua reforma concluída, na qual foram investidos cerca de R$ 20 milhões. De acordo com o ministério, seriam necessários mais R$ 13 milhões para a conclusão das obras do prédio de três andares, na Rua Major Diogo, no bairro da Bela Vista. Alegando que não cabe ao governo federal fazer a gestão administrativa e artística do espaço, o ministério optou pela privatização.

Na prática, o edital para privatização do TBC deve ser lançado até o final deste ano.

Questionado sobre o assunto, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, através de sua assessoria de imprensa, se limitou a responder de forma lacônica a duas perguntas enviadas pela Fórum:

– O ministro confirma a informação de que o edital para a concessão do TBC deve estar pronto até o final deste ano?

O assunto está sob análise no Ministério da Cultura (MinC).

– Uma das reclamações dos artistas dá conta que o ministro fez o anuncio sem consultar a classe teatral. Há a intenção por parte do ministério de conversar sobre o assunto, rever algum dos pontos ou até mesmo a própria concessão em si?

 O setor cultural será ouvido.

O TBC existe desde 1948. Leia sobre a sua história aqui.

Leia abaixo a íntegra do manifesto dos artistas contra a privatização do TBC. As assinaturas têm sido atualizadas diariamente. Para acompanhar e assinar siga o link.

SALVAR O TBC PARA O BRASIL

A classe teatral paulista repudia o anúncio de privatização de um bem público da importância histórica do TBC de São Paulo, legenda que encerra boa parte do patrimônio imaterial do teatro brasileiro junto aos teatros Oficina e Arena. Repudiamos com veemência a perspectiva desse teatro tornar-se um empreendimento puramente comercial.

Atores e atrizes, diretores, técnicos, pedagogos e produtores teatrais vêm a público lembrar que o TBC, além de constituir bem tombado em mais de uma instância de preservação do patrimônio, assim como os citados Oficina e Arena (este também adquirido pelo MinC), já consumiu mais de 20 milhões de reais do erário público em processos de compra e reforma do imóvel.

O edifício e a legenda TBC são patrimônio do teatro e do povo brasileiro e não podem figurar na “massa falida da Cultura”, como essa área vem sendo tratada pelo atual governo federal. PELO DIÁLOGO da classe teatral com o Ministério da Cultura e a Funarte, a fim de estudarmos juntos alternativas ao projeto de privatização anunciado.

Se você pertence à classe teatral — ou se é artista ou intelectual com colaborações prestadas às Artes Cênicas — e deseja endossar a declaração acima com a sua assinatura, por favor faça-o, transmitindo-nos em sua resposta nome completo + profissão, atividade ou função em qualquer instituição ligada às Artes. Em breve convocaremos nova reunião de classe através da página FaceBook SALVAR O TBC – https://www.facebook.com/salvarotbc/

SUBSCREVEM:

José Celso Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina, com 40 integrantes

Sérgio Mamberti, ator e gestor cultural

Celso Frateschi, diretor teatral, ator, com Ágora Teatro

Antunes Filho, diretor do Centro de Pesquisas Teatrais do Sesc-SP

Guilherme Marques, diretor da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo e do CIT-Ecum

Ferdinando Martins, diretor do Teatro da USP e professor do Depto. de Artes Cênicas da ECA-USP

Alvaro Machado, crítico e curador teatral da Biblioteca Mário de Andrade

Dorberto Carvalho, dramaturgo e candidato à presidência do Sated-SP

Américo Córdula, ator e gestor cultural

Carol Badra, atriz dos grupos Os Fofos Encenam, Balagan e Mundana

Stênio Dias Ramos, pesquisador em História do Teatro na ECA-USP

Ruy Cortez, professor e diretor teatral, integrante do CIT-Ecum

Célia Gouvêa, bailarina e professora de dança, viúva do diretor teatral do TBC Maurice Vaneau, curadora do acervo Vaneau/Gouvêa

Eduardo Tolentino, diretor do Grupo Tapa

Sérgio de Carvalho, diretor da Cia. do Latão e professor de Teatro na ECA-USP

Ivam Cabral, diretor da SP Escola de Teatro, ator do grupo Os Satyros

Rudifran Pompeu, diretor teatral e presidente da Cooperativa Paulista de Teatro

Rodolfo García Vásquez, pelo grupo Satyros, com 35 integrantes

Laymert Garcia dos Santos, tradutor e crítico teatral, sociólogo

Kil Abreu, curador teatral do Centro Cultural São Paulo

Maria Thais, diretora da Cia. Balagan, professora de direção teatral em ECA-USP

Luiz André Cherubini, diretor do Grupo Sobrevento

Cibele Forjaz, diretora da Cia. Livre e professora de teatro em ECA-USP

Aury Porto, diretor e produtor teatral, ator, pela Mundana Cia.

Kiko Marques, diretor e ator da Velha Cia.

Marco Antônio Rodrigues, diretor, pela companhia Folias Teatrais

Celso Curi, curador e gestor teatral, editor do Guia Off de Teatro

Pascoal da Conceição, ator

Luis Sobral, administrador do Teatro Sérgio Cardoso (SP)

Beth Néspoli, crítica e pesquisadora de teatro, diretora do TeatroJornal

Izaías Almada, ator e autor teatral

Fernanda Capobianco Porto, diretora do Instituto Teatral Capobianco

Oswaldo Mendes, dramaturgo e jornalista

João Carlos Couto, curador de dança do Teatro Alfa e gestor cultural

Marcelo Marcus Fonseca, diretor do Teatro do Incêndio

 

Foto: Beto Barata/PR



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