“Qualquer ser humano com o mínimo de sensibilidade entende a importância do Mais Médicos”, diz diretor de doc

Documentário “Vem de Cuba” acompanha o dia a dia de dois médicos cubanos em São Miguel do Gostoso (RN)

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Recém-lançado, documentário “Vem de Cuba” procura desmistificar o programa criado em 2013 e acompanha o dia a dia de dois médicos cubanos na cidade de São Miguel do Gostoso (RN)

Por Ivan Longo | Fotos: Divulgação

Um dos episódios mais tristes e bizarros da história recente do Brasil, sem dúvidas, foi o ódio da classe médica contra a vinda de médicos cubanos ao Brasil pelo programa Mais Médicos. Enfurecidos, profissionais da saúde chegaram a ir até o aeroporto para hostilizar os primeiros médicos da ilha socialista que estavam chegando para realizar o trabalho que os médicos brasileiros se recusaram a realizar: atender famílias carentes em cidades remotas.

Médico cubano Juan Delgado foi hostilizado ao desembarcar no aeroporto de Fortaleza em agosto de 2013

Lançado em 2013 pelo governo Dilma Rousseff, o Mais Médicos levou 18 mil médicos, entre cubanos, brasileiros e de outras nacionalidades, a 4 mil municípios pobres do país onde faltava atendimento. O programa já foi elogiado internacionalmente e surtiu efeitos concretos para as famílias atendidas mas, até hoje, é alvo de preconceito e ódio por parte de um setor da sociedade. Os mais lunáticos já chegaram a afirmar até que a vinda de médicos cubanos era uma estratégia para importar guerrilheiros e implantar um “golpe comunista” no país.

Mas para além do discurso de ódio e das ideias lunáticas, desde o impeachment de Dilma no ano passado, o programa tem sido atacado de forma concreta. No governo Temer, o número de médicos foi reduzido para 16 mil e está atendendo cerca de 200 municípios a menos. Isso significa que cerca de 7,7 milhões de pessoas, graças a Temer, deixaram de ser atendidas.

É nesse cenário que foi lançado, no último dia 25, o documentário online Vem de Cuba, que busca traçar um retrato fiel de como funciona o programa através do dia a dia de dois médicos cubanos em São Miguel do Gostoso (RN), a pouco mais de 100 km de Natal.

O filme, gravado em 2016 e finalizado em 2017, acompanhou ao longo de 10 dias o trabalho de Raúl Hernandez e Marlon Marinho junto às famílias do município. Os atendimentos, a vida pessoal, o contato com os pacientes, suas reações – tudo foi registrado no documentário, que procura discutir também os métodos da medicina preventiva e familiar cubana.

“O filme surgiu com o princípio de desmistificar as ideias em torno do programa. Resolvemos ir até uma comunidade que carecia de atendimentos básicos de saúde para retratar o trabalho dos médicos cubanos que, por sinal, foram muito mal recebidos no brasil, principalmente pelo colegiado médico nacional”, contou jornalista André Neves Sampaio, que junto com Felipe Rosseaux e o fotógrafo José Vessoni, produziu o filme.

O ódio em torno do programa, de acordo com Felipe Rosseaux, também foi determinante para que eles decidissem trabalhar com essa pauta. “O debate tomado de ódio e superficialidade não permitia a ninguém entender o que o programa oferecia e muito menos se discutir soluções frente a falta de profissionais da saúde e ao básico do sistema público de saúde. Independentemente de o programa ter sido criado pelo PT ou por qualquer partido, a essência da nossa ideia se baseou em conhecer o trabalho do programa e, no caso, de uma medicina distinta sendo exercida em uma comunidade bem vulnerável socialmente”, disse Rosseaux.

Filme mostra o atendimento realizado pelos médicos no município a cerca de 100 km de Natal

A missão, para ele, foi cumprida. “Por certo desmistificamos o fato de que médicos cubanos estão aqui com algum tipo de má intenção. A própria comunidade nos demonstrou isso. Um desmonte do programa é um sinal de que nada importa além da ganância e poder. O programa, sem dúvida, tem muitos problemas, mas a essência proposta e imposta por ele é imprescindível para regiões que nem sequer possuem postos médicos, onde jovens grávidas precisam pegar um ônibus de duas horas até um hospital da capital mais próxima para poder se consultar”, afirmou.

André Neves, por sua vez, chama a atenção para o método cubano da medicina preventiva. “Um dos princípios da medicina cubana é a prevenção e também a inserção do médico dentro da comunidade, o que resulta em trabalho de conscientização da população perante aos problemas básicos de saúde. Qualquer ser humano com mínimo de sensibilidade e esperteza consegue entender a importância do programa Mais Médicos”, disse.

Antes do programa, moradores precisavam viajar 2 horas de ônibus para atendimento médico

Um aspecto interessante no documentário foi a escolha estética. A forma como a câmera registra os médicos e os personagens, de acordo com os autores, procura passar uma narrativa mais próxima da realidade possível, inclusive com o registro das reações daquela comunidade diante da câmera.

“A gente queria a verdade sem maquiagem, e a relação médico/paciente foi determinante para conseguirmos esse resultado. Para tal, a câmera precisou encarnar um personagem no filme. Ela se movimenta, se interessa, observa e é observada. Ela é constantemente sentida durante o filme, não se esconde através de estéticas ou formalismo, ela é seca e ferida, como a realidade que a gente retratava”, explicou o fotógrafo José Vessoni.

Para saber mais sobre o documentário, confira o Instagram do projeto, com detalhes sobre as personagens e a produção.

Abaixo, a íntegra do filme.

 

 



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