Folha solta código de normas para jornalistas nas redes sociais e redação apelida de AI-5

Comunicado orientando os jornalistas e colunistas a não expressarem opiniões políticas nas redes sociais foi enviado em meio à polêmica demissão do repórter Diego Bargas após uma entrevista crítica com Danilo Gentili. Na redação...

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Comunicado orientando os jornalistas e colunistas a não expressarem opiniões políticas nas redes sociais foi enviado em meio à polêmica demissão do repórter Diego Bargas após uma entrevista crítica com Danilo Gentili. Na redação da Folha, normas estão sendo tratadas como um AI-5 profissional

Por Redação

Jornalistas e colunistas da Folha de S. Paulo não poderão expressar opiniões políticas nas redes sociais. Fórum teve acesso, nesta quinta-feira (19), a um comunicado enviado pelo editor-executivo do jornal, Sérgio D’Ávila, a todos os seus jornalistas e colunistas.

Trata-se de um manual de conduta na redação que orienta os profissionais a não publicarem opiniões sobre matérias do jornal, independente se a matéria em questão for de sua própria autoria. O manual chama a atenção, especialmente, para a proibição de emitir opiniões político-partidárias pois isso colocaria em xeque a credibilidade do jornal, mesmo se o profissional deixar claro que se trata de uma opinião pessoal.

“Parcela do público pode pôr em dúvida a isenção daquele que, na internet, manifesta opiniões sobre assuntos direta ou indiretamente associados a sua área de cobertura, especialmente as opiniões de cunho político-partidário e em áreas de cobertura de tópicos controversos”, diz um trecho do comunicado, que diz ainda que a Folha tem “a imparcialidade como princípio editorial”.

“A responsabilidade pelos comentários em página pessoal nas redes sociais é exclusiva do jornalista, mas uma manifestação imprudente, mesmo que não diga respeito a sua área de cobertura, pode dificultar o trabalho de colegas de Redação”, completa o editor-executivo.

O comunicado surge logo após o jornal ter demitido o jornalista Diego Bargas por conta de uma entrevista sobre o novo filme de Danilo Gentili em que ele faz perguntas “inconvenientes” ao apresentador de televisão. Logo após a publicação da entrevista, em que questiona o incentivo ao bullying e a pedofilia, Bargas passou a ser perseguido por Gentili nas redes sociais por conta de seus posicionamentos políticos. Em meio à perseguição de Gentili, que tem milhares de seguidores nas redes, veio a demissão.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgaram nota conjunta repudiando a demissão do repórter.

“O texto de Bargas é uma reportagem correta, que analisa o filme e reproduz pontos de vista de Gentili e do diretor Fabrício Bittar expressos em entrevista ao jornalista. Gentili, porém, decide massacrar o jornalista em rede social, mostrando sua intolerância à atividade jornalística, e manipular o episódio para tentar melhorar o resultado comercial de seu produto”, escreveram as entidades.

Dentro da redação da Folha, as normas estão sendo tratadas como um AI-5 profissional e devem causar polêmica, em especial com colunistas que, conforme a Folha diz esperar, devem se comportar da mesma maneira, já que têm como ofício justamente a divulgação de suas opiniões.

Confira, abaixo, a íntegra do manual enviado pelo jornal aos seus profissionais.

Sobre: atuação em redes sociais e assistência jurídica

Este texto consolida comunicados anteriores sobre o mesmo tema, divulgados nos últimos cinco anos. Uma versão ampliada dele constará do novo Manual da Redação, a ser publicado no começo de 2018.

1. A Folha encoraja seus profissionais a manter contas em redes sociais. Podem ser ferramentas úteis para fazer novos contatos e cultivar antigos, pesquisar pautas, tendências e personagens, agilizar apurações e promover conteúdo próprio e de colegas de jornal, expandindo o alcance do material publicado;

2. Nas redes sociais, a imagem pessoal tende a se misturar com a profissional. Parcela do público pode pôr em dúvida a isenção daquele que, na internet, manifesta opiniões sobre assuntos direta ou indiretamente associados a sua área de cobertura, especialmente as opiniões de cunho político-partidário e em áreas de cobertura de tópicos controversos;

3. Mesmo que o faça fora do horário de trabalho e ressalve que aquela é uma posição pessoal, o jornalista fica sujeito a suspeição, assim como o veículo. Revelar preferências partidárias e futebolísticas ou adotar um lado em controvérsias tende a reduzir a credibilidade do jornalista e a da Folha, que tem o apartidarismo como princípio editorial;

4. A melhor maneira de evitar armadilhas é assumir que conteúdo postado na internet é público, nunca desaparece e pode ser facilmente descontextualizado. O alerta também vale para ferramentas de comunicação privada nas redes sociais ou aplicativos de mensagens;

5. A responsabilidade pelos comentários em página pessoal nas redes sociais é exclusiva do jornalista, mas uma manifestação imprudente, mesmo que não diga respeito a sua área de cobertura, pode dificultar o trabalho de colegas de Redação e, eventualmente, sua própria atuação futura. Assim como repórteres acompanham as redes sociais de pessoas públicas, as fontes, os possíveis entrevistados e grupos de pressão também consultam o perfil digital de jornalistas;

6. Tenha cuidado ao compartilhar conteúdos externos. O ato pode ser interpretado como endosso à opinião ou à veracidade da notícia. Ao postar conteúdo opinativo ou polêmico de terceiros, adicione uma introdução neutra. Exemplo: Dilma atacando o ex-vice. @dilmabr: A onda regressiva do governo golpista vai se agravando;

7. Além de seguir as orientações acima, o profissional não pode:

— antecipar reportagens e colunas que serão publicadas (incluindo teasers), mesmo as de sua autoria, salvo com autorização de seus superiores ou, se colunista, da Secretaria de Redação;
— divulgar bastidores da Redação ou dados e documentos internos da empresa, a menos que seja decisão do jornal;
— divulgar informação que o jornal decidiu não publicar por colocar em risco pessoas ou empresas (como sequestro em andamento ou boatos de falência, por exemplo);
— emitir juízos que comprometam a independência ou prejudiquem a reputação, a isenção ou a linha editorial da Folha ou de seus jornalistas;
— utilizar contas da Folha nas redes sociais em desacordo com os procedimentos e as condutas prescritas no Manual;
— destratar quem quer que seja. Em caso de insultos ou ofensas pessoais, responda educadamente ou ignore, mas jamais troque desaforos com quem quer que seja. Se pertinente, os superiores hierárquicos devem ser informados da altercação. Esse comportamento também é esperado de colunistas;
— postar conteúdo integral de reportagens e colunas. Em vez disso, deve-se publicar um link para a Folha, de preferência com uma amostra do material jornalístico. Na publicação de conteúdo jornalístico, incluindo imagens, o profissional da Redação deve dar prioridade às plataformas da Folha. O mesmo vale para análises e opiniões, dado que o jornal cultiva uma política de exclusividade;

8. A Empresa Folha da Manhã S.A. oferece serviço de assistência jurídica aos profissionais que dela necessitem em decorrência de sua atuação na Folha. Além disso, consultores jurídicos ajudam a esclarecer questões legais relacionadas a conteúdos jornalísticos que a Redação queira publicar.



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