João Doria faz propaganda de empresas doadoras que devem à prefeitura

Para especialista em mídias sociais, os vídeos publicados pelo prefeito de São Paulo trazem um ganho enorme para a marca das empresas. “Em marketing comercial é sempre melhor alguém falar bem de você do que você mesmo”.

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Para especialista em mídias sociais, os vídeos publicados pelo prefeito de São Paulo trazem um ganho enorme para a marca das empresas. “Em marketing comercial é sempre melhor alguém falar bem de você do que você mesmo”.

Da Redação*

João Doria (PSDB) tem feito propaganda para empresas devedoras de impostos para a cidade, dentro da política de doações. A Siemens, por exemplo, ganhou longos minutos de exposição de sua marca em um vídeo feito pela prefeitura, no qual é divulgado o empréstimo, feito em parceria com a Truckvan, de uma carreta equipada com um tomógrafo “de última geração”.

O empréstimo, segundo a publicação, é válido por quatro meses e equivale a R$ 800 mil. A Siemens, segundo o cadastro da dívida ativa da cidade, deve nada menos do que R$ 79,5 milhões em ISS (Imposto Sobre Serviços), valor que, como comparação, seria suficiente para 33 anos de uso da carreta.

“Olá pessoal, hoje mais um conjunto de doações por empresas de alta tecnologia”, diz Doria, em um segundo vídeo, enquanto o símbolo da Siemens aparece na tela. Depois da doação, a Siemens foi capa da revista Lide, uma publicação do Grupo Doria – antes de assumir, o prefeito deixou o controle das empresas nas mãos de familiares.

Outra marca beneficiada pelo prefeito foi a Ultrafarma, que ganhou um vídeo bastante espirituoso na internet no qual o tucano exibe vários produtos da empresa. “Pessoal, hoje temos a nossa quarta reunião do secretariado. Estou dando uma boa dose de vitaminas para eles”, diz o tucano. “Tudo isso para aguentar o tranco”. Apenas no Facebook, Doria tem 2,9 milhões de seguidores.

Ao mesmo tempo em que figura como parte de processo por dívida com a prefeitura de R$ 71.122 em impostos, a Ultrafarma comprou, a título de doação, painéis publicitários em partidas da Seleção Brasileira de Futebol. Os painéis, avaliados em R$ 325 mil, foram usados pela prefeitura para exibir em transmissão nacional marcas publicitárias da gestão João Doria.

O prefeito é pré-candidato a presidente e já usou a expressão “empresas do bem” para se referir àquelas que se dispõem a fazer doações para a cidade de São Paulo.

Benjamin Rosenthal, professor da FGV e especialista em mídias sociais, diz que os vídeos publicados por Doria trazem um ganho enorme para a marca das empresas. “Em marketing comercial é sempre melhor alguém falar bem de você do que você mesmo”, considera.

Rosenthal acredita que a empresa se beneficia não apenas em razão do grande número de seguidores de Doria nas redes sociais, mas, sobretudo, pelo fato de o endosso partir do próprio prefeito. “Um endosso como esse vale muito mais do que uma propaganda feita por um influenciador digital”, garante.

Ao anunciar as doações em suas redes sociais, Doria costuma dizer que pratica uma forma “diferente” de gestão. “É gestão eficiente, sem recurso público”, declarou em vídeom no qual agradece a Ambev, empresa que deve R$ 76,8 mil em impostos. A Ambev, que integra a maior cervejaria do mundo, patrocinou a reforma de sete quadras esportivas do parque Ibirapuera, fez um investimento de R$ 229 mil. Doou também uma geladeira de R$ 1.600 para o gabinete do prefeito.

O Ministério Público investiga se a administração interferiu em uma concorrência para escolha do patrocinador oficial do Carnaval de Rua em favor de uma empresa contratada da Ambev. Após ceder uma tonelada de pavimento seco para a cidade, a Único Asfaltos ganhou um texto elogioso no site da prefeitura no qual há menção até ao “preço competitivo” do seu produto.

“O material tem qualidade rodoviária e é instantâneo. É ideal para prefeituras, empresas de água e esgoto, empreiteiras, condomínios, residências, shoppings, estacionamentos, postos de gasolina e outros empreendimentos”, diz a peça oficial. O texto diz ainda que a empresa se interessou em fazer a doação após “ver o voluntariado de personalidades como o Roger, da banda Ultraje a Rigor, nos eventos de tapa-buraco com o prefeito”. A empresa tem uma dívida de R$ 193 mil com a cidade. A doação vale R$ 800.

Uma das maiores devedoras do município também está entre as doadoras. A Bemis Latin America, que já patrocinou um almoço-debate do Lide com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, tem uma dívida de R$ 727 milhões em impostos. A contribuição da Bemis com a cidade é sensivelmente inferior: R$ 5.400 em camisetas com os logotipos dos programas “Cidade Linda” e “Calçada Nova”, vitrines políticas de Doria.

*Com informações do UOL

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas

 

 



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