Para 1ª senadora trans do Uruguai, “cura gay é retrocesso preocupante”

“O mais incrível é que isso tenha partido de quem deveria zelar pelo Estado de direito e, desde o Estado de direito, pretende aplicar a moral em grupo ao resto da população”, afirmou Michelle Suárez.

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“O mais incrível é que isso tenha partido de quem deveria zelar pelo Estado de direito e, desde o Estado de direito, pretende aplicar a moral em grupo ao resto da população”, afirmou Michelle Suárez.

Da Redação*

A advogada e ativista Michelle Suárez, de 34 anos, se transformou no centro das atenções em todo Uruguai. Há uma semana ela tomou posse no Senado e se tornou a primeira parlamentar transexual do Uruguai. Em entrevista ao UOL, ela comentou a polêmica brasileira em torno da “cura gay” e declarou: “É um passo de um retrocesso preocupante”.

“É muito difícil avaliar a realidade de um país estando fora, mas uma coisa que se pode opinar é que essa decisão se dá de costas contra toda uma linha internacional”, avaliou Michelle, ao comentar uma liminar concedida em setembro, pelo juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara do Distrito Federal, que permite que psicólogos ofereçam terapias de reversão sexual, conhecidas como “cura gay”, sem a necessidade de autorização do Conselho Federal de Psicologia.

“O mais incrível é que isso tenha partido de quem deveria zelar pelo Estado de direito e, desde o Estado de direito, pretende aplicar a moral em grupo ao resto da população. E o pior é que, para aplicar a moral aos demais, classifica os corpos em certos e errados. Essa é uma ideia muito perigosa”, afirmou.

A senadora lembra que a homossexualidade deixou internacionalmente de ser considerada doença na década de 1970. “Além disso, há todo um movimento de despatologização das identidades, das orientações, da ideologia de gênero, da intersexualidade. [A liminar] se dá totalmente de frente contra essa posição. Esse é um passo de um retrocesso que é, pelo menos, preocupante”.

Uma das perguntas que mais têm sido feitas a ela é sobre como se sente sendo a primeira senadora trans do país. “É uma dualidade. Por um lado me sinto muito honrada de poder ocupar um lugar no espaço mais representativo da democracia uruguaia, que é o parlamento, mas, por outro lado, é algo que denuncia uma situação de vulnerabilidade”. A senadora lembra que teve sentimento parecido em 2009, quando se tornou a primeira transexual com nível superior no Uruguai.

Conhecida nacionalmente como ativista da causa LGBT, Michelle foi uma das autoras do projeto de lei de casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovado em 2013, quando o Uruguai se tornou o segundo país da América Latina a possuir legislação desse tipo.

A senadora é integrante da coalizão Frente Amplio, a mesma do presidente Tabaré Vázquez, e foi eleita em 2014 como suplente do senador Marcos Carámbula. Sua posse, no último dia 10, ocorreu como forma de estimular o debate público e acelerar a votação de um projeto de lei, do qual Michelle é coautora, que foi apresentado no primeiro semestre deste ano e é voltado para a população trans.

A matéria prevê, entre outras medidas, conceder ajuda financeira a trans que tenham sofrido dano físico, moral e/ou psicológico; estabelecer cotas para a população transexual em serviços públicos e universidades; e transformar em trâmite administrativo, e não mais judicial, o processo de mudança de nome e sexo em documentos de identificação. A senadora espera que o projeto seja aprovado pelo Congresso até o próximo ano.

Em seu curto discurso de posse, Suárez afirmou que as oportunidades que poderá ter são impossíveis “para muitas das minhas companheiras trans porque elas não têm liberdade para escolher por sua realização profissional, para levar adiante sua vocação ou seus sonhos”.

Censo

Um censo inédito realizado em 2016, pelo governo uruguaio, mostrou que há 853 pessoas transexuais no país, sendo 90% mulheres. A pesquisa concluiu, também, que quase 70% já fizeram ou faziam trabalhos sexuais. A população total do Uruguai é de 3,4 milhões de habitantes.

O Brasil não possui estudo semelhante, embora lidere, em números absolutos, o ranking dos países onde mais se mata travestis e trans no mundo, de acordo com levantamento de 2016, feito pela ONG Transgender Europe. Em números relativos, o Brasil ocupa a quarta posição, atrás de Honduras, Guiana e El Salvador.

*Com informações do UOL

Foto: Commons



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