Racionais MC’s: Raça e consumo em Cores & Valores

Trata-se de um álbum que tenta dar voz ao espírito contraditório de uma classe social recém-surgida no Brasil e já em perigo de extinção

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Trata-se de um álbum que tenta dar voz ao espírito contraditório de uma classe social recém-surgida no Brasil e já em perigo de extinção

Por Tomaz Amorim Izabel

“Cores & Valores” foi lançado em 2014, sendo o sexto de estúdio dos Racionais MC’s e o primeiro em 12 anos com faixas inéditas. A expectativa gigantesca do público e da crítica foi satisfeita. O álbum ganhou prêmios e a única reclamação generalizada foi sua curta duração, meia hora para uma espera de mais de uma década do grupo mais importante da história do RAP nacional. 2014 parece pouco tempo atrás, mas a situação político-econômica do país era muito diferente. A cena musical também. O Funk Ostentação seguia para seu terceiro ou quarto ano de triunfo nacional. Do nome ao estilo da música, “Cores & Valores” se encaixou como uma luva neste contexto estético-político. A amplitude das batidas, os efeitos de voz, a colagem documental de reportagens e samples (Cassiano e o Soul estadunidense, sempre presentes!), o swing e o ritmo dos versos, sotaques e timbres, tudo é alucinante como uma viagem narcótica, como um pico ascendente que culmina antes de descer novamente no meio do álbum, em uma repetição prazerosa, em um mantra pop: “Eu compro, eu compro, eu compro”. O rap que dá título ao álbum traz uma referência inesperada: sua batida é da canção Royals da cantora neozelandesa Lorde, que traz na letra uma contradição semelhante ao deste álbum do Racionais: as músicas falam de dinheiro (“But every song’s like gold teeth, Grey Goose, trippin’ in the bathroom”), mas nós nunca seremos parte daqueles que historicamente o têm (“And we’ll never be royals”). A canção de Lorde e o rap dos Racionais performam a mesma contradição: sendo parte de um modo de vida, expressam um desejo frustrado de alcançá-lo. Verdade que o Racionais nunca esquece de onde vem e para quem está falando: o consumo é a culminação da ascensão social de quem não podia consumir e agora pode, ou melhor, em 2014 ainda podia. Uma perspectiva histórica supostamente ausente no Funk Ostentação. Supostamente, porque como os rolezinhos mostraram no mesmo ano, o consumo não é tão universal como pretende o Capitalismo. (“Olha só aquele shopping, que da hora! / Uns moleques na frente pedindo esmola”). Mesmo no caso raro de ter como comprar, a corporeidade denuncia, a pobreza tem uma materialidade que inclui o corpo e a cultura, a aparência: “Mesmo podendo pagar, tenha certeza que vão desconfiar”.

A escolha do nome do álbum é precisa. O par Cores e Valores se multiplica em sentidos diversos e contraditórios. O mais imediato é no nível do consumo: as cores e valores do dinheiro (“notas verde azul piscina”, o laranja gritante, cor do boné de luxo e do uniforme do gari, é tema do álbum), o mundo fica mais colorido, cintilante, de acordo com os valores na conta. O sentido paralelo, contraditório e não contraditório com o primeiro, tensão que perpassa o álbum, está no nível ético: cores de raça, brancos e negros, e valores políticos: memória, procedimento, resistência. O álbum vai testando hipóteses sobre o par e seus níveis de sentido no Brasil: quem tem cor não tem valores financeiros, embora tenha valores éticos ligados à consciência da raça. Dito pelo avesso: quem não tem cor, os brancos, tem valores financeiros, embora não tenham valores éticos, por causa da opressão histórica. São Paulo simboliza bem a segunda formulação: capital branca do Capital sul-americano e “última a abolir a escravidão”. O álbum como que propõe então uma inversão histórica e ética: Valores para quem tem valores. A esquerda, branca e negra, tenta disfarçar o mal-estar ou a discordância com esta crença de que o dinheiro, por si só, possa corrigir esta versão da luta de classes em que raça e classe se igualam. “Guerra fria, muçulmanos e USA / Preto e branco como jogo de xadrez”. Mas o Racionais não se comove por este mal-estar, pelo nojo de dinheiro de uma certa esquerda pequeno burguesa. (Falar abertamente de valores sempre foi interditado, como deselegância, pelos valores tradicionais…). Nojo que é privilégio de quem o tem e pode viver, na convicção de uma inocência ou pureza, sem pensar muito nele. O Racionais e seu público querem dinheiro (“O vil metal só não quer quem morreu”), sim, e as razões se misturam: do desejo alucinante de consumo à reparação histórica (“Você me deve”), do desejo de conforto de quem trabalhou a vida inteira à segurança que o dinheiro pode oferecer para quem vive em cenários de guerra.

A celebração do consumo aparece, portanto, como celebração de uma emancipação da raça-classe. Consumo como emancipação, como projeto político, como palavra de ordem: “Fique rico ou morra tentando” e mais uma enumeração de grifes de fazer inveja a qualquer Funk Ostentação. Nesse sentido, Cores & Valores é a encarnação artística do projeto político do PT desde 2002. É o representante das contradições produzidas pelo projeto de inclusão social via consumo. Se em 2014 esse projeto já mostrava sinais de derrota, tanto ideológica nas urnas, como material com o início da perda de poder de consumo da classe C, em 2017 as contradições já explodiram. Como consumir, em contexto de crise, sem dinheiro? Sintomaticamente, o rap que vem logo em seguida de “Eu compro” é “A escolha que eu fiz”, que trata justo de um assalto malsucedido em que o eu-lírico reflete do chão, sangrando, prestes a morrer: “Com vinte anos apenas, nunca dei orgulho / Só acumulo problemas / (…) No chão por alguns reais”. Neste som, o fã reconhece o Racionais mais antigo, aquele que conta sem moralismos da sedução e do preço caro da vida de crime, como faria um irmão mais velho que entende, mas tem um conselho. Porque a vida no crime promete solucionar a crise existencial de quem vive na periferia do Capitalismo, aquele que é alimentado constantemente com desejos de consumo sem nunca poder realizá-los. A frustração é permanente nesta “prisão que eu mesmo construí”. As satisfações esporádicas e parciais do desejo pelo assalariado (nunca permanente, nunca do “melhor”) encontram no crime uma possibilidade. O Racionais reconhece isso e ao reconhecê-lo consegue penetrar na intimidade do jovem que está na defensiva contra o moralismo trabalhista-cristão da sociedade.

O Racionais cria épicos do crime com toda a viagem do desejo, mas sempre com o mesmo final pedagógico: a tragédia. A lição fica sendo uma tentativa de resistência ao desejo (não ceder à sua solução rápida ao custo da própria vida ou liberdade) ou, como é o caso de Cores & Valores, sua celebração. Mas a pergunta permanece: como consumir sem dinheiro e sem apelar para o crime? Se nem todo jovem pode ter uma vida bem-sucedida no RAP, o que fazer? O esboço de resposta que os versos mais fracos do álbum propõem parece autoajuda para empreendedores: “Financiar o seu sonho e acreditar em você / Seu limite cê que sabe, quer chegar aonde? / Ter helicóptero no iate, conquiste sua condição”. Não por acaso, é o tema do Rocky Balboa, herói da superação e da Sessão da Tarde, que embala o rap mais poderoso do álbum. Com flow impecável, ousado, atravessado de rimas improváveis, reveladoras, Brown está atento. Os versos finais mantêm a tensão e a contradição que estruturam o álbum, o nome do rap é uma questão: “Quanto vale o show?”. Do céu ao inferno, das canções ostentação do Funk e de Lorde à realidade paulistana: “A vitrine Pierre Cardin, Gucci, Fiorucci, Yves Saint Laurent, Indigo Blue / Corpo negro seminu encontrado no lixão em São Paulo”. O Indigo Blue e o corpo negro seminu rimam, este é o tema do álbum, este é seu incômodo.

Um incômodo mais antigo, e infelizmente pouco ambivalente, também se repete neste álbum: a representação da mulher. Ela é mercadoria desejada, também a ser comprada, roubada de outro homem ou cortejada romanticamente. Mesmo na questão racial, sempre tão potente nas letras do Racionais, há pouca diferença. No máximo o interesse masculino fica reduzido às mulheres do seu grupo social-racial. Nas canções mais românticas houve uma inversão em relação a faixas mais antigas: a negra se torna companheira e a branca de alta classe fica relegada ao papel de diversão, objeto de ostentação (“Comer todas as burguesas em Fernando de Noronha” ainda dói nos ouvidos). A hipersexualização histórica da negra no Brasil, e sua solidão conjugal, encontra nesta inversão uma solução? Ou o machismo só se especializa? Do ponto de vista do consumo, tema central do álbum, o papel feminino continua a ser passivo, o de ser consumida como produtos das marcas de grife desejadas: “Swing e chocolate, preta Cadillac / Nem caro nem cost, nem Ferrari ou Lacoste”.

Apesar disso, nas falhas e nos acertos, o aspecto mais importante deste álbum fica nas partes em que a contradição é mantida sem resolução fácil, como nas obras de arte mais interessantes que ajudam a nomear não o que já passou, mas o que ainda está para se decidir. Se é verdade que politicamente o Brasil ainda não saiu de 2013, esteticamente este álbum está na ordem do dia. Com a crise econômica e moral galopante acentuada pelo golpe, nunca a questão do consumo – e de sua perda – esteve tão visível no cotidiano. Trata-se de um álbum que tenta dar voz ao espírito contraditório de uma classe social recém-surgida no Brasil e já em perigo de extinção. Há décadas nenhuma outra voz da música brasileira falou sobre temas tabu, à esquerda e à direita, com a complexidade de quem as conhece e com a complexidade da expressão do grande artista. Conservação da grandeza da música negra brasileira e sua atualização última. O minimalismo do último álbum, uma mix tape ultra produzida, tão curto, é sinal de sabedoria, precisão que vem com a idade, sem fugir da raia. “Me degradar pra agradar vocês? Nunca”. Recado dado.

Foto: Boogie Naipe

 



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